Conversamos com Celso Damadi, CFO da Porto, sobre o resultado do 2T24 que foi divulgado pela companhia em 13/08.
Como a Porto avalia o seu resultado no 2T24?
O resultado do 2T24 foi muito satisfatório. Do ponto de vista operacional, foi um trimestre em que tivemos todas as verticais de negócio com ROAE (Return on Average Equity) acima de 20% (Seguros, 24,9%; Saúde, 22,2%; Bank, 28,3%, e Serviços, 22%; Consolidado, 18,5%). Um ponto importante é que por uma questão de política da companhia, a Porto é uma empresa muito capitalizada. Quando tiramos esse excesso de capital, o nosso ROAE consolidado vai para 22%, 23%, que é um retorno muito razoável para os patamares que gostaríamos de entregar aos acionistas.
Esse retorno não veio de um único produto. No passado, a Porto tinha uma dependência muito grande do automóvel, que é um produto lucrativo e importante, e que vai continuar sendo importante, pois é o nosso produto de relacionamento com o cliente, mas Saúde cresceu 50,2%, e o Bank, 23,5%. Tanto no 2T24, quanto no 1S24, nós tivemos um resultado gerado por uma diversidade de carteiras e de portfólio muito grande das nossas quatro verticais de negócios.
Isso nos dá bastante tranquilidade para seguirmos no futuro e continuarmos no que a Porto Seguro sempre foi: uma empresa focada em rentabilidade e, principalmente, em qualidade com crescimento razoável. Vale ressaltar que a Porto não é uma empresa com meta de profit sharing. Ele é importante, mas o equilíbrio entre crescimento e resultado é ainda mais.
No 2T24, nós tivemos um evento extraordinário que impactou o Rio Grande do Sul, mas que não impactou, severamente, os nossos resultados. Quando nós tiramos do balanço esse evento extraordinário, o nosso resultado foi de R$ 691 milhões com um ROAE de 22%.
Como a Porto entende os seus números?
A Porto é uma empresa muito focada em lucro. O mercado inteiro usa muito o Ebitda, mas nós gostamos do ROAE, que é o retorno que damos ao acionista.
Como cada vertical de negócio tem um nível de maturidade. nós quebramos as verticais e os produtos por nível de maturidade para buscarmos sempre um retorno compatível com o risco. Por exemplo, como o banco tem produtos com risco de crédito maior, nós pedimos um retorno compatível a esse risco.
Em linhas gerais, nós enxergamos o resultado como uma forma de manter a solvência e a perenidade da empresa, mas, principalmente, a qualidade que a Porto Seguro sempre buscou. Nós não buscamos o resultado pelo resultado e não falamos em redução de custo, mas em ganho de produtividade, diluindo o custo fixo com o crescimento das verticais. Contudo, isso não é feito em pró de termos um NPS (Net Promoter Score) que não nos atenda e que seja questionado pelos nossos clientes e pelos nossos corretores, pois não trocamos resultado por qualidade. Nós olhamos com muito carinho e cuidado os nossos indicadores de qualidade e de performance.
Se tivéssemos um resultado como o do 2T24 com índices de NPS inferiores ao que estamos acostumados, nós não estaríamos tão satisfeitos como agora. Como o nosso NPS está nos melhores níveis, nós preservamos qualidade e resultado. É assim que lemos o resultado da Porto. Nós não olhamos apenas para a última linha, mas para o contexto entre resultado e qualidade.
A Porto trabalha com a máxima eficiência em todos os mercados onde opera, mas o ponto é que a penetração desses mercados na economia brasileira ainda tem um longo caminho pela frente. Como a companhia avalia o desenvolvimento desses mercados?
