Mais uma semana de turbulências nos mercados ao redor do mundo. A possibilidade de uma recessão nos EUA, afetando os mercados emergentes num segundo momento, é cada vez mais concreta. A divulgação dos indicadores norte-americanos reforçam isto, como o ISM, indicador de serviços de Chicago, referente a janeiro, que caiu a 44,6 pontos, abaixo dos 50 pontos, configurando o pior indicador em muitos anos.
Com o crescimento do PIB no quarto trimestre tendo recuado a 0,6%, anualizado em 2,4%, devendo ser revisado para uma taxa negativa em breve – segundo estimativas preliminares -, sendo repetido no primeiro trimestre deste ano, pode-se afirmar que, tecnicamente, os EUA já atravessam um surto recessivo. Resta saber, no entanto, sua intensidade e/ou extensão.
Os movimentos recentes do Fed e do Tesouro Nacional mostram que o governo está atento, fazendo o que for possível para que esta recessão não se aprofunde muito. Os sinais do Fed indicam a possibilidade de mais um corte na taxa de juros de curto prazo, atualmente em 3,0% anuais, para o dia 18 de março. Além disto, o Congresso norte-americano aprovou um pacote fiscal na semana passada, que visa a restituição de imposto aos consumidores, devendo injetar cerca de US$ 166 bilhões no mercado. Tais ações, no entanto, demandam tempo para surtir efeito.
É possível, no entanto, que esta recuperação comece a ocorrer a partir do segundo semestre, se consolidando ao fim deste ano. Tudo dependerá, no entanto, de uma conjunção de fatores, poucos esclarecidos nos movimentos recentes do Fed e do Tesouro. Afinal, como se encontra o grau de endividamento dos consumidores norte-americanos? Além disto, depois da crise de qualidade de crédito (subprime) no mercado imobiliário, qual será a disposição do sistema bancário em voltar a emprestar, com taxas mais baixas? Lembremos que a redução do juro básico da economia não indica que o mesmo será feito pelo sistema bancário, que deve manter os encargos para empréstimo altos, ainda mais com a crise de insolvência ocorrida.
Somado a estes pontos, é preciso atenção também às vicitudes das ações do Fed e do governo, sob o risco de desencadear outra farra do crédito, a exemplo de 2001/02, estimulando o chamado “risco moral” (moral hazard). Neste cenário, os agentes acabam assumindo posições mais agressivas nas operações financeiras, por acharem que o governo sempre estará por perto para socorrê-los. Sendo assim, ainda é cedo afirmarmos a intensidade de uma recessão na economia norte-americana e sua extensão.
No cenário internacional, na semana passada as ações do Banco da Inglaterra e do BCE, na liderança de Jean Claude Trichet, indicam visões diferentes sobre o momento econômico. Os ingleses seguiram os norte-americanos e reduziram sua taxa de juros de curto prazo, de 5,5% para 5,25%, e o BCE se manteve impassível diante dos riscos de desaceleração, enxergando mais a inflação. Por isto, manteve o juro do mercado europeu nos 4,0%.
Já no cenário doméstico, esta semana teve como destaque os indicadores de atividade econômica e a inflação, mostrando o acerto do Bacen, na sua postura atual, mais comedida. Os IPCs até recuaram bastante, com o IPC da Fipe registrando 0,52% em janeiro, pelo recuo dos alimentos, mas os IGPs se mantiveram em terreno perigoso, próximos a 1,0%, com o IGP-DI registrando 0,99% e o IGP-M 1,09%. Já pelo lado da produção industrial, as vendas da indústria acabaram fechando 2007 com expansão de 5,1%, com os dados do IBGE mostrando maior dinamismo, com expansão de 6,0%. No primeiro semestre a expansão foi de 4,8% e no segundo de 7,1%, contra os mesmos períodos de 2006, o que mostra o aquecimento da economia real.
Afirmar, no entanto, que o Bacen deve sancionar uma elevação do juro em breve – em abril, para muitos -, nos parece prematuro neste momento. Pelo impacto da crise norte-americana sobre o fluxo de comércio internacional será inevitável uma contribuição negativa do setor externo no crescimento do PIB, reduzindo-o neste ano. Nossa estimativa indica um crescimento de 4,3%. Com isto, as pressões de demanda serão menores. Por outro lado, a inflação, pela pesquisa Focus, já se aproxima do centro da meta (4,44%) e os serviços (ou preços administrados) neste ano deverão ter outro desempenho, dado as pressões dos IGPs, em torno de 8,0%, e sendo indexadores destes contratos.
Sendo assim, a postura do Bacen, na ata recente, deve ser considerada acertada. Não daria para agir diferente, visto que o papel da autoridade monetária é este mesmo: manter uma “sintonia fina” entre atividade e inflação.
Julio Hegedus Netto – Economista-chefe da Lopes Filho & Associados, Consultores de [email protected]















