Quadro desafiador para a capital do açúcar

Por Ranulfo Vidigal.

O município de Campos dos Goytacazes, com seus quase 550 mil habitantes, passa por um longo processo de declínio econômico, embora tenha amealhado mais de R$ 25 bilhões de indenização da produção de petróleo (royalties), nos últimos 20 anos.

Conjunturalmente, como decorrência de uma crise sanitária de escala planetária, o setor mais empregador da cidade (serviços) e o varejo físico apresentam um quadro dramático. Nesse contexto, os serviços prestados às famílias, alojamento, alimentação, cultura, lazer e viagens estão num ritmo de “produção” 25% inferior a fevereiro de 2019. No segmento comercial, a queda é menor, em função do incremento de lucros do segmento farmacêutico e alimentos nos supermercados (considerados essenciais).

A ociosidade na economia local é alta, ou seja, além de dispor de 180 mil desempregados ou informais (metade da força de trabalho), o total de horas trabalhadas pela força de trabalho local, comparada ao contingente de população ocupada, está 15% abaixo da tendência histórica do potencial da cidade. Os setores que se sobressaem na atividade local são os de tecnologia da informação, armazenamento, transportes e, principalmente, serviços técnicos de alta complexidade, onde estão empregados mais de mil profissionais com alta escolaridade (mestrado e doutorado).

Mesmo na chamada vocação natural da cidade – o setor agrícola – a empregabilidade prevista para a safra canavieira que começa agora deve gerar menos da metade do empregava em 2006 – 15 anos atrás. Mesmo na administração pública, onde perfaz 1/3 do emprego regional, o salário real do funcionalismo não vê reajuste há cinco anos. Aliás, o mercado formal de empregados, segundo dados da Rais e do Caged, que atingiu a invejável quantia de 116 mil em 2014, atualmente soma pouco mais de 70 mil trabalhadores, conforme mostra estudo do professor da Uenf Alcimar Chagas.

A nova administração, imbuída na missão de reverter esse quadro, não pode apostar apenas na austeridade fiscal e no arrocho salarial como saída. Essas medidas serão um verdadeiro “tiro no pé”. Muito menos continuar a prática tradicional de manter uma política de compras de bens e serviços para as políticas públicas municipais centradas nas empresas “de fora”, como temos notícias recentemente.

A população laboriosa e esperançosa pede oportunidades, pão, moradia e paz, e, assim sendo, a classe dirigente precisa ouvir com bons ouvidos seus reclamos.

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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