Nós temos produtos que possuem um market share muito grande, como automóveis, 28%, mas apenas 30% das pessoas que possuem um automóvel no Brasil fazem um seguro. Nós temos uma capacidade de aumentar essa penetração com o lançamento de produtos como o Azul por Assinatura, que é um produto mais acessível, que tem gerado inclusão securitária e que tem crescido na base com lucratividade. Um ponto importante é que ter um produto mais barato não significa ter um produto com lucratividade menor, mas sim com o preço certo para o risco certo e com uma condição de pagamento que esse cliente possa pagar. Esse é um produto de seguro mensalizado que é vendido no próprio canal corretor, que tem uma parceria com a Porto muito grande.
No Porto Bank, nós temos linhas de crédito interessantes para o nosso ecossistema, sendo que agora, estamos numa fase inicial de teste beta da conta digital pessoa física. Já estamos com, aproximadamente, 15 mil contas e vamos ter o lançamento da pessoa jurídica. Tudo isso para explorar o nosso ecossistema com produtos que têm um market share muito pequeno, como cartão de crédito. Além disso, como o brasileiro está se bancarizando mais, nós também temos novos entrantes no mercado bancário, o que nos faz acreditar que podemos crescer em market share de produtos bancários.
Na vertical de Serviços, que é nova, 23% das vendas, que são compostas por residência e guincho, já vem de fora do nosso ecossistema. Além disso, no Brasil há uma pulverização de serviços muito grande, principalmente nas grandes capitais, onde falta mão de obra, sendo que há uma demanda muito grande por serviços. Como nós temos uma entrada muito grande na casa dos clientes, já que as pessoas confiam na marca Porto, melhorando a experiência de contratação do cliente e a qualidade do serviço, nós entendemos que há uma demanda represada de serviços B2C ou B2B para trabalharmos.
Na vertical Saúde, nós também temos lançado produtos como o Pro e o Porto Bairro, que foi lançado há 15 dias, que são produtos mais específicos, mais nichados, com preço mais competitivo, com prêmio de risco muito bom e que possuem uma margem de lucro que entendemos ser razoável.
Assim, nós estamos lançando produtos e criando novos portfólios para atingirmos novos clientes, de forma a que possamos aumentar a nossa base, o que já vem acontecendo nos últimos anos.
Como se ganha e se mantém um cliente nos mercados onde a Porto opera?
Através da qualidade de serviço e do atendimento focado no nosso canal corretor. Como os corretores de seguros são grandes influenciadores de fechamento de negócios, as nossas quatro verticais usam bastante o canal corretor. Para isso, além do NPS muito bom para o cliente final, nós temos que ter um NPS de atendimento ao corretor também muito bom.
Na Porto, nós temos desde produtos como o Auto Azul, que é enxuto e que possui um preço bem competitivo e uma quantidade de serviços agregados mais restrita, a produtos supercompletos, com atendimento à residência, como linha branca e encanamento. Contudo, a preservação da qualidade e do canal corretor, com a manutenção do nosso DNA de serviço, que é o nosso diferencial, é o ponto chave para que a Porto continue angariando, renovando e mantendo os clientes satisfeitos. Isso porque nem tudo é só preço.
Qual a importância do Porto Bank para o ecossistema da Porto? Ele atende apenas clientes da Porto?
No começo do Porto Bank, nós fazíamos financiamento para corretores e prestadores de serviço. Depois, nós criamos um programa de fidelidade para aumentarmos a renovação de automóveis, que é bastante utilizado pelos nossos clientes que utilizam o cartão de crédito da Porto. Com o tempo, isso foi tomando um volume tão grande que criamos produtos de consórcio e de capitalização. Recentemente, nós adquirimos a ConectCar em sociedade com o Itaú para que os nossos clientes possam pegar a tag e colocar o pagamento direto no cartão da Porto, de forma a que haja recorrência.
Hoje, nós temos mais de 3 milhões de clientes com cartão de crédito ativo, e o ecossistema do banco funciona de forma a que eles tenham todas as suas necessidades atendidas pela Porto. Essa vertical é muito importante, inclusive como meio de pagamento. Nós privilegiamos muito a compra do seguro de automóvel através do nosso cartão de crédito, o que gera desconto para o cliente e fidelização para a Porto. Isso foi tomando corpo nesses últimos anos e o banco vem crescendo a taxas de 20%, 25% ao ano usando o ecossistema da Porto.
