Política grande e políticas pequenas

Opinião / 13:06 - 16 de out de 2002

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As pessoas em geral têm uma aversão que beira ao asco quando se menciona a palavra "política". A reação é natural se levar-se em conta a quantas anda a política em qualquer nível que se imaginar. Nem adianta vasculhar o passado em busca de exemplos de uma época na qual a política não era o que é hoje, qualquer exemplo encontrado será falacioso, fruto provável de algum laudatório de encomenda aos políticos da época. Desde a Grécia a política é algo detestável, como já assinalavam os filósofos gregos para os quais a política nunca havia conseguido ser aquilo que se esperava. O que adianta de fato é olhar para o futuro, pensar em construir uma nova política, uma política realmente preocupada com as coisas que são importantes ao invés de atentar-se a mesquinharias, uma política que vise o conjunto da sociedade ao invés de servir para alimentar egos - e bolsos - de indivíduos malsãos. Apesar de eternamente retratada como um meio para grandes coisas, a política jamais foi vista por aqueles que a exercem - os políticos - a não ser como fim em si próprio, como a satisfação de um sentimento egocêntrico de tomar o poder nas mãos e fazer com ele o que bem se entendesse. Se for procurada alguma diferença em relação ao passado se encontrará, no máximo, uma época na qual as pessoas se preocupavam com o destino do governo e portanto existia um certo limite ao exercício hedonístico do poder pelos políticos. Hoje sequer isto acontece, as pessoas simplesmente não se importam mais e em conseqüência a tendência é o agravamento da situação. Este agravamento, contudo, não deixa de ter um lado bom, porque faz cair as máscaras, não existe mais a preocupação de tentar esconder o desejo egoísta do poder atrás de belos discursos e causas nobres. De repente se tornou natural aceitar o exercício do poder pelo poder e pronto, sem mazelas e sem disfarces. Nada diz mais sobre a queda desta máscara que a forma puramente comercial que está tomando a eleição, ela não é mais uma disputa de idéias (se é que algum dia o foi, mas ao menos antes ela se disfarçava assim) mas simplesmente um leilão do poder. Roma começou a decair quando a Guarda Pretoriana e o Senado passaram a leiloar o cargo de imperador. O mesmo acontece hoje, com a diferença aparentemente democrática que agora o cidadão comum também participa do leilão. Mas se o número de pregoeiros aumentou, diminuiu o de prêmios, agora geralmente tabelados em cestas básicas, a moeda eleitoral mais comum. Existirá ainda meios de mudar isto? Muito, na verdade já mudou. Mas mudou em parte da forma errada, pela sofisticação dos meios de conquistar o eleitor pelos apelos emocionais do marketing e substituindo a política pela publicidade. Mas este modelo já começa a dar sinais de desgaste e ineficiência, porque se vender a alma a um marqueteiro pode trazer um resultado imediato a curto e mesmo médio prazo, a longo prazo provoca o absoluto descolamento das agendas e práticas do político com o cidadão. As eleições proporcionais mostraram que isto funcionou pouco. Os partidários dos regimes autoritários têm uma das respostas possíveis, simplesmente extinguindo o Estado de Direito e as instituições fracas - para não dizer inúteis - corruptas e desmoralizadas. O cruel é que quanto mais os parlamentos se preocupam com mesquinharias, quanto mais eles discutem temas que só interessam a eles mesmos, quanto mais eles consagram a ineficiência que beira a inutilidade, mais fácil fica que as pessoas dêem razão aos gorilas com suas botas. Assim os parlamentos, que sempre se colocam como as primeiras vítimas das ditaduras, no mais das vezes são eles seus próprios coveiros. A alternativa a isto não é fácil - talvez seja mesmo impossível. Esta alternativa seria a participação ativa dos cidadãos no processo decisório capaz de depurar a política pequena, a política da ninharia, para construir uma grande política na qual a comunidade, ela própria, resolvesse tomar os seus destinos na mão e construir uma sociedade de tipo diferente. Entre a alternativa fácil do regime autoritário, talvez muito mais à mão do que se possa pensar, e a dos cidadãos deixarem de lado o comodismo há léguas de distância. Assusta pensar que a primeira é tão fácil e a segunda praticamente impossível. Assusta ainda mais pensar que só faltou alguém com coragem e disposição para tomar o primeiro caminho. A alternativa está, em grande parte, nas mãos mais dos cidadãos comuns do que dos políticos - inclusive dos bons, porque eles existem em grande número ao longo de todo o espectro ideológico - porque o essencial é ser capaz de discutir os problemas, organizar as comunidades localmente, trocar informações e experiências. Alexandre Gomes Assessor da Presidência da Assembléia Legislativa de São Paulo.

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