PIB crescerá em 2021, mas há riscos; haja coração!

Por Ranulfo Vidigal.

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A arte imita a vida concreta de nosso cotidiano cheio de novidades e desafios. Na série Crown – disponível nas plataformas tipo streaming mais famosas do planeta – há uma cena (retratando um fato real ocorrido nos anos 1980), onde um homem comum invade o palácio onde vive a rainha da Inglaterra para, simplesmente, fazer um desabafo (e tentar fazer a dirigente cair na real) sobre o desemprego e a crise social vigente no período Thatcher (a Dama de Ferro), que impôs um duro ajuste fiscal ao povo inglês, mas garantiu à elite econômica ganhos fabulosos.

Naquela época, como agora na terra da jabuticaba, do juro pornográfico e das falências dos pequenos negócios, demandas por efetividade de direitos eram vistas como fatores de perturbação social, enquanto as demandas do deus mercado eram tratadas como exigências empíricas, fiscalmente neutras e moralmente justas.

Sorrateiramente, chega uma nova onda da pandemia no exterior e no Brasil. O noticiário anuncia a reversão abrupta na curva de infecções da Covid-19 e já tem o cálculo da extensão do auxílio emergencial até abril, quando chega uma vacina: R$ 15 bilhões, dizem os especialistas no assunto. Viramos uma terra de jovens ansiosos por entender o que será de suas vidas e suas experiências laborais, diante de tanta mudança.

Aliás, enquanto as universidades públicas se preocupam com a crescente perda de recursos orçamentários, as faculdades privadas são afetadas por perda de alunos, inadimplência, ações judiciais, procura por cursos mais baratos, bem como ensino a distância. E na educação básica, a regulamentação do Fundeb ainda não veio.

No campo político, o número de prefeituras ganhas pelos partidos tradicionais da política brasileira que compõem o famoso Centrão, que dita o ritmo das votações no Congresso Nacional, subiu de 3,2 mil para 3,6 mil (perfazendo 65% das 5.570 cidades do país), e o de vereadores eleitos por estas legendas subiram de 32,5 mil para 36,4 mil.

Voltando à questão econômica, para 2021, devemos observar uma troca de marcha no motor da retomada, à medida que uma vacina eficaz seja amplamente distribuída e a economia volte ao normal. Setores mais diretamente beneficiados pelo auxílio emergencial de 2020, como alimentos, material de construção e bens duráveis de menor valor, devem perder força.

Em parte, essa desaceleração será compensada pelos setores puxados pela redução da poupança circunstancial das classes mais ricas feita durante a pandemia, pelos serviços e pelos setores ligados a crédito. O resultado líquido será um PIB que cresce menos do que no segundo semestre de 2020, mas segue avançando.

Há, contudo, riscos. O setor de serviços, que representa 63% do PIB, pode ter sua recuperação comprometida caso a segunda onda da pandemia leve a novas medidas restritivas ou ao aumento da aversão ao risco da população.

Outro risco é a incerteza acerca da “troca de marcha” do início de 2021. Tal mudança dependerá de três aspectos: i) do ritmo de consumo neste final de ano; ii) a manutenção da poupança criada principalmente pelas famílias mais ricas mesmo passada a pandemia; e iii) o mais importante, o ritmo de recuperação do mercado de trabalho.

Diz a sabedoria popular que o verdadeiro teste de vida de um ser social ocorre quando é claramente ameaçado, ou assume um posto de mando na estrutura burocrática estatal. Nossa elite quando ameaçada chama a repressão e no poder ignora o clamor popular.

Ranulfo Vidigal

Economista.

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