Qual a medida certa para o movimento empreendedor?

Por Sérvulo Mendonça.

Opinião / 17:16 - 7 de ago de 2020

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É fato que as coisas mudam, mesmo que não percebamos, então nada fazer não é se manter no mesmo estágio, e sim retroceder, ainda que lentamente e sem a clara percepção de que isso esteja ocorrendo.

Já dizia Heráclito (540 a.c.–450 a.c.), filósofo pré-socrático, que “o homem que volta ao mesmo rio, nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem”. Essa máxima nos deu certo entendimento de que tudo flui, e que o mundo e a natureza são movimentos constantes. Mas, então, qual a medida certa do movimento?

Sem mais apelos filosóficos, neste artigo conversaremos sobre os momentos de incerteza, que por vezes nos fazem estagnar, bem como aqueles outros estágios em que parecemos estar avançando, mas que na verdade é apenas o movimento constante citado anteriormente.

O fato é: se nada fazer é andar pra trás, e fazer algo não necessariamente é avançar, e sim e apenas se manter, precisamos nos preparar e estarmos atentos aos nossos passos para que possamos efetivamente nos movermos e, necessariamente, evoluirmos.

Mover, pôr-se em movimento, executar, é aqui que muitos de nós começamos a entender que somente fazer o mesmo não está nos tirando do lugar, pois executar as coisas da mesma forma, ter pensamentos e agir de igual maneira não nos trará nada novo, e o risco da mesmice, talvez, seja maior do que o risco de se manter tradicional, pois no tradicional sempre teremos amantes daquilo que um dia foi, porém amantes das coisas que não se mantém tradicionais e ao mesmo tempo não evoluem, já é algo bem mais difícil.

Evoluir não é sair por aí comprando ou vendendo todas as coisas, ou agir na tentativa de ser todos os seres, é preciso foco, muito foco, porque sem direcionamento de longo prazo (repete comigo, que é importante: longo prazo) não se enxerga em cada conquista a necessidade de todo o caminho.

Olhar somente a proximidade (curto prazo) do óbvio não irá te distanciar do risco de apenas estar se movimentando. Cuidado!

Empreender não é trazer uma novidade como muitos dizem, uma novidade pode rapidamente se colocar obsoleta em função da própria e natural evolução, das coisas e do próprio ser humano.

Empreender é estar preparado, é saber que nem sempre se ganha e que às vezes se perde, mas que sempre se aprende. Cuidado com as novidades, elas passam.

Empreender é sonhar certo, então é aqui que o necessário cria corpo. Muito cuidado com a diferença de sonho e delírio, pois como diz Mário Sérgio Cortella, “sonho é algo que pode ser realizado, já delírio é algo inalcançável”. É como se uma pessoa resolvesse ser o melhor jogador de futebol do mundo aos 50 anos, nada contra os 50 anos, estou quase lá, mas não posso delirar e passar a acreditar que isso seria possível. Entre o sonho e o delírio é que reside a confusão do novo e da novidade.

Que fique claro: empreender não é criar novidades que se amontoam e confundem a si e a todos, e sim se manter novo em meio ao movimento constante citado por Heráclito.

A novidade sai de moda, o novo, mesmo que seja velho, sempre será novo. Tenho certeza que os amantes de carros, qualquer um que goste de carros, e até aqueles que não gostam muito, adorariam ter um “fusquinha todo original e novo” na garagem de casa, para apreciar, e para todos dizerem: nossa, esse carro está novo, olha que fusquinha lindo. Mas você pode ter um carro do ano que seja novidade, por quanto tempo sustentará isso?

Sejamos mais coerentes em nossas análises, muitos negócios quebram por falta de dinheiro, outros tantos por falta de gestão eficiente (financeira, administrativa, contábil, jurídica, tributária), alguns por fatores externos, outros por azar mesmo, mas, tenha certeza, boa parte destes empreendedores que aprenderam com o fracasso caíram na armadilha de criar uma novidade que precisava se manter como novidade o tempo todo.

Busque o óbvio e o novo, alie o tradicional e as peças que não mudam e conseguem se manter tradicionais, tenha novidades, mas busque se “manter novo”, assim sairá do estágio da inércia, ao mesmo tempo se libera da armadilha da novidade, e como consequência assimila que no fim das contas empreender é trabalho árduo, e que trabalho árduo traz sim cansaço, mas cansaço com realização. No momento que esse seu cansaço virar estresse, provavelmente algo está fora do óbvio.

Podemos, quem sabe, parar de desafiar o óbvio qualquer dia desses, pois o maior número de atropelamento não se dá com o semáforo na cor verde, e sim na cor vermelha, onde justamente não era para acontecer.

Desejo sucesso, saúde e paz!

Sérvulo Mendonça

CEO e CCO Grupo Epicus.

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