Pitonisa

No início da semana, provavelmente, após nova queda das bolsas, analistas vão voltar a falar em busca de barganhas. Aí, então, as cotações devem voltar a subir, fazendo a festa, mais uma vez, dos mesmos players que derrubaram os preços dos papéis, depois de embolsarem o lucros das altas, preferencialmente, após fortes valorizações que atraem os “patos” para a bolsa.

Faxina na agenda
A nova vaga udenista que surfa na indignação popular com a recorrência de falcatruas, para tentar elevar a luta contra a corrupção ao posto de prioridade número um da agenda nacional, passa longe das origens dos problemas recorrentes identificados na relação entre Legislativo e Executivo, bem como das soluções. Desde seu nascedouro na Inglaterra, o Parlamento se constitui a partir de um tripé de ouro: fiscalização do Executivo, criação de leis e feitura do Orçamento. Com as duas últimas funções capturadas pelos sucessivos governos que, desde Collor, passaram a governar por medidas provisórias (MP), e com o Orçamento transformado em peça de ficção, devido ao seu caráter autorizativo e não determinativo, restou a deputados e senadores a fiscalização dos governos de plantão, em geral, via CPIs.
Como, desde o interminável governo FH, os governos passaram a cooptar parlamentares com nomeações para cargos públicos e liberação de emendas, o papel do Congresso foi rebaixado ao varejo da política. Até apoiar CPIs virou instrumento para cacifar-se governistas no atendimento de pleitos junto ao Executivo, em vez de efetiva investigação. A culpa principal é dos diferentes ocupantes do Executivo –  o Parlamente foi cúmplice por sua omissão em relação à invasão da sua seara – que permitiram que a política virassse subproduto da economia. Com a economia transformada em dogma intocável, cuja mudança acarretaria chuvas e trovoadas, segundo o noticiário da mídia tupiniquim cúmplice dos financistas, o presidente da República, enquanto eleito por dezenas de milhões de brasileiros, torna-se mero gerente de governos cujas políticas centrais são limitadas por equipes econômicas, sem um só voto, a não ser a confiança do “mercado”.
Antes de uma faxina pontual, o que o Congresso precisa é de uma agenda legislativa. Para isso, necessita retomar o trio original das suas prerrogativas. Diante das circunstâncias, esse processo de engradecimento da política deve ser encabeçado pela presidente Dilma, em conjunto com as principais lideranças do Congresso, governistas e oposicionistas. O resto, é retórica oca de quem quer reduzir a agenda do Brasil ao moralismo de opereta.

Aterrissagem forçada
O economista Nouriel Roubini fez um alerta para a possibilidade de um pouso brusco da economia da China, onde esteve três vezes este ano, a última no verão do hemisfério Norte. Ele acredita que o nível exageradamente alto de investimentos (perto de 50% do PIB) criou um problema latente de dívida e excesso de capacidade, o que pode diminuir o crescimento econômico para 5% ou menos ao ano. Ele vê também riscos na transição da liderança política, ano que vem.
Roubini diz que para impedir um pouso brusco a China deve buscar um modelo de crescimento mais sustentável e se mostra pessimista quanto à contribuição do consumo interno para manter as taxas de evolução: “As razões para a taxa de poupança ser alta e a de consumo, baixa são estruturais” e serão necessárias “décadas de difíceis reformas políticas” para mudar este quadro.

Desequilíbrio é regra
Elias Jabbour, pesquisador-associado do Centro de Estudos de Estratégias Alternativas de Desenvolvimento/Núcleo Brasil/China/Índia (Cedes) e que defendeu tese sobre a China na USP em 2010, faz reparos ao explosivo relatório de Nouriel Roubini: “As preocupações de Roubini são as mesmas do governo chinês: ênfase nos desequilibrios macro e microecononômicos (como se a sociedade não caminhasse de desequilibrio em desequilibrio). Os cálculos microeconômicos do economista norte-americano sobre o retorno dos investimentos em infra-estrutura são uma lástima, ainda mais quando se quer comparar uma realidade continental como a da China com países como Islândia e Irlanda.”

Mais do mesmo
Sobre a transformação do modelo chinês baseado em investimentos-exportações para outro baseado em maior consumo, questiona Jabbour se isso já não ocorre. E reconhece que a economia e a sociedade chinesa têm problemas e o “modelo” está perto do esgotamento: “Agora, propor soluções tipo “mais do mesmo” não levará a discussão a canto nenhum. A liberalização cambial virá a seu tempo: nos últimos anos a moeda chinesa valorizou mais de 20% com relação ao dólar.”

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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