Pesquisas revelam fragilidades de Bolsonaro

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:03 - 2 de jul de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

O Instituto Datafolha promoveu recentemente diversas pesquisas, ouvindo 2.016 pessoas espalhadas pelas cinco regiões geográficas do Brasil. A intenção da pesquisa nacional era verificar a opinião dos brasileiros sobre vários aspectos que envolvem a vida social e política do país e que, por suas falhas, muito tem preocupado os cidadãos, sobretudo nesse período da pandemia, quando milhares de brasileiros têm passado por grandes dificuldades.

Atualmente, cerca de 14 milhões se encontram desempregados; muitos outros apresentam problemas para o recebimento do auxílio governamental; centenas estão sendo beneficiados, por meio de falcatruas e, na realidade, nem deveriam receber qualquer apoio do Estado.

No meio de tudo isso, a fragilidade institucional é alarmante, com um governo sem rumo e com uma troca-troca de ministros de forma intensa, exemplos nas Pastas da Educação, Justiça e Segurança Pública, Saúde e Secretaria Nacional de Cultura, para citar apenas quatro. As manifestações antidemocráticas e a onda de fake news que se espalhou pelo país nos últimos meses tiveram efeito contrário ao pretendido pelos grupos de extremistas que apoiam o governo Bolsonaro. E a reação da maioria da população em defesa da democracia ficou evidenciada na última rodada de pesquisas do Datafolha.

Nos números divulgados na segunda-feira (29) pelo instituto, 81% disseram que espalhar fake news contra políticos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ameaça a democracia. A pesquisa aponta, ainda, que manifestações de rua contra os Poderes Judiciário e Legislativo são vistas como um grave risco democrático por 68%, ante 29% que não pensam dessa forma.

Além disso, no fim de semana, o instituto divulgou também que 75% dos brasileiros apoiam a democracia, o maior número da série histórica. A pesquisa foi feita em 23 e 24 de junho, por telefone, com 2.016 pessoas. A margem de erro é de dois pontos percentuais para baixo ou para cima.

Diante de atos que pediam a intervenção militar e o fechamento do STF e do Congresso Nacional, por apoiadores do presidente Bolsonaro, houve uma forte reação institucional, a começar pela unidade dos 11 ministros da Suprema Corte. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) retomaram bandeiras históricas em defesa da democracia. Um país só pode ser livre se o seu regime é democrático, e esse é princípio consagrado no Brasil.

Mais de três décadas depois da redemocratização, o país voltou a debater, quem diria!, sobre o que foi a ditadura militar (1964-1985), com suas características mais sombrias e devastadoras, como torturas, assassinatos, cassação de mandatos e censura à imprensa. Os brasileiros mais jovens, que não vivenciaram esse período, passaram a discutir o tema. E o resultado foi uma rejeição majoritária desse regime no país, que instaurou um período nefasto, negro e de grande turbulência na vida nacional, deixando marcas e cicatrizes profundas no país, com centenas sendo exilados. Vivemos os “anos de chumbo”.

As pesquisas continuaram sendo realizadas, e no último domingo, dia 28, 42% dos brasileiros disseram acreditar que governo deveria ouvir técnicos e especialistas para tomar decisões importantes. Aliás, se o governo tivesse bom senso, estaria, desde o seu início, adotando tal prática, imprescindível, certamente, para que decisões sejam baseadas em colaboradores especialistas nas diversas áreas da máquina administrativa. Nessa mesma enquete, 54% dos entrevistados acham que governo deveria tomar decisões importantes a partir da opinião dos cidadãos.

A pesquisa questionou ainda a opinião dos brasileiros sobre tortura, voto, movimentos sociais e direitos humanos. Em relação à tortura, 17% acham que a tortura pode ser praticada se for a única forma de obter provas e punir criminosos, enquanto 79% acreditam que a tortura nunca pode ser praticada, mesmo se for a única forma de obter provas e punir criminosos. No que diz respeito ao voto, 81% acham que qualquer pessoa, independentemente de ser analfabeto, deve ter direito de votar nas eleições, e 18% acham que apenas pessoas alfabetizadas deveriam ter o direito de votar nas eleições.

Já o que diz respeito aos movimentos sociais, 84% disseram que movimentos sociais precisam respeitar a lei e a ordem para reivindicar seus direitos, e 14% acreditam que movimentos sociais podem ir contra a lei e a ordem para reivindicar seus direitos. Os direitos humanos também foram objeto da pesquisa. E 32% acham que direitos humanos não devem valer para criminosos, e 65% falaram que os direitos humanos devem valer para todos, inclusive para criminosos.

O Datafolha também consultou os brasileiros sobre a imagem pessoal do presidente Bolsonaro em relação a alguns tópicos, e a comparação com resultados do primeiro de trimestre de 2019, no início de seu governo, mostra uma piora na visão que os brasileiros têm sobre seu presidente. Para 54% dos brasileiros, atualmente, o presidente é visto como pouco inteligente, e 40% o consideram muito inteligente. No início de seu mandato, segundo pesquisa realizada nas ruas do país, a maioria, 58%, via Bolsonaro como muito inteligente, e para 39% ele era pouco inteligente. No mesmo período, caiu de 52% para 38% o índice dos que o consideram preparado, e subiu de 44% para 58% a taxa dos que o veem como despreparado.

