Politicamente correto está deixando mundo pateticamente chato

Na vida privada, essa gente pura é igualzinha a nós. Ou quase, porque são hipócritas.

Seu Direito / 16:13 - 19 de out de 2020

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No dia 16 de outubro de 2013, o jornalista Alexandre Garcia publicou um texto chamado “Quarenta anos”, onde, partindo de uma alegoria sobre um (talvez) imaginário amigo Sérgio, comparou com muita criatividade e lucidez a vida social e política de 2013 com a vida social e política de 40 anos atrás para perguntar, com um amargo na boca, que é, ao fim de tudo, a mais pura verdade: “O que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é?” E ele mesmo responde: o que nos tornou mais imbecis do que somos por nascença é a “ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto”.

Esse texto (disponível em sonoticias.com.br/alexandre-garcia/quarenta-anos/) ressurgiu na internet e mostra que continua atual, mesmo sete anos depois de sua publicação. A turminha do “mimimi”, do “politicamente correto” e do “meu mundo é perfeitinho” deixou este mundo um lugar muito chato de viver. Esses “seres” fizeram este mundo para eles, que são uns chatos. Em público, comportam-se como se vivessem numa redoma impenetrável, numa bolha onde o ar é puro, as coisas são puras e todos eles são puríssimos. Nós, os que estamos fora dessa bolha, somos todos impuros, retrô, homofóbicos, neuróticos, islamofóbicos, gordofóbicos, babacofóbicos, cheios de defeitos, racistas, comunistas, ridículos e endemoniados. Precisamos ser exterminados antes que contaminemos o mundinho deles.

Na vida privada, porém, essa gente pura certamente é igualzinha a nós. Ou quase, porque têm um acréscimo abominável e que nós não temos: são hipócritas.

Se você for seguir a cartilha do politicamente correto que eles escreveram e atualizam a cada segundo, não sai nem de casa, o que não chega a ser ruim em tempos de pandemia, mas é péssimo quando as coisas voltarem ao normal, porque essa gente vai criticar a nossa roupa, os nossos empregos, as nossas ideias, a nossa cultura, o nosso mundo e o nosso DNA. Como são muitos, e estão em todo lugar, a vida se tornará insuportável.

No dia 16 deste mês, o professor francês Samuel Paty, de 47 anos, caminhava tranquilamente pelas ruas da pequena cidade de Conflans-Saint-Honorine, na França, distante cerca de 50 quilômetros de Paris, depois de dar uma aula sobre “liberdade de expressão”, quando um jovem de 18 anos de origem chechena, e mais sete ou oito comparsas, pularam sobre ele e o decapitaram. O professor Samuel Paty tinha mostrado a seus alunos uma caricatura do profeta Maomé, exatamente como anos atrás o fizera o jornal Charlie Hebdo, que terminou com a depredação da sua sede e dezenas de mortos. O professor foi chamado por alguns de racista e islamofóbico e atraiu a ira desses sujeitos “politicamente corretos”.

No Processo n° 0001007-68.2018.5.17.0011, a 11ª Vara do Trabalho de Vitória (ES) homologou um acordo entre o trabalhador e seu ex-patrão. O trabalhador moveu o processo contra a empresa e perdeu a causa, tendo sido condenado a pagar honorários do advogado. Como não tinha dinheiro, fez um acordo com a empresa, onde a empresa abriu mão dos honorários em troca de prestação de serviços, pelo empregado, a uma entidade capixaba de assistência social. O trabalho será prestado em dois dias por semana, duas horas por dia, até completar a cota de honorários que teria de pagar à empresa.

Imediatamente, a turminha do “politicamente correto” entrou em ação e tanto o juiz que homologou o acordo quanto a empresa e seus advogados foram esculhambados em diversos artigos de doutrina, chamados de senhores feudais, senhores de escravos modernos, isso e aquilo. Houve até quem comparasse o acordo, que era da vontade das partes, com trabalho forçado equivalente a uma pena criminal, que cerceia a liberdade de ir e vir e fere a dignidade da pessoa humana.

Um desses artigos chega a dizer que “somos um país construído sobre os corpos indígenas e negros sacrificados de modo institucional e continuado. É, então, indispensável acertar contas com o passado, superar nosso ranço escravista.”. Trata-se, obviamente, de um grande exagero e muita falta de informação. Em suma, um pensamento exclusivista que se recusa a sair da bolha e discutir os fatos abertamente com a sociedade “normal”.

Outra empresa que recentemente esteve em apuros por causa da paranoia da turminha do “politicamente correto” foi a Magazine Luíza, que abriu vagas apenas para negros num programa de trainees e foi acusada de promover “racismo reverso”. Desta vez, pelo menos, o Ministério Público do Trabalho, que também integra a turma do politicamente correto, saiu em defesa da empresa e rejeitou pelo menos 11 denúncias, firmando a posição de que se trata de “uma ação afirmativa de reparação histórica”.

Até hoje não entendi por que essa turminha ainda não se voltou contra a lei de cotas para negros e deficientes no serviço público e em universidades, contra a lei da pessoa com deficiência nas empresas privadas, contra o Estatuto do Idoso, contra o Estatuto do Torcedor, contra o bilhete grátis para trabalhador pobre, contra as vacinas de graça nos postos de saúde, contra a farmácia popular que não cobra remédio para hipertensão e diabetes, contra as feiras livres, que pagam menos impostos, contra as igrejas, que não pagam imposto nenhum, com a preferência dos idosos em filas e atendimentos bancários e em serviços públicos, contra a meia entrada em cinemas e teatros, contra a isenção de pagamentos em parques públicos para maiores de 65 anos, etc.

Enfim. Fui falar de uma coisa e acabei dando mau exemplo. Agora, esses “seres” que habitam esse lugar sagrado que conhecem como “o meu mundo é perfeitinho” têm assunto à beça com que se divertir durante a pandemia inteira. Isso, se não aderirem à moda europeia de derrubar estátuas porque têm alguma ligação com algum fato histórico com os quais não concordam ou se não decidirem fazer como na Itália, em que, apesar do ressurgimento brutal da Covid-19, o pessoal marcou um barulhento encontro em frente à sede da RAI para protestar contra o que resolveram chamar de “ditadura sanitária” por causa da obrigação de usar máscaras contra a pandemia.

Se eu amanhecer decapitada no meio da rua, comecem por essa gente...

 

Mônica Gusmão é advogada e professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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