Por que América Latina e China se comportam diferente na globalização?

Por Carlos Alberto Aquino Rodriguez.

Os países latino-americanos e a China, países em desenvolvimento, têm se comprometido a buscar o crescimento econômico através da abertura por quase 40 anos. A China aproveitou com sucesso as oportunidades da globalização para se tornar a segunda maior economia do mundo e declarou que construiu uma sociedade moderadamente próspera. Como a China usou a globalização para beneficiar seu país e seu povo? Que experiências podemos aprender? Por que a América Latina não aproveitou as oportunidades da globalização?

A região da América Latina é a que apresenta o menor crescimento do mundo desde 1980. Os países abriram suas economias ao mundo desde 1980 ou 1990, após terem economias fechadas e protecionistas a partir de 1950. Eles tiveram que se abrir porque tinham economias falidas devido à crise da dívida externa e ao superendividamento, hiperinflação devido a gastos excessivos do governo e empresas públicas falidas. Tudo isso piorou as economias da região no momento.

Contudo, a América Latina não aproveitou as oportunidades que a globalização ofereceu, e a crescente globalização que o mundo experimentou de 1990 em diante, em particular, não foi totalmente explorada pela região. Por quê?

Primeiro, a abertura das economias implicou a privatização de empresas estatais, e maiores fluxos de investimento estrangeiro, na América Latina, isso significa mais fluxos de empréstimos, de dívida externa. Alguns ficaram superendividados e novamente têm problemas para pagar sua dívida externa, como a Argentina. Alguns países conseguiram exportar mais e receber mais investimento estrangeiro, mas a maioria continua dependente das exportações de matérias-primas.

Segundo, a abertura das economias com a redução de tarifas trouxe produtos estrangeiros mais baratos, contudo, isso causou maior competição para as empresas nacionais.

Terceiro, os países da América Latina investiram pouco em infraestrutura. Melhores redes de logística, como portos e aeroportos de grande escala, são necessários para aproveitar melhor as oportunidades da globalização.

Quarto, os investimentos dos recursos humanos e pesquisa não são suficientes. Para ter uma vantagem nas cadeias de indústrias globais, é preciso transformar suas matérias-primas em produtos industriais. Mas até hoje em dia, muitos países da região têm ainda estruturas econômicas fracas e dependentes das exportações de matérias-primas.

Por que continuam exportando matérias-primas? Ou, você também pode se perguntar, por que a América Latina não exporta produtos de maior valor agregado? Um dos principais motivos é que a região não forma mão de obra qualificada que possa transformar essas matérias-primas. Não cria a força de trabalho qualificada ou os profissionais para isso, não forma o capital humano necessário. Não possui a ciência e a tecnologia necessárias para isso. Não investe em pesquisa e desenvolvimento para agregar mais valor às matérias-primas.

Em pesquisa e desenvolvimento, a América Latina investe em média apenas 0,5% de seu Produto Interno Bruto (Peru apenas 0,1%), enquanto países desenvolvidos como os membros da OCDE investem em média mais de 2%. A China investe mais de 2%, Israel e Coreia do Sul investem 4%.

Além disso, na América Latina muitas pessoas preferem estudar nas especialidades das universidades de ciências humanas, como o chamado HSLE (da sigla em inglês de Humanidades, Ciências Sociais, Direito e Educação); e não ciências exatas, como o chamado STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

No Leste Asiático, na China, por exemplo, os alunos das universidades estudam carreiras em STEM em uma porcentagem de 48%, e os de HSLE em 24%; na América Latina a proporção é STEM 17% e HSLE 63%.

Por quê? Um dos motivos pode ser que, na América Latina, os alunos do ensino fundamental e médio têm baixo nível em matemática e ciências e, portanto, preferem carreiras em ciências sociais. Pode ver isso nos testes do Pisa, que medem as habilidades dos alunos de 15 anos em matemática, ciências e compreensão de leitura, onde os países latino-americanos estão em último lugar no mundo.

