PIB de 2023: avaliações sobre o crescimento de 2,9%

Conversamos com três especialistas do mercado financeiro sobre suas avaliações sobre o desempenho do PIB no 4T23 e em 2023.

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O Produto Interno Bruto (PIB) de 2023, na série com ajuste sazonal, fechou com um crescimento de 2,9%, com a Agropecuária registrando um aumento de +15,1%, a Indústria, +1,6%, e Serviços, +2,4%. Já no trimestre x trimestre, na série com ajuste sazonal, o PIB do 4T23 ficou estável em 0,0%, com a Indústria crescendo +1,3% e Serviços +0,3%, mas com a Agropecuária recuando -5,3%.

Para entendermos melhor o resultado apresentado pelo PIB, conversamos com três especialistas do mercado financeiro.

Igor Cadilhac, economista do PicPay

O número veio pior do que as nossas projeções que apontavam um avanço de +0,1%. Do lado da oferta, com exceção da agropecuária, -5,3%, os setores apresentaram expansão na margem. A indústria cresceu +1,3% impulsionada pelo setor extrativo, +4,7%, e de construção, +4,2%. Já os serviços, +0,3%, foram puxados pelas atividades financeiras, +0,7%, imobiliárias, +0,1%, utilidade pública, +0,1%, e outras, +1,2%.

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Do lado da demanda, os sinais foram mistos. De um lado, os investimentos surpreenderam, mostrando crescimento de +0,9%. Além disso, o consumo do governo também aumentou +0,9%. Por outro, o consumo das famílias caiu -0,2%, após uma sequência de 9 avanços consecutivos.

Olhando para frente, nosso cenário base segue de desaceleração da atividade econômica, ainda que cada vez mais contida. De um lado temos os efeitos defasados da política monetária, a dissipação do impulso no período pós-pandemia e um ajuste fiscal concentrado na elevação de arrecadação de impostos.

Por outro, ainda temos observado um mercado de trabalho aquecido, uma retomada do setor industrial global impulsionada pela normalização dos estoques e a permanência de alguns estímulos governamentais devido, inclusive, às eleições regionais. Para 2024, estimamos um crescimento de +1,8%.

Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master

Esse foi o segundo ano em que o Brasil cresceu quase 3%, sendo que isso não acontecia desde o início da década de 2010. Na ponta, o dado já não foi tão bom, pois o crescimento no 4T23 foi zero, ou seja, a economia estagnou. Se nós olharmos os quatro trimestres do ano, nós vemos uma desaceleração, efeito dos juros muito elevados. Aliás, o Brasil conseguiu crescer 2,9% com uma Selic de quase 14% no pico, algo até heroico. Para este ano, a expectativa é muito melhor com a Selic caindo abaixo de 10%, com o crescimento, possivelmente, chegando em, pelo menos, 2%.

Quando nós abrimos o PIB do ano passado, nós vemos que a Formação Bruta de Capital Fixo, o chamado investimento, despencou, caindo -3%, muito em consequência desse juro elevadíssimo. Para que tenhamos uma comparação, em 2022 a Formação Bruta de Capital Fixo havia aumentado +1,1%. Outra notícia ruim foi a contração de -1,3% da indústria da transformação monofatura, o que mostra uma nova desindustrialização do país, um grande problema que enfrentamos. Eu destacaria esses dois pontos como as más notícias.

Com relação às boas notícias, nós temos o crescimento exuberante do agronegócio, +15,1%, no ano x ano, apesar da desaceleração do 4T23. A indústria extrativa também teve um crescimento exuberante de +8,7%, tendo como destaques o minério de ferro e o petróleo. O Brasil é o segundo maior produtor de minério de ferro e o sétimo maior produtor de petróleo no mundo, com o país caminhando para quase 4 milhões de barris/dia de petróleo, mesmo nível de produção do Irã.

As exportações também tiveram uma expansão impressionante, subindo 9,1%, e as importações caíram 1,2%, o que mostra que a atividade mais fraca pesa nas importações. No final do dia, nós tivemos um superávit comercial de US$ 98 bilhões, quase o dobro do superávit de 2022.

O grande desafio do país é retomar os investimentos, já que nós caímos, novamente, para uma mínima de quase 20 anos de Formação Bruta de Capital Fixo de 16% sobre o PIB. Esse número, que já ficou em 22%, 23% em 2014, 2015, havia se recuperado para 18% e agora despencou para 16%, mais um sinal de que, realmente, os juros precisam cair, pois a economia está desacelerando na ponta e o investimento está muito baixo.

Rafael Perez, economista da Suno Research

O PIB veio em linha com nossas expectativas, porém, abaixo do consenso de mercado. A dinâmica no 4T23 pode ser explicada pelo mercado de trabalho aquecido e a resiliência de alguns setores, como serviços, +0,3%, e da indústria extrativa, +4,7%, mas o grande destaque positivo foi a retomada do crescimento dos investimentos, +0,9%, após quatro trimestres consecutivos de queda. 

O agro foi o principal motor da economia em 2023 com uma alta de +15,1% no ano. A forte expansão da safra 2022/23, principalmente da soja e do milho, a queda nos custos de produção, as melhores condições climáticas e o aumento das exportações permitiram o bom desempenho do setor no ano passado.

O Consumo das Famílias, com um crescimento de +3,1% em 2023, também foi um dos destaques para a expansão do PIB ano passado. Entre as principais razões para esse resultado destacamos a queda na inflação, o mercado de trabalho aquecido, a expansão da massa salarial, o aumento das transferências sociais e a alta do salário-mínimo. 

Outro setor que apresentou um bom desempenho foram as exportações, com uma alta de +9,1% em 2023, devido à safra recorde de grãos, aumento da produção de petróleo, as importações chinesas e as cotações ainda favoráveis de diversas commodities, o que permitiu um saldo recorde de quase US$ 100 bilhões da balança comercial.

O principal destaque negativo foram os investimentos, que apresentaram uma queda de 3,0% no ano. O segmento ainda tem sentido os efeitos cumulativos da política monetária restritiva e as condições mais apertadas do mercado de crédito, contudo, o dado do último trimestre pode ser um sinal de retomada para este ano, dado o ciclo de queda da Selic.

Para o 1T24, a nossa expectativa é de um crescimento de +0,7%, pois acreditamos que a atividade deve crescer de forma mais robusta devido ao mercado de trabalho aquecido, o aumento da massa salarial, a injeção de liquidez na economia com o pagamento de precatórios pelo governo e os efeitos do agronegócio, que se concentram mais neste início de ano.

Já para 2024, a nossa expectativa é de um crescimento de +1,8%, mais equilibrado entre os diversos setores, mas com a expansão devendo ficar mais concentrada no segundo semestre. O ciclo de cortes da Selic deve favorecer o mercado de crédito de forma mais clara na segunda metade do ano, impulsionando segmentos como indústria, construção civil, varejo e os investimentos, enquanto o mercado de trabalho e o aumento da massa salarial devem agir como catalisadores para a expansão do consumo.

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