Qual o legado do G7?

A falta de concretude das cúpulas do G7 é um fenômeno progressivo, que já dura há vários anos, e que deve ser abordado trazendo este fórum multilateral de volta às suas origens Por Edoardo Pacelli

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Líderes no G7 olham para o céu na Cúpula na Itália
Líderes no G7 na Cúpula na Itália (foto G7)

Terminou a cúpula do G7, na Itália, em Borgo Egnazia, organizada por Giorgia Meloni, que fez as honras em dois dias intensos, nos quais convergiu a maioria dos líderes globais mais importantes: pela primeira vez o Papa participou de um G7, enquanto praticamente apenas o líder chinês Xi Jinping e o líder russo Vladimir Putin estavam ausentes.

Que conclusões podem ser tiradas? A cúpula foi certamente influenciada pela difícil situação política que surgiu no rescaldo das eleições europeias, com o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Olaf Scholz enfraquecidos pelos resultados na França e na Alemanha, e Rishi Sunak, britânico agora perto de deixar Downing Street, em vista da votação no início de julho, que — salvo milagres improváveis — decretará a derrota sólida dos conservadores ingleses.

Paradoxalmente, foi, portanto, uma oportunidade para Meloni, primeira-ministra, se apresentar como uma líder politicamente estável, recompensada pelas preferências obtidas nas eleições europeias. No entanto, o G7 da Apúlia produziu poucos resultados concretos, com exceção do acordo alcançado, em princípio, sobre os US$ 50 bilhões de ativos russos congelados, a serem disponibilizados para a Ucrânia, para necessidades orçamentárias, despesas militares e reconstrução.

Por um lado, esta decisão permitiu que as potências ocidentais se unissem mais uma vez, evitando discussões “desconfortáveis” sobre o fornecimento de armas e tropas, graças também à redução das propostas “corajosas” de Macron, apresentadas durante a campanha eleitoral. Por outro lado, porém, esta medida corre o risco de aumentar ainda mais a tensão com a Rússia, que prometeu retaliação no mesmo dia em que foi anunciada a visita de Putin à Coreia do Norte. Os tempos em que Moscou fazia parte do G8 e aparentava ter agora abraçado o grupo de potências ocidentais parecem estar a anos-luz de distância.

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Meloni teve o mérito indubitável de dar à cúpula um forte significado político, com a Itália tentando construir pontes com os países anfitriões (incluindo muitos membros do G20: Argentina, Brasil, Índia, Turquia), a fim de reduzir a distância entre o Ocidente e o tão chamado Sul Global, que, recentemente, pareceu cada vez mais distante das democracias liberais. No entanto, a falta de concretude das cúpulas do G7 é um fenômeno progressivo que já dura vários anos e que deve ser abordado trazendo este fórum multilateral de volta às suas origens, de há quase 50 anos, quando as discussões entre os líderes diziam respeito apenas às questões mais prementes de economia e de política externa.

Hoje, porém, produzem-se declarações muito longas e de difícil leitura: a declaração assinada em Borgo Egnazia tem 36 páginas, um sintoma de que talvez fosse mais eficaz concentrar-se em algumas prioridades bem identificadas em vez de abordar todo o conhecimento da sociedade atual, incluindo até discussões sobre questões éticas como o aborto que, seja como for, deveriam ser discutidas em outros fóruns internacionais mais apropriados. É claro que não é possível falar de todos os problemas globais num dia e meio, correndo-se o risco de a cúpula ser reduzida a mera “compilação” de declarações dos líderes e não a uma verdadeira discussão. É preciso regressar a um G7 mais sóbrio, orientado para resultados concretos e menos mediático, para evitar que se transforme no “festival de música” dos líderes internacionais.

Uma vez arquivada a cúpula do G7, viramos a página e olhamos para os próximos eventos internacionais. A começar pela conferência de Lucerna sobre a paz na Ucrânia, onde, no entanto, o país agressor, que até agora se recusou a participar de qualquer discussão construtiva destinada a por fim às hostilidades, esteve ausente da mesa. Seguir-se-á um importante Conselho Europeu nos dias 27 e 28 de junho, que será um “teste” para analisar os novos equilíbrios políticos que surgiram após as eleições europeias, enquanto o espectro da guerra em Gaza continua a pairar em segundo plano.

Em suma, o G7 não está rodeado de tempestades de verão passageiras, mas de tempestades duradouras, das quais se deseja sair da melhor maneira possível. A Itália encontra-se no centro desta tempestade, mas, neste momento, tem um governo mais sólido do que os seus parceiros: isto implica, portanto, maiores responsabilidades para o governo Meloni, que tem pela frente uma grande oportunidade de fazer com que a Itália tenha mais importância no mundo, embora num contexto representado por desafios muito exigentes.

Lula e Giorgia Meloni em conversa durante a cúpula do G7 na Itália
Lula e Giorgia Meloni (foto de Ricardo Stuckert, PR)

Nesse âmbito, é importante sublinhar como a reunião bilateral que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, teve com a primeira-ministra Giorgia Meloni, à margem dos trabalhos do G7, reafirmou a proximidade entre a Itália e o Brasil, com palavras que não foram apenas superficiais ou “institucionais”.

Os dois líderes discutiram segurança alimentar, desenvolvimento social e transição energética, sublinhando os profundos laços históricos entre o Brasil e a Itália. Lula parabenizou a primeira-ministra italiana pela organização do G7, agradecendo também a solidariedade demonstrada diante das consequências das enchentes no estado brasileiro do Rio Grande do Sul.

O líder brasileiro também falou sobre a perspectiva da viagem do presidente Sergio Mattarella ao Brasil, em julho, como parte de uma agenda que inclui encontros com a comunidade italiana, convidando Meloni para vir ao país com uma delegação de empresários, por causa da grande presença de empresas e de descendentes italianos no Brasil. Por seu lado, a primeira-ministra confirmou a sua presença na cúpula do G20, que se realizará nos dias 18 e 19 de novembro, no Rio de Janeiro.

A reunião bilateral destacou a vontade comum de dar continuidade aos resultados da cúpula de Apúlia, tendo em vista, precisamente, a cúpula do G20, no Rio de Janeiro, numa perspectiva de sinergia entre as duas presidências, a partir dos temas do desenvolvimento africano, inteligência artificial, transição energética e segurança alimentar. Concluindo o encontro, ao relembrar a presença histórica da comunidade italiana no Brasil, os dois líderes reiteraram a importância de aprofundar as relações econômicas entre as duas nações, em setores estratégicos como infraestrutura e energia, reunindo-se no Rio.

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus

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