Preocupação dos investidores em relação à crise no Oriente Médio

Na semana anterior, mundo assistiu à forte alta do petróleo no mercado internacional e muitas análises da situação na região.

Opinião do Analista / 10:22 - 13 de jan de 2020

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A primeira semana integral do ano de 2020 transcorreu em ritmo de preocupação dos investidores em relação à crise geopolítica no Oriente Médio, com os desdobramentos da morte autorizada pelos EUA do general Soleimani, ocorrida no Iraque. Só para lembrar, na semana anterior, assistimos à forte alta do petróleo no mercado internacional e muitas análises da situação na região. Os mercados desequilibraram (Bolsas, câmbio e juros), e por aqui não foi diferente.

O funeral de Soleimani levou milhares à rua e também causou dezenas de mortes por pisoteamento e muitos feridos, segundo o noticiário internacional. Além de muitas declarações de vingança dos líderes iranianos. A resposta americana foi de que qualquer ação provocaria reação ainda maior. No correr do período, porém, os iranianos atacaram duas bases americanas compartilhadas no Iraque e depois atacaram levemente a "área verde" de Bagdá, com explosões próximas da embaixada americana Nenhuma vítima foi feita nesses ataques.

O presidente Donald Trump se preparou para dar declarações sobre os ataques, mas sua postura surpreendeu. Foi duro em afirmar que enquanto fosse presidente, o Irã não teria armas nucleares e que aplicaria mais sanções ao país, mas também deixou implícito o convite para discutirem uma saída sem envolver forças militares. Pediu maior empenho da OTAN em atuar no Oriente Médio. Enquanto isso, a presidente da Câmara Nancy Pelosi, disse que tentaria votar no período uma lei para limitar o uso de força contra o Irã por Trump. Tivemos ainda muitos encontros diplomáticos e reuniões agendadas entre países que apoiam Irã e outros que querem solução mais perene para a região.

Os mercados respiraram aliviados, mas a leitura foi que ainda teremos muita volatilidade nos mercados de risco, função da atitude beligerante de países do Oriente Médio e do próprio Trump. De qualquer forma, os mercados passaram boa parte da semana tentando encontrar um ponto de mais equilíbrio.

Ainda no segmento internacional, o Reino Unido espera concluir a saída da União Europeia (Brexit) antes da data limite de 31 de janeiro. Mas a própria UE entende ser otimista a previsão de acordo do Reino Unido com o bloco até o final do ano de 2020. Uma outra boa notícia ficou por conta da viagem do vice-primeiro-ministro da China Liu He para Washington entre 13 e 15 de janeiro para assinar o acordo bilateral de comércio com os EUA, isso depois de noticiário indicando que a China descartava aumentar a cota anual de importações de grãos dos EUA.

Certamente, esses foram os fatores que mais explicaram o comportamento dos mercados na semana, mas também tivemos alguns indicadores importantes sendo anunciados. O período foi de anúncio de indicadores PMI da atividade de serviços e composto (inclui indústria) para diferentes países, no geral com conotações positivas e a maior parte acima dos 50 pontos, o que indica expansão da atividade.

Na China, as reservas internacionais cresceram US$ 12,3 bilhões em dezembro para fechar o ano com US$ 3,18 trilhões. Lá, a inflação de dezembro medida pelo CPI (consumidor) anualizado foi de 4,5% e o PBoC (o Banco Central chinês) deve manter a liquidez e a flexibilização monetária. Ainda na China, a venda de carros de 2019 caiu 7,4% para 20,7 milhões de unidades. Na Alemanha, as vendas no varejo cresceram 2,1% em novembro, a produção industrial expandiu 1,1%, encomendas à indústria em queda de 1,3% e o saldo comercial foi superávit de 18, 3 bilhões de euros. Na zona do euro, a inflação pelo CPI de dezembro mostrou alta de 1,3%, com núcleo também em 1,3% e taxa de desemprego estabilizada em 7,5%. Lá, o índice de sentimento econômico subiu em dezembro para 101,5 pontos, de anterior em 101,2 pontos.

Nos EUA, as encomendas à indústria encolheram 0,7% em novembro e o índice ISM de serviços subiu para 55 pontos. A pesquisa ADP de criação de vagas no setor privado mostrou criação 202 mil postos e introduziu a possibilidade de payroll forte.

O payroll de dezembro com a criação de vagas no setor público e privado foi de 145 mil postos, com taxa de desemprego mantida em 3,5%. O secretário Kudlow qualificou o payroll de dezembro como muito forte e adiantou que as coisas estão no lugar certo no acordo comercial com a China.

Também tivemos vários dirigentes regionais do Fed discursando durante a semana. O vice-presidente Clarida acredita ser preciso prosseguir com as operações de Repo provavelmente até abril, e depois preparar transição. Mas, disse que vão discutir isso na próxima reunião. Falou sobre inflação na meta e identifica desaceleração da produtividade global. O dirigente do Fed de Nova Iorque, John Williams, declarou que os juros baixos e o declínio das expectativas de inflação sinalizam bem o futuro. Nosso entendimento é que, se a situação no Oriente médio piorar ao ponto de afetar a economia, o Fed pode reduzir um pouco mais os juros. No início da tarde de sexta-feira, o governo americano por meio do secretário Mnuchin, divulgou sanções contra o Irã para os setores de construção industrial e oito autoridades do país.

No cenário doméstico, o presidente Bolsonaro voltou a atacar a imprensa, mas também sancionou a passagem do antigo Coaf (atual UIF) para dentro do Banco Central e sem alterações. Já o presidente do BC, deu sua primeira coletiva do ano acreditando ser possível aprovar a independência do BC ainda no primeiro trimestre. Campos Neto, disse que a percepção da seriedade fiscal permite que a curva de juros longa caia. Comentou que recriaram o grupo de mercado de capitais para aprimorar medidas e também vão melhorar a regulação de entrada de fundos estrangeiros. Também falou sobre o projeto de câmbio que vai baixar custos de transação.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou a produção de veículos em dezembro em queda de 2,5%, mas com expansão em 2019 de 2,3%. As vendas de dezembro cresceram 8,4% em 2019 com expansão de 8,6%. O IBGE estimou a safra de 2020 em 2.143,2 milhões de toneladas de grãos, com alta de 0,7% sobre 2019 que ficou em 241,5 milhões, por sua vez marcando expansão sobre o ano anterior de 6,6% e novo recorde. A produção industrial de novembro segundo o IBGE encolheu 1,2%, e no ano mostra queda de 1,1%. Citamos bens de capital com queda de 1,3% em novembro e ainda 34,2% abaixo do pico alcançado em setembro de 2013. A produção industrial não consegue ter melhora consistente e houve queda em 16 de 26 ramos considerados. A indústria ainda opera 17,1% abaixo do pico observado em março de 2011.

O fluxo cambial de 2019 foi negativo em US$ 44,77 bilhões, com os bancos virando o ano vendidos em US$ 33,9 bilhões. A base monetária expandiu para R$ 316,6 bilhões e a posição cambial líquida de 2019 foi de US$ 3.217,8 bilhões. A inflação medida pelo IGP-DI de dezembro subiu para 1,74%, e com isso a inflação por esse indicador fechou 2019 em 7,60%. Já a inflação oficial pelo IPCA subiu em dezembro, 1,15% (anterior em 0,51%,) acumulando em 2019 4,31%, destaque para a carne com alta em dezembro de 18,06% e no ano, 32,40%.

No mercado acionário, muitas oscilações nas ações líderes por conta do comportamento das commodities (principalmente Petrobras e o setor bancário também pressionado, inclusive por declarações do presidente do BC sobre concorrência e open banking. A Anbima também divulgou que os fundos de investimentos registraram entradas líquidas de R$ 191,6 bilhões em 2019, sendo que os fundos de ações tiveram captação histórica de R$ 86,2 bilhões. Os investidores estrangeiros também mantiveram os saques da Bovespa que fizeram ao longo do ano de 2019. Até 7de janeiro já tinham sacado recursos no montante de R$ 1,45 bilhão.

 

Perspectivas - Mantemos nossa posição de seguir com aplicações mais agressivas em mercados de risco como forma de buscar melhores retornos. O fato da Bovespa ter feito sequência de cinco pregões seguidos em queda em 2020 não altera nada de nossa posição de médio e longo prazo.

Por conta da crise geopolítica no Oriente Médio e da entressafra de notícias internas por conta das férias quase gerais nos três Poderes (e também em muitas gestoras de recursos), os mercados assumiram grande volatilidade e isso está distorcendo a performance de curto prazo. Porém, continuamos a acreditar que o fluxo de recursos será carreado preponderantemente para a renda variável e o mercado de ações será beneficiado.

Apesar disso, será preciso que no retorno das férias, os três Poderes acelerem o trâmite de reformas e medidas de ajustes da economia, sinalizando para os investidores em todo o mundo que o Brasil está voltando ao radar e quer crescer organizado nos próximos anos. O risco está exatamente em tergiversar sobre reformas e ajustes e com isso perdermos novamente as chances de preparar o futuro. Só lembrando, os mercados reagem antes dos números acontecerem, e sim nas boas sinalizações.

Nesse contexto e considerando que outros mercados estão batendo novos recordes (DJI, Nasdaq, S&P e MSCI) esperamos que a Bovespa vá na mesma direção e busque recuperar o recorde atingido em 3 de janeiro, em 118.791 pontos. Mas também, nesse caso, o mercado internacional terá que acalmar, olhando para acordo comercial, EUA/China, Brexit suave e crise geopolítica perdendo força.

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Alvaro Bandeira

Economista-chefe do Banco Digital Modalmais

Fonte: www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado

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