Com relação a sua segunda pergunta, o Porto Bank tem clientes que não são do ecossistema da Porto, mas nós sabemos que o nosso ecossistema é muito grande e que o banco ainda tem muito potencial para crescer dentro dele. Isso porque quando vendemos um produto bancário para um cliente que conhecemos a sua experiência e o seu risco, nós conseguimos ofertar um produto com um preço e uma competitividade muito maior. O Porto Bank é muito importante para o ecossistema da Porto, e vai se tornar cada vez mais importante nos próximos anos.
Como a companhia avalia as perspectivas da Porto Serviços?
Nós fizemos o spin-off da Porto Serviços no ano passado, sendo que ela nasceu de uma forma muito parecida com o Porto Bank, ou seja, através de demandas dos nossos clientes que nos perguntavam porque não fazíamos serviços como limpeza de ar condicionado ou manutenção de aquecedor, já que eles confiam na Porto. Nós abrimos a Porto Serviços para que ela prestasse esses serviços, mas também ampliando a nossa rede de fornecedores para vendermos serviços que não estavam inclusos nas apólices. Nós fizemos isso, deu certo, e começamos a investir em sistemas e na experiência do cliente.
Nós ampliamos a vertical e compramos a CDF no ano passado, que já veio com uma carteira com mais de 4 milhões de clientes, com o objetivo de virarmos um grande hub de serviços, crescendo tanto de forma orgânica quanto inorgânica. Para que você tenha uma ideia, 23% do faturamento da vertical não está ligado aos clientes e às apólices da Porto.
Como a macroeconomia impacta os mercados da Porto?
A macroeconomia impacta os mercados em geral, e não estamos fora disso. Quando a geração de emprego aumenta, nós temos um crescimento interessante na vertical de saúde. Quando o salário médio aumenta, as pessoas passam a ter condições de comprar seguros, como os seguros por assinatura que possuem uma quantidade de serviços menores, mas que são mais atrativos em relação a preço, o que faz com que consumidores que estavam fora desse mercado comecem a consumir seguros. Quando a renda média aumenta, como está acontecendo agora, as pessoas passam a ter condições para ter seguros que antes não tinham, como seguro de vida e de residência.
Em contrapartida, nós ainda temos mercados muito pouco penetrados, mesmo que pela classe média. Por exemplo, muitas pessoas, que possuem casas na praia ou em condomínios, ainda não possuem um seguro residencial por uma questão de desconhecimento e por não saberem que o preço desse seguro não é proporcional como o preço de um seguro de automóvel, por exemplo.
O cenário macro ajuda quando tudo vai bem, mas nós temos o nosso plano de expansão e de penetração em produtos que ainda possuem um potencial de crescimento enorme.
Como a Porto avalia as suas perspectivas para o 2S24?
Nós estamos bastante otimistas com as perspectivas de crescimento nas carteiras de Seguros, como empresarial, residencial e vida; Saúde; Bank e Serviços. Eu vejo um cenário muito positivo de crescimento e de manutenção dos nossos resultados, tanto para o 3T24 quanto para todo o 2S24.
Considerando a conversa que tivemos, você gostaria de acrescentar algum ponto a nossa entrevista?
Para fecharmos, eu gostaria de falar sobre a diversificação dos produtos da Porto, tanto em relação a crescimento de receita quanto a lucro. Essa diversidade de portfólio traz uma dependência cada vez maior do ecossistema da Porto, e não de um produto específico. Claro que nós temos o nosso carro chefe, que é o seguro de automóveis, mas o crescimento em outras verticais de negócios, tanto em receita quanto resultado, traz para a Porto uma robustez e uma estabilidade de resultado muito maior.

