Esse mesmo período de governo também mudou a avaliação de que Bolsonaro era decidido, antes defendida pela maioria, 56%, agora 46% têm essa opinião. Em 2019, a maioria, 57%, já considerava o presidente Bolsonaro autoritário, percepção que aumentou e agora abrange 64%. Sobre sua sinceridade, passou de 59% para 48% o índice dos que o consideram sincero, e a fatia dos que o veem como falso subiu de 35% para 46% nesse período. Na avaliação se o presidente respeita mais os mais ricos ou os mais pobres em seu governo, a maioria continua do lado que o vê como defensor dos mais ricos, 58%, ante 57% na pesquisa anterior.

Uma parcela de 52% avalia que Bolsonaro é incompetente, e 44% o consideram competente. Na avaliação sobre a honestidade do presidente, porém, há 48% que o veem como honesto, e 40% que o apontam como desonesto, com 12% sem opinião a respeito. Essas duas últimas características não haviam sido medidas anteriormente.

De forma geral, a parcela que aprova o presidente tem uma percepção amplamente positiva sobre ele, já que 92% o consideram competente, 93% o veem como honesto, para 85% ele é preparado, e 65% o consideram democrático, por exemplo, e aqueles que reprovam sua gestão atribuem a ele características negativas. Para 92% ele é incompetente, para 84%, falso, para 93%, despreparado, e para 89%, autoritário.

No segmento que nem o aprova nem o reprova, avaliando seu governo como regular, as opiniões sobre sua se dividem entre posicionamentos críticos e favoráveis. Nesse grupo, por exemplo, 55% o veem como indeciso, e 43%, como decidido. Para 54%, ele é pouco inteligente, e 37% o veem como muito inteligente. A maioria, porém, o enxerga como honesto (55%) e sincero (57%), em detrimento dos que o consideram desonesto (25%) e falso (30%).

Dois em cada três (65%) brasileiros adultos avaliam que a pandemia do coronavírus está piorando no Brasil, já 28% avaliam que a situação está melhorando. Uma fração de 4% avalia que a situação está estável e 3% não opinaram. A avaliação que a situação do coronavírus no Brasil está se agravando é majoritária em todos os segmentos sociodemográficos e alcança índices mais altos entre as mulheres (70%), entre os moradores da região Sul (73%), entre os mais jovens (74%) e entre os que reprovam a gestão Bolsonaro (80%). Em contrapartida, a avaliação que a situação está melhorando é mais alta entre os homens (34%), entre os moradores da região Nordeste (34%) e entre os que aprovam o Governo Bolsonaro (46%).

No último fim de semana, o Brasil atingiu o patamar de mais de 50 mil mortos por Covid-19. Quando questionados sobre o tema, 54% avaliam que o país não fez o que era necessário para evitar esse número, 23% avaliam que o país fez o que era necessário para tentar evitar esse número e 19% avaliam que nada que o país fizesse evitaria essa quantidade de óbitos por Covid-19. Uma parcela de 5% não opinou.

A percepção que o país não fez o que era necessário a fim de evitar essa tragédia cresce conforme aumenta o grau de instrução e a renda familiar mensal do entrevistado. O índice é também mais alto entre os que reprovam a administração Bolsonaro (74%) e entre os que avaliam que a situação da pandemia se agrava no país (62%). Já a percepção que o país fez o que era necessário para evitar esse número de mortos por Covid-19 alcança índices mais altos entre os moradores de região Sul (30%), entre os que avaliam que situação da pandemia está melhorando (34%) e entre os que aprovam a gestão Bolsonaro (37%).

Diante desses resultados, fica claro que se o presidente Bolsonaro quiser se manter no cargo e à frente da Presidência da República, ele terá de mudar completamente o seu discurso e sua forma truculenta de ser e de agir. Uma mudança de 360º. De nada adianta dar tímidos sinais de trégua, em um dia, com o Legislativo e o Judiciário, e no dia seguinte começar a batalha, disparar a artilharia outra vez. Essa bipolaridade administrativa é absolutamente terrível, nociva e destrutiva para o Brasil.

Prova dessa fragilidade é, dentre tantos outros aspectos, o posicionamento de 15 países europeus que não permitem a entrada de brasileiros em seus territórios, por causa da ausência de uma política efetiva no combate ao coronavírus. Isso sem falar no abalo com as relações comerciais e políticas com a China. Um vexame internacional.

Enquanto isso, Fabrício Queiroz está preso; sua mulher está foragida; o advogado Frederick Wassef saiu da defesa de pai e filho; não há ministro da Educação, o professor Carlos Alberto Decotelli mais pareceu a viúva Porcina, de Roque Santeiro, de Dias Gomes, aquela que foi sem nunca ter sido, ficou cinco dias no MEC; a Saúde continua com um interino; Márcio Frias assumiu a Cultura e não disse a que veio; mais de 40 pedidos de impeachment repousam nas gavetas do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia; a diplomacia brasileira é vergonhosa; os partidos não se unem em defesa do Brasil; uma procuradora chega a Curitiba e, sem mais nem menos, sem dizer claramente o que desejava aos colegas, quer saber sobre os meandros da Operação Lava Jato… e por aí seguimos diante de tantas estupefações. Mas até quando?

Bom, nem tudo está perdido. Pelo menos, Gilberto Gil comemorou o seu aniversário de 78 anos, sendo vivamente homenageado, mesmo que virtualmente, por milhares de amigos e fãs. Aplausos.

Paulo Alonso

Jornalista.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor