Pão de pobre

Alguém dúvida que, se a taxa básica de juros (Selic) voltar a subir aos cornos da lua, a regra que confisca os ganhos da caderneta de poupança quando a Selic cai abaixo de 8,5% ao ano, será alterada para impedir que a turma do andar de baixo pegue carona na farra dos afortunados do Bolsa Juros?

O novo confisco
Faz bem a presidente Dilma em enfrentar os bancos e seus porta-vozes na mídia que resistem a baixar os juros tupiniquins para níveis civilizados. A presidente deve ter certeza que, nesta cruzada, terá o apoio de, no mínimo, 95% da sociedade brasileira e uma oposição conservadora constrangida em defender o indefensável.
No entanto, faz mal a presidente Dilma ao vincular a queda dos juros ao confisco dos rendimentos da caderneta de poupança. Confisco, sim! Independentemente de que como a presidente e seus marqueteiros venham a dourar a pílula, a redução do ganho da poupança é um confisco que atinge a mais popular e tradicional das aplicações brasileiras.
Nenhuma das alegações mobilizadas para justificar a medida se mantêm de pé. A afirmação de que a preservação do rendimento anual de 6% mais TR (hoje quase residual) causaria “uma fuga dos especuladores para a poupança” é risível e crível apenas para os que ignoram o portfólio desse tipo de investidor, que prefere liquidez e ganhos elevados a qualquer restrição à livre movimentação dos seus robustos, e de origem nem sempre explicável, recursos. Haja, vista, que, em sua grande maioria, não tiveram um só centavo confiscado pelo Plano Collor, hedgeados que estavam em ativos reais, como dólar, ouro e até gado.
Outra alegação, de que haveria um desequilíbrio entre o suposto aumento dos depósitos na poupança e os 65% que obrigatoriamente os bancos têm de aplicar deste ativo no setor imobiliário, não resiste aos números. Em 25 de abril, segundo dados do Banco Central, os depósitos na caderneta somavam R$ 431,228 bilhões. Já de acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), no primeiro trimestre, o financiamento da casa própria com recursos da poupança somaram R$ 17,6 bilhões, alta de 9,6% em comparação com o mesmo período do ano passado. Se anualizado, esse total chegaria a R$ 70,4 bilhões, ou 16% do estoque atual da caderneta, uma diferença de 49 pontos a menos do que o legalmente exigido, mesmo sem a mesma correção dos depósitos!
Por enfim, o argumento de que, ao se tornar um investimento mais atraente, a poupança provocaria uma desidratação dos fundos DI e de renda fixa, dificultando a rolagem da dívida pública, demonstra mais uma preocupação com os interesses dos bancos que administram, com taxas extorsivas esses fundos. Aplicação com 150 anos de existência e 98 milhões de contas, a poupança deve seu sucesso à simplicidade e a manutenção de regras estáveis, somente alteradas, em mais uma coincidência significativa, no governo de triste memória de Collor. Só então, a forma de cálculo, que garantia correção monetária mais juros de 6% ao anos, foram alteradas. Foi a partir daí que os fundos ganharam mercado em detrimento da poupança. Ou seja, foi uma ação de governo, sendo Collor presidente, que garantiu mercado a um ativo bancário. Espera-se que a presidente Dilma não entre para a história como a chefe de Executivo que, por ação de governo, venha a garantir reserva de mercado para um produto da banca, em detrimento do mais popular investimento brasileiro.
Em vez disso, Dilma poderia entrar para a história, como a presidente que estendeu ao conjunto dos poupadores, via uma caderneta especial, num massivo programa do Tesouro Direto, a possibilidade de aplicar em títulos públicos, a custos mais baratos e com remunerações crescentes conforme o período de depósito. Com isso, não só baratearia e tornaria menos turbulenta a rolagem da dívida pública, como daria acesso ao “povão” a alguns nacos da Bolsa Juros, que, apenas ano passado, provocou uma sangria de R$ 200 bilhões aos cofres públicos. É tudo uma questão de escolha, presidente.

Hotel hospital
Com inauguração prevista para a próxima segunda-feira, o Barra Day Hospital promete atendimento “classe A” para médicos e pacientes. Entre os serviços incluídos, a unidade oferecerá acesso gratuito à internet e Smart TV, TV a cabo, cardápio individualizado e cozinha contemporânea para acompanhante, além de serviço de transporte em carros executivos para pacientes. Para os médicos que realizarem cirurgias no local, o hospital terá sala de estar especial com acesso à internet, estacionamento gratuito e equipamento para teleconferências e transmissão de cirurgias em tempo real.  

Abre o olho, Dilma!
Geralmente com dificuldade de decodificar as questões macroeconômicas, o “povão” – uma das expressões prediletas do professor Carlos Lessa – já tomou conhecimento, e não gostou, do confisco da poupança perpetrado pela presidente Dilma. Basta frequentar as filas de aposentados do INSS para ver ouvir comentários indignados com a medida.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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