‘Pior crise hídrica em 91 anos é resultado de má gestão dos recursos’

Falta de saneamento causa 273.403 internações; para presidente do Instituto Iguá, é preciso e ampliar acesso a saneamento básico.

O Brasil tem enfrentado a pior crise hídrica em 91 anos – quando teve início o monitoramento das bacias hidrográficas do país. Isso tem afetado diversos setores e não só o de energia elétrica. Para Renata Ruggiero Moraes, diretora-presidente do Instituto Iguá de Sustentabilidade, a crise que vivenciamos está relacionada a uma série de fatores que inclui a má gestão dos recursos hídricos.

“Todas as coisas estão unidas, mas não geridas de forma conectada. O avanço da fronteira agrícola, desmatamentos, isso tudo impactando no ciclo da água, na frequência das chuvas. Diminuindo a vazão dos rios, intensificando as secas, enfim, tudo está conectado. E o poder público precisa melhorar a governança dos recursos hídricos, a eficiência do uso da água, a segurança hídrica, garantir a preservação das bacias e proporcionar maior acesso a água e saneamento, já que despejando esgoto sem o devido tratamento, poluímos. É um trabalho de gestão e segurança hídrica como um todo. Todos sabem a importância da água. Sabem que ela é um elemento vital. Passamos dias sem comer, mas não sem beber. E atualmente temos mais de 35 milhões de pessoas sem acesso a água potável, o que corresponde a 17% da população. Quase metade dos habitantes não tem esgoto tratado. Essas pessoas estão distribuídas em realidades distintas: 20 milhões em áreas rurais, mais isoladas, onde é muito difícil construir redes e nas quais não há viabilidade econômica para a implantação de sistemas convencionais de saneamento”, analisa.

Outro desafio também pode ser observado nas áreas urbanas. “Temos um adensamento muito grande, dificuldade de entrar com redes em comunidades, intensificação de problemas como doenças e que precisam ser pensadas soluções. Entra neste contexto, o DNA do Terceiro Setor. Temos realizado pilotos, cases em comunidades, testando soluções novas como modelos de engajamento da comunidade destes sistemas e, assim, com bons resultados podemos sistematizar essas experiências e ajudar formular políticas públicas como contribuição. O Terceiro setor tem essa flexibilidade para testar, que muitas vezes o setor público não tem, pelo engessamento e burocracia. E é diferente também do setor privado, que tem mais foco no resultado. O terceiro setor tem este papel de poder promover essa inovação social”.

Quando se fala em saneamento básico, a gestão é feita pelos municípios. “E a maior parte deles é composta por cidades pequenas, cujos os prefeitos não estão preparados. Muitos municípios sequer desenvolvem plano de saneamento básico e, sem ele, não conseguem nem recursos para esta gestão”, afirma.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que a cada R$ 1 investido em saneamento básico, há uma economia de R$ 4 em saúde. “Isso nos mostra que mais do que necessário, é um investimento que se viabiliza totalmente. Porém, infelizmente, no ponto de vista de alguns, é inviável porque não dá voto. Os frutos são de longo prazo e o impacto não é tão visível. É mais fácil gastar numa obra de hospital, quando poderia investir em saneamento e evitar que as pessoas ficassem doentes”.

Renata comenta sobre a necessidade de o setor privado pensar mais em ações ambientais. “A virada de chave é quando há um conceito da externalidade. Até hoje, a gente causa impacto, mas nem sempre internaliza esses custos. A partir do momento em que isso estiver contabilizado e for custeado pelas empresas, elas terão menos retorno e terão de se adaptarem. E é isso que ao longo do tempo tem acontecido com aquelas que estão chegando agora no mercado de capital. Se a empresa é forte consumidora de água, como ela está garantindo a manutenção das bacias de onde retiram água? Como garante processos mais eficientes não só para si própria, mas para toda a cadeia? E a partir daí que se muda o comportamento, além da pressão e conscientização da sociedade”.

A população também é decisiva nesta questão ambiental e preservação da água. “O problema é cultural no Brasil. Vai da classe A à classe E. Muitos acham que a água chega pela torneira e vai pelo ralo. Não sabem de onde vem ou para onde vai. Não se enxergam como parte da causa. Somos parte do problema e parte da solução. Temos de trazer essa consciência para as crianças. Trabalhar essa educação desde os pequenos, a interação com a natureza. O consumo de água, toda a integração de que você faz parte disso. Ter esse olhar e entender, de fato, que a água é um recurso finito”, conclui.

De acordo com o levantamento Saneamento e Doenças de Veiculação Hídrica /2019 do Instituto Trata Brasil também divulgado na terça-feira, no país foram registradas 273.403 internações com doenças de origem hídrica que escancaram a falta de saneamento básico e mostra uma situação de sobrecarga do sistema de saúde. Esse número quer dizer um aumento de 30 mil hospitalizações, se comparar com 2018, além de 2.734 mortes. A incidência de internações foi de 13,01 casos por 10 mil habitantes, gerando R$ 108 milhões ao país. O estudo foi realizado com dados públicos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) e o Datasus.

Segundo o estudo, dividido em regiões, o Maranhão se destaca como o estado com mais internações, 38,2 mil casos. Outros estados com números alarmantes são: Bahia registrou com 23,3 mil, Minas Gerais com 24,7 mil, São Paulo com 26 mil e Pará com 28 mil.

Para Renata Moraes, os dados revelam que o Brasil ainda tem muito a trabalhar em relação ao saneamento básico. “Atualmente, temos mais de 35 milhões de pessoas sem acesso à água potável, o que corresponde a 17% da população. Quase metade dos habitantes não têm esgoto tratado. A maior parte deles é composta por cidades pequenas, cujos os prefeitos não estão preparados. Muitos municípios sequer desenvolvem plano de saneamento básico e, sem ele, não conseguem nem recursos para esta gestão”, disse.

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