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quinta-feira, janeiro 21, 2021

Quarentena aumenta contágio dos semrendavírus

Na última quinta-feira, Rafael saiu cedo de casa para ir trabalhar. Apesar da apreensão com o risco de ser contaminado pelo coronavírus, o auxiliar administrativo continuou a se dedicar ao emprego com a sinalização de que seria promovido. Mas, ao chegar no trabalho, foi chamado pelo RH e recebeu a carta de demissão.

Para o desespero da esposa, Samantha, ele receberia o adiantamento do salário no dia seguinte. Ela aguardava o valor para fazer as compras do mês. “A gente ia pegar o vale para comprar mantimentos para a casa. Só que, como ele foi mandado embora, não vai receber nada agora. Estamos sem dinheiro para comprar os alimentos e, quando recebermos, como estarão as prateleiras dos mercados, padarias e açougues, sem transporte e abastecimento desses locais?”

Ela conta que, na terça-feira anterior, a empresa havia anunciado aos funcionários que daria férias coletivas. “Mas a decisão foi outra e junto com meu esposo, outras 29 pessoas foram demitidas. O motivo? Os gestores explicaram que não teriam como manter as vendas no cenário atual. Por consequência, a empresa não tem recursos para pagar os funcionários.”

Esta é a realidade está sendo ou será vivida por milhões de brasileiros. Em meio à pandemia do coronavírus e com uma taxa de desemprego de 11,2% que já atinge 11,9 milhões de pessoas no país, o Governo Bolsonaro anunciou que vai enviar uma MP ao Congresso a qual permitirá que as empresas cortem em até 50% a jornada e os salários de trabalhadores. A redução proporcional de jornada e salários poderá durar enquanto estiver em vigor o estado de calamidade, que deve ser bem maior que o inicialmente previsto.

Do outro lado, em seu “pacote de manutenção dos empregos”, o governo pretende permitir a isenção, por três meses, das contribuições dos empresários para o FGTS (R$ 30 bilhões) e da parte da União no Simples Nacional (R$ 22,2 bilhões). Mas se não há receita para pagar salários, isso se torna secundário.

A postura do governo brasileiro vai de encontro ao que foi adotado em outros países que passam pelo problema. Porque aqui não somos comunistas e “o PT consumiu todo o dinheiro público”. Na Itália, por exemplo, para desestimular demissões durante a crise, os funcionários das empresas que paralisaram suas atividades terão direito ao recebimento de um benefício no valor de 80% do salário, pago pelo INSS de lá.

A quarentena a que a população é submetida afeta a todos os setores e irá gerar um rombo no caixa das pequenas e médias empresas. No varejo, por exemplo, a reversão da demanda foi rápida. Antes da crise, as projeções eram incremento de 5% nas vendas em comparação ao ano passado. O mês de fevereiro comprovava a tese, com o faturamento em alta de 5,2% descontada a inflação – Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA). No entanto, o indicador, registrou queda de 3,8% na primeira semana de março e de 6% na segunda. A indústria começará a sentir a reversão em breve e, caso ocorra o fechamento das estradas, o caos estará instalado.

A consequência serão mais demissões e maior contração da renda. Isso sem contar os trabalhadores informais. Estes, sim, terão ajuda do governo: uma bolsa de R$ 200 mensais. “Isso é menos do que eu tiro por dia”, diz um motorista de Uber. Como ele, tantos milhões de brasileiros não terão como pagar as despesas básicas, como aluguel e alimentação. Babás e empregadas domésticas, então, nem se fala. O sonho de ir para a Disney fica para a próxima encarnação. A boa notícia é que o Bolsa Família será reforçado, com a destinação de até R$ 3,1 bilhões para incluir mais de 1 milhão de pessoas no programa. O valor é suficiente na visão de Guedes.

A crise transforma liberais em keynesianos, mas não os torna economistas brilhantes. A malfadada economia brasileira, que já vinha patinando, sofrerá e muito com a pandemia. O governo demorou a perceber a gravidade da situação, e as consequências serão piores do que poderiam ser. Num país de despreparados para problemas como esse, Bolsonaro colocou a máscara muito tarde. E o PIB? Voltamos à recessão.

Ana Borges
Colunista.

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