Poupança: captação líquida x volume total aplicado

A Poupança deveria ser analisada pelo volume total aplicado, e não pela captação líquida como se costuma fazer ano após ano.

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Cofre de porquinho com moedas, poupança
Poupança

No começo de 2024, foi amplamente noticiado que a Poupança havia fechado 2023 com uma captação líquida negativa de R$ 87,8 bilhões. Esse número considera as aplicações e os resgates feitos no decorrer do ano: R$ 3,827 bilhões x R$ 3,915 bilhões.

Em termos de volume total, a Poupança fechou 2023 com um saldo aplicado de R$ 983 bilhões. Como em 2022 a Poupança havia terminado com R$ 998 bilhões, o ano passado fechou com uma queda de R$ 15 bilhões no volume total aplicado. Esse comportamento, com um grande giro de aplicações e resgates se repete em toda a série histórica da Poupança, mas os R$ 87,8 bilhões de captação líquida negativa são muito diferentes da queda de R$ 15 bilhões registrada no volume total aplicado.


Focando a análise no volume total aplicado na Poupança

A série histórica, disponibilizada pelo Banco Central, começou a ser feita em 1995. Neste ano, a Poupança fechou com um volume total aplicado de R$ 63,6 bilhões, o que chega a ser risível frente aos volumes de hoje. Nos anos seguintes, esse número foi crescendo, de forma constante, até atingir, em dezembro de 2014, R$ 662 bilhões.

Em 2015, a Poupança teve, pela primeira vez, uma diminuição do volume aplicado, passando dos R$ 662 bilhões de 2014 para R$ 656 bilhões em 2015, uma redução de R$ 6 bilhões. Nos anos seguintes, de 2016 a 2020, o volume total aplicado voltou a crescer de forma consistente, atingindo o fechamento anual recorde de R$ 1,035 trilhão em 2020*. Desde então, a Poupança vem tendo quedas gradativas no volume total aplicado: 2021, R$ 1,030 trilhão, queda de R$ 5 bilhões; 2022, R$ 999 bilhões, queda de R$ 31 bilhões; e R$ 2023, R$ 983 bilhões, queda de R$ 15 bilhões.

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Por mais que o giro entre aplicações e resgates tenha gerado uma captação líquida negativa de R$ 87,8 bilhões em R$ 2023, o volume total aplicado, apesar da queda de R$ 15 bilhões, segue maior, e com sobras, que todos os anos anteriores a 2020. Por exemplo, em 2019, a Poupança havia fechado o ano com um volume total aplicado de R$ 845 bilhões.


A rentabilidade pode não ser boa, mas as pessoas confiam na Poupança

Existe um ponto de consenso no mercado financeiro de que a rentabilidade da Poupança não é boa. Isso é, facilmente, demonstrado por números, mas, por mais que isso seja um fato, porque a Poupança segue com um volume total aplicado tão grande?

A questão aqui pode passar por duas simplicidades: sua rentabilidade e a ausência de tributação. Com relação à rentabilidade, muitas pessoas do mercado financeiro conseguem explicá-la, já que ela é especificada pela Lei 8177/1991, que foi alterada pela Lei 12703 de 2012, mas eu duvido que muitas pessoas que aplicam na Poupança tenham conhecimento sobre essa regra.

Com relação à tributação, a Poupança é livre de impostos, o que facilita muito a sua operação como aplicação. O único cuidado é resgatar na data de aniversário para não perder a rentabilidade. Para que possamos entender a importância desse ponto, vamos imaginar uma situação em que uma pessoa, que conhece outras aplicações, sugira a uma pessoa que aplica na Poupança, que não tem tributação, para que ela aplique no CDB de um banco, que tem tributação.