Um outro motivo é que a América Latina tem instituições fracas, e a meritocracia não é privilegiada em cargos públicos, por isso também existe corrupção. Isso não só gera baixo crescimento e corrupção na região, mas também crescente desigualdade de renda.

 

Como a China usou a globalização para beneficiar seu povo?

Então, o que deveria ser feito para aproveitar a globalização em benefício do país? A China é um exemplo que deve ser estudado. A China desde 1979 implementou a política de reformas econômicas e de abertura ao mundo, usando investimento estrangeiro e tecnologia para desenvolver indústrias cada vez mais sofisticadas. Isso também trouxe a criação de empregos para que conseguir tirar muitas pessoas da pobreza.

Isso foi possível porque tem um governo baseado na meritocracia, desenvolveu instituições fortes e estáveis que promovem o desenvolvimento de suas empresas e um sistema educacional competitivo. Por exemplo, a China tem uma classificação elevada nos testes Pisa da OCDE, que medem as habilidades dos alunos do ensino médio em matemática, ciências e compreensão de leitura. No último teste, de 2018, a China ficou em primeiro lugar.

O desenvolvimento da cidade Shenzhen é um bom exemplo. Era uma aldeia de pesca, abrindo zonas francas para atrair investimentos estrangeiros desde de 1980, quando a China iniciou Reforma e Abertura. Shenzhen, em associação com empresas estatais, passou a exportar produtos de mão de obra intensiva e com pouco valor agregado para o mundo, como montagem de televisores, bicicletas etc.

Mas a China não parou por aí. Por meio de investimentos em educação, ciência e tecnologia, aprendizagem de tecnologia estrangeira e criação própria, estão cada vez mais produzindo produtos intensivos em capital e conhecimento, e agora Shenzhen não produz mais bens baratos ou intensivos em tecnologia, mas é o Vale do Silício da China, produzindo produtos de alta tecnologia. É por isso que empresas chinesas de alta tecnologia, como Huawei, ZTE, Tencent, ou a maior produtora de drones do mundo, DGI, têm sua sede lá.

E a China desenvolveu uma infraestrutura de classe mundial, com portos, aeroportos, ferrovias, usinas de energia modernos etc. É justamente nesses setores que a China pode ajudar a região. Além disso, eles devem aprender com a experiência da China em absorver tecnologia estrangeira, criando a sua própria e, assim, podendo deixar de depender da exportação de matérias-primas.

Na América Latina pode ser que haja atualmente uma tendência a governos mais protecionistas, com maior intervenção estatal, mas infelizmente já houve antes, e quase todos fracassaram. Essa onda esquerdista apareceu no início deste século com Lula no Brasil, Chávez na Venezuela, Kirchner na Argentina, e não teve sucesso. É por isso que voltam a surgir governos neoliberais ou de direita, que também não tiveram sucesso em muitos países, e é por isso que há mais uma onda de esquerda. O pêndulo de mover governos da direita para a esquerda está presente na América Latina há várias décadas.

De que o mundo precisa são de governos meritocráticos, com instituições fortes, que invistam em educação e infraestrutura e, assim, sejam capazes de aproveitar as vantagens da globalização que permitirá o acesso a melhores tecnologias, capitais, bens e mercados. Poucos países aproveitaram a globalização para melhorar o padrão de vida de sua população e um deles; o mais bem-sucedido é a China.

Finalmente, o mundo precisa de uma globalização onde existam regras claras e onde os países possam colher seus benefícios. É necessário um sistema de comércio e investimento aberto, sem protecionismo, sem guerras comerciais e evitando práticas comerciais desleais.

E países em desenvolvimento como os da América Latina, Ásia e África, para aproveitar as vantagens dessa globalização, que pode permitir o acesso a máquinas, insumos, desenvolver sua indústria, acesso a novas tecnologias, devem investir em educação, ciência e tecnologia. E devem aprender com a experiência de outros países, como a China, que tem aproveitado as vantagens que a globalização pode trazer, não só para fazer crescer sua economia, mas para aumentar o bem-estar de sua população.

 

Artigo publicado no Serviço de notícias da China, traduzido por Pan Luodan, Diário Chinês para a América do Sul.

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