Conversamos com Marcio Balthazar Silveira sobre os motivos que fazem com que o Brasil não seja autossuficiente em gás natural. Márcio é economista e consultor de óleo e gás natural.
O Brasil tem condições de ser autossuficiente em gás natural?
Não, não tem. Atualmente, a nossa demanda é atendida por importação de gás boliviano, produção nacional e GNL (Gás Natural Liquefeito), que é utilizado, fundamentalmente, no suprimento das termelétricas. Para que o Brasil tenha condições de ser autossuficiente, isso precisa ser determinado nos programas de exploração dos próximos anos.
Por exemplo, a Margem Equatorial possui boas perspectivas, mas esse trabalho envolve pesquisa e exploração antes que se possa definir um horizonte de oferta mais concreto. É por isso que nós vamos continuar dependentes da importação. Como a Bolívia não deve ter, em um futuro próximo, disponibilidade para suprir o Brasil, a expectativa é que o país passe a comprar gás da Argentina, proveniente de Vaca Muerta, na Patagônia.
O que o Brasil precisa fazer para diminuir a dependência da importação de gás natural?
A única forma de reduzir a importação é aumentando a produção, mas a produção só vai aumentar se houver um prognóstico exploratório interessante. Também é preciso que haja uma compreensão, principalmente por parte das autoridades ambientais, de que ainda não foi desenvolvida uma alternativa economicamente sustentável e em escala para substituir os hidrocarbonetos. Isso porque as gerações eólica e solar e a eletrólise da água para geração de hidrogênio ainda carecem de escala e de viabilidade econômica. Dessa forma, o mundo ainda vai continuar dependendo dos hidrocarbonetos por muito tempo.
Como disse, o aumento da produção vai depender muito do que temos à frente em termos de programação exploratória para o país, mas a autossuficiência em hidrocarbonetos e gás natural não é uma meta plausível. Um ponto importante é que antes de se achar gás natural, se acha o petróleo. Isso porque a exploração de uma reserva de gás não necessariamente se justifica por si só. O gás vem associado ao petróleo, que justifica a decisão de se investir em um campo.
Se o Brasil aumentou a sua produção de petróleo, o que acontece com o gás associado a essa produção?
Aqui nós temos uma decisão econômica. Quando um produtor de óleo e gás acha petróleo, primeiro ele vai priorizar a produção de petróleo para depois ver o que se pode fazer com o gás. No caso do Brasil, os produtores encontram petróleo em condições e volumes extremamente interessantes, mas também encontram um gás contaminante em altas pressões. Outro ponto é trazer o gás para a costa.
Para que esse gás possa ser trazido, ele precisa passar por um pré-tratamento na plataforma, e quando ele chega a costa, ele precisa passar por um novo tratamento para retirada de frações pesadas, como butano, propano e etano. Do ponto de vista econômico, é preciso analisar se vale mais a pena trazer esse gás para a costa ou importar gás natural. O que se faz hoje no Brasil é reinjetar esse gás nos campos de onde ele foi retirado.
Como disse, o Brasil não deve ter como meta em si a autossuficiência de gás e também de petróleo. Eventualmente, o país pode ter uma produção equivalente a sua demanda, mas ele precisa importar e exportar volumes para adequar o consumo de óleo bruto ao seu perfil de refino.
Outro ponto é que a autossuficiência em gás natural não significa que o país conseguiria reduzir o seu preço no mercado interno. Por exemplo, se uma indústria substitui o GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) por gás natural, esse gás vai ter um preço equivalente ao GLP. O mesmo vale para uma termelétrica que substitui diesel por gás natural. É assim que as coisas funcionam.
O gás natural no Brasil é mais caro que no exterior?
Para que eu possa responder essa pergunta, eu vou citar um exemplo. Durante algum tempo, houve um preço de referência para o gás boliviano e outro para o gás nacional. Como a Petrobras tinha contratos com as distribuidoras de gás, se o gás boliviano estivesse mais caro que o gás nacional, ele tinha que ser vendido no preço do gás nacional. Se fosse o contrário, seria a mesma coisa. Eu estou citando esse exemplo, pois sempre que acontece uma divergência de preços, o mercado corre para fazer os ajustes necessários de forma a equilibrar a oferta.
Outro aspecto é que esse mercado não é absolutamente líquido. Por exemplo, o GNL chega ao Brasil para complementar a geração termelétrica, mas muito frequentemente, as termelétricas dispensam o uso de GNL quando não há tanta demanda para a sua energia. Quando isso acontece, os importadores, principalmente a Petrobras, precisam redirecionar as cargas para outros mercados, sendo que essa flexibilidade tem custo.
Um ponto importante que precisamos entender é que o mercado latino-americano é marginal. Por exemplo, em artigos internacionais sobre o mercado de óleo e gás, o Brasil é citado de forma eventual em alguma base de argumentação. Como o Brasil não tem relevância no mercado internacional, o preço do GNL que chega aqui é o preço que tem que ser pago.
Se verificarmos as origens do GNL importado pelo Brasil, nós vamos ver GNL vindo de países que não produzem GNL, como a Espanha. Isso porque existem traders no mercado internacional que redirecionam as cargas dos navios metaneiros que precisam ser redirecionadas para algum lugar.
Outro ponto é que o GNL é uma carga diferente do petróleo, que pode ser movimentado tranquilamente. O GNL é uma carga que é refrigerada a menos 160 graus centígrados e que precisa ser consumida em um espaço de tempo razoável. Se ele não for consumido, o navio metaneiro tem que começar a ventilar o gás na atmosfera para reduzir a pressão dentro dos seus tanques, sendo que isso é custo.
O GNL é um gás natural de custo caro. Uma vez que ele é explorado, ele é movimentado para uma unidade de liquefação, e uma vez que ele chega ao destino, ele é regaseificado. Ou seja, o gás natural vai chegar ao final da cadeia por US$ 12 o milhão de BTU (British Thermal Unit).
Como você tem visto os impactos do bloqueio do Estreito de Ormuz no mercado mundial de gás natural?
Nós estamos passando por um momento sem precedentes na história da energia no mundo. O Irã, as questões que envolvem o país e o Estreito de Ormuz sempre existiram, mas nós nunca chegamos ao ponto em que estamos agora. Os navios estão parados, e a perda de oferta é sensível e difícil de ser recuperada. Enquanto o Brasil está preocupado em fazer o gás mais barato, as nossas fontes são caras: o gás de Vaca Muerta é caro; o gás boliviano está se esgotando; o nosso gás de plataforma não é barato; e o GNL é disputado no mercado internacional.
Se esse problema não for resolvido até meados de maio, a situação vai ficar muito preocupante. Nós podemos estar caminhando para uma situação de destruição de demanda, em outras palavras, recessão, como forma de reequilibrar o mercado, caso o petróleo vá para patamares superiores a US$ 125.
Por fim, os Estados Unidos estão se arvorando como o grande exportador mundial de GNL, mas como eles estão ficando curtos em óleo, eles vão demandar gás natural para o seu consumo interno. Quando isso acontecer e o GNL ficar mais caro, eu espero que ninguém venha com graça achando que a Petrobras vai bancar essa diferença.

















