Preço caro por denunciar desmatamento na Amazônia

Governo demite a coordenadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

Conjuntura / 00:27 - 14 de jul de 2020

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De 1 de janeiro a 30 de junho deste ano, o Brasil perdeu 3.070 quilômetros quadrados de floresta amazônica. Por divulgar na sexta-feira última (10) esses dados, governo federal demitir nesta segunda-feira a coordenadora-geral de Observação da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lubia Vinhas, com Doutorado e Mestrado em Computação Aplicada e Graduação em Ciência da Computação.

Ela era a responsável pelos sistemas Deter e Prodes, que acompanham a região. A exoneração foi assinada pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, tenente-coronel da Força Aérea Brasileira Marcos Pontes, pasta a qual o Inpe é subordinado. O ministério foi indagado sobre a razão da exoneração, mas ainda não se pronunciou, atitude considerada como precaução na medida em que o Brasil está sendo questionado por não respeitar questões ambientais no seu processo de produção, prática que está sendo contestada por grandes fundos soberanos que financiam o Fundo Amazônia e que também coloca em risco todo o sistema do agronegócio brasileiro.

A área perdida equivale a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo. O total representa 26% a mais do que o mesmo período do ano passado. Os números referem-se aos 11.822 alertas de desmatamento nos primeiros seis meses do ano. Somente em junho deste ano, foram desmatados 1.034 km2, uma área 11% superior a junho de 2019.

 

Amazônia Legal

 

O desmatamento ocorreu em toda a Amazônia Legal, mas, conforme o Congresso em Foco foi pior no Pará (1.212 km2), Mato Grosso (715 km2) e Amazonas (539 km2). Os municípios campeões do desmatamento foram os paraenses Altamira (351 km2) e São Félix do Xingu (201 Km2), seguidos por Apuí (155 Km2), no sul do Amazonas.

O desmatamento em 2020 será maior do que em 2019, ano em que o Brasil registrou recorde de derrubada de vegetação nos últimos 10 anos, segundo dados do Inpe. O alerta veio dos sistemas Deter e SAD. Entre agosto de 2019 e abril de 2020, as taxas mensais de desmatamento ficaram todas acima das do período anterior.

O calendário do desmatamento vai de agosto do ano anterior até julho do ano corrente. Seguindo esse calendário é possível afirmar que no Pará, o aumento do desmatamento atingiu 170%, totalizando 233.011 hectares. Em toda a Amazônia Legal o desmatamento foi de 566.624, o que representa uma tendência de aumento de 94% em relação ao mesmo período do calendário anterior, ou seja, de agosto de 2018 a abril de 2019. Os alertas são do Deter.

Os dados do Inpe mostram ainda que o número de queimadas no bioma Amazônia durante junho de 2020 foi o maior observado para o mês em 13 anos. Foram registrados 2.248 focos de calor no último mês o que representa um aumento de 19,57% em relação ao registrado em junho de 2019, quando foram detectados 1.880 focos.

Nos seis primeiros meses de 2020 foram 10.395 focos em todo o país, contra 8.821 no mesmo período do ano passado, crescimento de 17,8%. Os estados da Amazônia Legal registraram 4.596 focos ativos de incêndio em junho. O número é próximo ao apresentado para o mesmo mês em 2019 (4.838), o que segundo o Inpe já era superior às contagens desde 2015.

A observação da Terra é um setor no Inpe que monitora a devastação da Amazônia por meio do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Os dados ajudar as equipes de fiscalização a identificar áreas onde pode haver crimes ambientais. A taxa oficial de desmatamento, contudo, é divulgada uma vez ao ano, por outro setor.

Coordenado por Lubia Vinhas, o Projeto Monitoramento Ambiental por Satélites no Bioma Amazônia, financiado pelo Fundo Amazônia e executado pelo Inpe em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), buscou acompanhar as principais tendências da área de sensoriamento remoto e monitoramento ambiental, visando o desenvolvimento de novas tecnologias.

Foi feito um amplo trabalho de atualização tecnológica do TerraAmazon, com a intenção de oferecer uma ferramenta mais robusta para tratar o volume e a variedade de dados de sensoriamento remoto relevantes para os projetos de monitoramento ambiental do INPE, além de melhorar a sua usabilidade para o usuário final”, disse Vinhas.

 

Intervenção

 

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, a demissão de Lubia representa intervenção do governo no Inpe. Não é segredo para ninguém que o governo deseja intervir no Inpe. A demissão ruidosa de Ricardo Galvão impediu isso, mas a exoneração de Lubia Vinhas pode ser 1 indicativo de que o plano nunca foi abandonado.”

Que isso ocorra em plena aceleração do desmatamento, quando o governo precisa conter ameaças de desinvestimento, é sinal de que Jair Bolsonaro parece estar tratando as preocupações do agronegócio e dos investidores como trata as dos brasileiros aterrorizados pelo coronavírus. Nossa economia encontra-se em risco extremo. Infelizmente para o presidente e o ministro Marcos Pontes há vários outros sistemas de monitoramento da Amazônia operando. Como no caso da tentativa de esconder dados da covid-19, qualquer investida contra o Inpe já nasce condenada a fracassar”, afirmou Astrini, em nota.



 

 

 

 

 

 

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