Como diplomata, gostaria que política externa recebesse mais atenção da imprensa. O pouco espaço que atualmente ocupa se explica por várias razões, a principal, no meu entender, é que a América Latina, e o Brasil em particular, têm estado distantes geograficamente dos focos de tensões que vêm demandando a atenção das principais potências.
“Distante” quer dizer que os sismos políticos gerados em outros continentes chegam ao Brasil já suavizados, dispensando nossa intervenção. Contudo, a idéia de que a distancia nos imuniza de eventos internacionais relevantes alhures está mudando rapidamente. Como sexta economia mundial, o Brasil reúne condições para se projetar no cenário político em outras partes do mundo onde a paz esteja ameaçada.
Nosso pleito a vaga no Conselho de Segurança da ONU reflete a consciência de que devemos ampliar nossa atuação internacional. Sendo país que abriga a paz no centro de sua política externa, o Brasil tem contribuição a dar num mundo cada vez mais violento e onde a violência tende a substituir meios pacíficos para resolver problemas, reais ou inventados, bem como mecanismo coletivos, como a ONU, criadas para manter a paz.
Outra explicação para a pouca ênfase de política externa na imprensa seria a natureza do tema, que parece querer mostrar-se sempre opaca. Há muitas políticas externas, pois cada país tem a sua, nem sempre explícita. Elas se cruzam e entrecruzam no bilateral e multilateral e na maior parte das vezes se acomodam, mas de vez em quando se chocam e caberia à diplomacia resolver os conflitos resultantes.
Entretanto, e não obstante tratados, acordos, convenções e princípios bem estabelecidos como o da reciprocidade, por exemplo, a força continua a prevalecer na relações internacionais. A lei do mais forte na interação entre estados e o mais fraco pode se ver obrigado a fazer concessões indesejáveis. Há alguns poucos que não se submetem à ordem imposta pelos países ditos centrais e sofrem isolamento. Nesse mundo onde o poder ainda impera, não há amizades, só interesses, como disse certa vez embaixador norte-americano a nossa imprensa.
Na minha opinião, ele está certo.
Nossa imprensa segue os fatos internacionais ao transcrever reportagens de agências internacionais estrangeiras, muitas vezes embaladas e inclinadas a favor ou contra determinada situação, ou a publicar artigos de comentaristas, nacionais e estrangeiros, cada qual interpretando os fatos segundo sua ótica.
É interessante notar, nesse particular, que, quando determinado país incorre no desagrado das potências dominantes, surge número apreciável de artigos que propagam ponto de vista que, se analisados acuradamente, não se coadunaria com os interesses do Brasil.
Dada a uniformidade da argumentação apresentada, pareceria que o propósito é criar massa de opinião pública para deter ou dificultar tomada de posição diferente pelo governo. É a política externa dos outros que tenta exercer influência através da imprensa.
Os países principais já perceberam que o Brasil se prepara gradativamente para assumir postura mais afirmativa sobre assuntos em suas agendas e irão agir, inclusive pela imprensa, quando a posição do governo não se conformar com o desiderato externo.
Há vários exemplos recentes nesse sentido. As muitas críticas lançadas contra o relacionamento do Brasil com o governo Chavez e com o governo cubano constituem um. O “espanto” gerado quando o presidente Lula tentou, com a Turquia, mediar a questão do programa nuclear iraniano, é outro.
Quando o Brasil, nesse último caso – para surpresa dos países que exercem pressão sobre o Irã – apresentou solução viável, a campanha de vilipêndio desencadeada sobre ele, concebida e conduzida pelos que têm interesse em isolá-lo e, portanto, torná-lo vulnerável a ataques, inclusive militar, invadiu a mídia e ocupou apreciável espaço na imprensa, arregimentando até diplomatas aposentados.
Parecia que o Brasil havia se metido onde não devia, que a paz, ou a guerra, só podem ser decididas por alguns seletos países e que o PT estava violando alguma tradição diplomática brasileira ao praticar o inusitado. O que se viu na ocasião – e ainda se vê – não foi propriamente debate e sim a repetição, com poucas nuanças, de determinado ponto de vista baseado em duvidosa moral e sempre silenciando sobre os pontos essenciais da questão.
Para que o leitor comum não fique à mercê de tais manipulações, penso que a imprensa deveria encorajar discussão ampla de temas da atualidade internacional e mostrar-lhe que, dado o caráter cambiante de política externa e sua ocasional falta de transparência, o que é apresentado como aparentemente correto às vezes não o é.
Ao mesmo tempo, e tendo em vista que cada país tem sua política externa (e o Brasil, portanto, a sua), o debate devia ter sempre como guia as perguntas: “Qual o interesse do Brasil?” “Quais são nossas opções?”, sem perder de vista, no entanto, o custo que essa ou aquela opção acarretar. E, em havendo custo que recaia sobre o contribuinte, mais razão para haver discussão substantiva.
Para ilustrar meu argumento, gostaria de tecer alguns comentários sobre o artigo publicado em O Globo, edição de 29 de fevereiro último, de autoria do senhor Henrique Rezezinski, presidente da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro. Ao referir-se à visita que a presidente Dilma Rousseff fará proximamente aos Estados Unidos, o senhor Rezezinski sugere que a chefe de Estado proponha ao presidente Barack Obama parceria estratégica entre os dois países, e arrola as seguintes credenciais brasileiras para tanto: o Brasil e os Estados Unidos produzem quase 70% do etanol mundial; o Brasil desponta como futuro grande exportador de petróleo; o Brasil é potência agrícola e mineira; é produtor de vários minérios estratégicos de que os Estados Unidos dependem inteiramente de importação; e o Brasil é o quinto maior credor externo dos Estados Unidos.
O senhor Rezezinski dá destaque ao setor aeronáutico, que ele reputa possuir grande potencial sinérgico. O conceito que, a meu ver, precisaria ser melhor analisado é o de parceria estratégica, que o autor não esclarece. Parceria simplesmente é mais fácil de entender.
O Brasil e os Estados Unidos podem realizar parceria para desenvolver o mercado mundial de etanol, por exemplo, mas já uma parceria aeronáutica teria sérias implicações para nossa segurança, pois ela poderia adormecer o desenvolvimento de tecnologia própria e nos atrelar a uma tecnologia externa que nos deixaria expostos e que, dado seu caráter militar, muito provavelmente seria transferida com condicionantes.
Parcerias se fazem, portanto, caso a caso e de acordo com os interesses prevalecentes, nossos e do parceiro, mas uma parceria estratégica é algo bem diferente e abrangeria todas as áreas acima, e certamente outras.
Entre suas muitas implicações, há a questão de defesa contra inimigo perceptível. Até onde sei, os Estados Unidos mantêm parceria estratégica com a Europa Ocidental, através da Otan, com Israel e com a Arábia Saudita. O Brasil, no entanto, não tem inimigo perceptível – ou nenhum inimigo. Portanto, a palavra estratégica poderia ser retirada da expressão.
De qualquer maneira, como todos os atributos que possuímos apontados pelo senhor Rezezinski, penso que caberia aos Estados Unidos tomar a iniciativa de propor “parceria estratégica”. Mesmo assim, o Brasil ficaria em melhor situação, a meu ver, se conservasse sua independência de ação para formar parcerias com quem quer que seja e assim realizar plenamente seus interesses. É sempre arriscado acoplar-se a país muito poderoso, uma vez que o desequilíbrio na relação de forças inevitavelmente tolherá a liberdade de ação do parceiro mais fraco.
Mario Augusto Santos
Embaixador aposentado.