Nesse ponto, nós começamos a nos deparar com uma dificuldade. O rendimento de um CDB sofre a incidência de Imposto de Renda regressivo, ou seja, por quanto mais tempo os recursos ficarem aplicados, menor será a alíquota. Contudo, um CDB tem outra tributação: para desestimular aplicações de curtíssimo prazo, ele tem a cobrança de IOF regressivo nos 30 primeiros dias da aplicação. Findado esse prazo, a alíquota do IOF é zero.

Eu encontrei diversas explicações na internet sobre o Imposto de Renda e o IOF incidentes sobre um CDB, mas eu não tive a sorte de encontrar uma explicação matemática sobre como isso funciona nos 30 primeiros dias. Por exemplo: se eu apliquei num CDB e preciso resgatar parte dele 15 dias após a aplicação, como funciona a incidência do Imposto de Renda e do IOF ao mesmo tempo? Faço esse comentário, pois explicar isso a uma pessoa que aplica na Poupança assusta e acaba inibindo a migração para outros investimentos.

Da mesma forma, como explicar a rentabilidade de um fundo de investimento de renda fixa a uma pessoa que aplica na Poupança? A rentabilidade divulgada pelo gestor é líquida dos seus custos, como a taxa de administração? Essa rentabilidade já considera o Imposto de Renda regressivo? Como funciona o sistema de come-cotas? Esse sistema de tributação, realizado antes do resgate efetivo, não diminui o volume aplicado, consequentemente o retorno futuro?

São por essas questões que eu me questiono se a Poupança, no final das contas, fica tão distante assim de outras aplicações de renda fixa do mercado financeiro. Que ela fica, ela fica, mas, novamente, o ponto que estou levantando é se ela fica muito distante. Para quem tem muitos recursos, isso faz uma grande diferença, mas para quem tem poucos recursos, a simplicidade da Poupança acaba sendo mais importante do que se meter numa aplicação de renda fixa que pode gerar dores de cabeça que não existiriam na Poupança, e que podem custar caro.


A Poupança frente a outras aplicações

Para que possamos comparar o volume de recursos aplicados na Poupança frente outras aplicações financeiras, nós temos que recorrer ao relatório Estatísticas de Varejo e de Private da Anbima de dezembro de 2023. Aqui, nós temos uma divergência entre os volumes totais aplicados na Poupança indicados pelo Banco Central e pela Anbima. Pelo Banco Central, como já mencionado, o volume total aplicado na Poupança em 2023 fechou em R$ 983 bilhões. Já pela Anbima, o volume total aplicado ficou em R$ 925 bilhões, sendo R$ 918 bilhões no Varejo, com R$ 793 bilhões no Varejo Tradicional e R$ 125 bilhões no Varejo Alta Renda (sim, Varejo Alta Renda), e R$ 7 bilhões no Private (sim, no Private).

Apontada essa divergência, podemos avançar nos números da Anbima. Considerando apenas o Varejo, a Poupança fechou 2023 com mais recursos aplicados que os Fundos de Investimento (renda fixa, renda variável, multimercados, FMP e Cambial), R$ 719,3 bilhões; Fundos Estruturados (FIDCs, FIIs e FIPs) e ETFs, R$ 105,4 bilhões; Renda Variável, R$ 232 bilhões; e Renda Fixa Títulos Públicos, R$ 128 bilhões. A Poupança, que é apenas um único tipo de aplicação, perdeu apenas para a Renda Fixa Títulos Privados, que possui 14 tipos de aplicações relacionadas pela Anbima. Mesmo assim, se pegarmos a maior aplicação dessa família, CDBs/RDBs, que fechou 2023 com R$ 784,7 bilhões, a Poupança fechou com mais recursos aplicados (R$ 918 bilhões segundo a Anbima).

A Poupança, seus investidores e suas mensagens deveriam ser melhor analisados pelo governo e pelo mercado financeiro. Sem pré-concepções, simplificações e rótulos.

*o teto da Poupança foi atingido em julho de 2021, quando a aplicação somou R$ 1,038 trilhão.

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