Quando o coronavírus mata a alma

Esses soldados do bem na linha de frente estão morrendo de ‘burnout’.

Seu Direito / 16:43 - 6 de abr de 2020

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Existem hoje, no mundo, mais de 1,2 milhão de pessoas infectadas pela Covid-19. Quase 70 mil já morreram. No Brasil, são 11.130 pessoas comprovadamente doentes e 486 mortos até este domingo (5). O número de infectados praticamente dobra a cada dois dias, e o número de mortos também segue essa estatística macabra. O Brasil pretende gastar R$ 40 bilhões para dar fôlego às pequenas e médias empresas que faturam entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões por ano, mas isso é quirera perto do que nações como a Alemanha, a França e os EUA estão gastando e pretendem gastar para salvar as suas economias.

Há muitas teorias sobre a origem da Covid-19, e nenhuma explicação razoável. Sabe-se que começou em Wuham, província de Hubei, na China, e dali se espalhou pelo mundo. Essa é a única certeza até agora. Uns dizem que foi trazida pelo morcego. Outros dizem que o morcego sugou o sangue de um tipo comestível de esquilo, gambá ou réptil vendido nos mercados de peixe e dali se instalou no corpo do homem. Outros, por fim, adeptos às teorias conspiratórias, dizem que se trata de uma arma química, um vírus sintético desenvolvido de propósito em laboratório pelos chineses para combalir a economia mundial e, assim, enfraquecer as empresas estrangeiras localizadas na China para provocar a quebradeira das suas ações na Bolsa e baratear a sua compra pelos milionários do partido comunista. O que há de verdade nisso tudo nós nunca chegaremos a saber. O fato é que a pandemia deixou atrás de si um rastro de miséria moral e ruína econômica, e isso parece não ter fim.

No meio dessa catástrofe, cuja solução depende unicamente dos médicos e cientistas, os políticos ocupam as mídias para tirar proveito em favor de suas próprias carreiras. Aproveitam-se dos defuntos e das economias em frangalhos para os seus “15 minutos de fama”, assim como hienas e abutres se alimentam das carcaças e da carne podre dos pobres animais abatidos nas savanas pelos mais fortes. No fundo, são animais políticos da pior espécie. Os animais da natureza, pelo menos, comem os restos das presas abatidas por mera sobrevivência. É da sua natureza. Os políticos que se aproveitam dessa carnificina para alimentar seus egos o fazem por desprezo à vida humana e por dinheiro. É só isso que move essa gente.

Quase ninguém se deu conta de que um outro drama tão letal quanto a Covid-19 está abatendo silenciosamente os médicos e o pessoal de saúde que está na linha de frente dessa batalha campal. Esses soldados do bem estão morrendo de burnout. O burnout é um tipo de exaustão emocional que destrói a capacidade da pessoa de seguir em frente. A pessoa se sente impotente para fazer frente à agressão do ambiente de trabalho e põe fim à própria vida.

Os jornais italianos noticiaram que a enfermeira Daniela Trezzi, de 34 anos, que trabalhava na ala de terapia intensiva do Hospital San Gerardo, de Monza, região da Lombardia, testou positivo para a doença e foi posta em quarentena, mas, sozinha em casa, e com medo de transmitir a doença para familiares e amigos, resolveu pôr fim à própria vida. Não é o primeiro caso. Há duas semanas, outra enfermeira de Veneza tomara decisão idêntica. Esses não serão os únicos. Para essas pessoas, que estão no meio do fogo cruzado entre a agressão da doença e a incompetência política do poder público, o sofrimento das pessoas e a sua impotência para aliviar a dor têm um componente tóxico que leva médicos e enfermeiros a achar que a vida já não faz sentido. Nesse momento, todas as dores dos outros invadem as suas almas, e o profissional decide que a melhor forma de resolver o problema é sumindo desses infernos, para sempre.

Todas as vidas são importantes na luta contra essa doença maldita. Cada um que se salva, que se recupera, representa uma vitória da ciência sobre a morte. Mas perder um profissional de saúde num momento desses é como perder o seu melhor soldado justamente quando o inimigo já derrubou as nossas barricadas e está a dois metros da nossa cara, armado até os dentes e com nenhuma disposição de dialogar.

 

Mônica Gusmão é professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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