Por que existe a necessidade de uma identidade

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 17:34 - 12 de ago de 2020

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O sociólogo italiano Francesco Alberoni, num recente artigo seu, me fez voltar atrás no tempo, quando, criança, meus pais me mandavam comprar o pão numa padaria, não muito longe de minha casa. O padeiro, Lorenzo, fazia um pão delicioso, todos os dias. No bairro e nos quarteirões, todo mundo o conhecia e gostava dele e, por isso, dia após dia, nós fregueses íamos comprar este pão maravilhoso do qual Lorenzo era o criador orgulhoso.

Mas, eis a diferença com os dias de hoje: podemos dizer que, naquele tempo, todos os dias acontecia o milagre, como faz o artista, que nunca dá a mesma e idêntica criação, mas sempre a recria do zero! O aroma, a textura do pão, sempre igual, de maneira diferente. Ao mesmo tempo, outras lojas gozavam de prestígio semelhante, por exemplo, uma pastelaria, um açougue, uma charcutaria onde a habilidade do artesão exigia a escolha do melhor fornecedor, do melhor animal, do melhor corte. Deste jeito, no final, fornecia ao cliente algo valioso, único.

Quando, no seu trabalho, você emprega sua experiência, sua habilidade, mas também sua engenhosidade e vontade, você está gerando um produto que é a expressão de você mesmo e, consequentemente, leva seu nome: o pão de X, os doces da Y, as roupas da H. E esse nome vira uma marca, uma identidade.

No mundo moderno dos negócios, você não pode mais produzir seu próprio produto, você se tornou a engrenagem de um mecanismo complexo, seu nome desaparece entre os outros. Por isso, as mulheres e os homens de hoje procuram o reconhecimento da identidade fora da rotina do trabalho, mas em pequenos grupos especializados como os dos clubes, das academias, do esporte, mas, também, na poesia, nos romances, confiando seus problemas no Facebook, no Twitter, ou no Instagram!

Por que sentimos essa necessidade de identidade? A resposta é muito simples. Porque essa identidade, a nossa identidade, é garantida e transmitida aos filhos pelo amor dos pais. Cada um de nós, no início da vida, recebe a certeza de ser amado, preferido, protegido, insubstituível, único entre todos os outros. Este dom, que nós recebemos, se tornará a marca que levará a dar essa mesma exclusividade aos outros, aos pais, aos amigos mais próximos e, depois, à pessoa que iremos amar. No fundo, o que é se apaixonar a não ser uma transferência do que recebemos, para outra pessoa?

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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