Quarteirizar para lucrar com a terceirização

Quando as empresas começaram a delegar a outras empresas a realização de algumas atividades, a palavra terceirização passou a fazer parte do vocabulário nacional. Logo em seguida, a terceirização gerou não apenas uma nova forma de gestão, mas também a maneira de nomeá-la: quarteirização. O que ocorre, no entanto, é que esta palavra ainda soa estranha ao ouvido de muita gente, mesmo das pessoas ligadas ao meio empresarial. Muito poucos sabem dizer o que é e para que serve, afinal de contas, essa tal de quarteirização. Alguns a confundem com outras práticas de gestão, como a subcontratação. Mas não é nada disso. Entender a quarteirização é bem mais simples do que pode parecer. E praticá-la, muito mais lucrativo.
Pode-se dizer que quarteirizar é delegar a gestão dos contratos terceirizados, algo como terceirizar a terceirização. Mas para que o empresário contrataria uma outra empresa para gerir seus contratos com os terceiros? Isso não seria aumentar os custos e a burocratização do negócio, sem falar no afastamento total do controle do processo? De forma alguma. O que tenho percebido, em minha experiência como consultor de empresas, é que muitas vezes a terceirização tem fracassado pela ausência de uma gestão adequada. A quarteirização é uma ferramenta que permite não só ampliar o envolvimento e o controle da empresa com seus terceirizados como, o que é fundamental, reduzir custos. Prova disso são os exemplos concretos, como o de uma empresa de atuação nacional que, após adotar a quarteirização em sua área jurídica, em um ano reduziu seu custo com advogados em R$ 800 mil.
Vale destacar que a área jurídica, de grande relevância dentro das empresas, é uma das mais usualmente terceirizadas e, freqüentemente, a que mais termina distanciada da realidade gerencial da corporação. Os motivos para isso são vários e vão desde a multiplicidade de prestadores de serviços, a falta de um núcleo decisório centralizado dentro e fora da empresa, a falta e/ou inadequação de informações prestadas pelo advogado à empresa e vice-versa, o modelo do contrato e o perfil do advogado escolhido. Ou seja: falta um gestor qualificado para associar a sensibilidade e a visão do empresário com a sensibilidade e a visão do advogado, alguém que transforme dispersão de energia em sinergia.
Estou usando o exemplo da área jurídica por ser esta a atividade em que atuo, mas a quarteirização é aplicável a todas as demais áreas terceirizadas nas empresas.
Voltando ao exemplo anterior, é importante lembrar que a gestão dos interesses legais de uma empresa é uma atividade profissional própria, que não é advocacia nem substitui essa modalidade de prestação de serviço. Ao assumir a gestão legal de uma empresa ou grupo empresarial, o quarteirizado ou gestor de contratos vai estabelecer, de comum acordo com o cliente, uma política jurídica global, fazer cumprir essa política dentro e fora da corporação, definir a estratégia para a condução das questões de maior relevo, assumir total responsabilidade pela condução de todos os assuntos que envolvam aspectos legais em todas as áreas do Direito e em todo território nacional, respondendo pela qualidade e execução dos serviços jurídicos.
Como já afirmei, a quarteirização, na área jurídica, pode trazer redução de custos para as empresas. Isto ocorre em diversos aspectos, como, por exemplo, na adequação do perfil dos advogados contratados às necessidades da empresa. E também na renegociação de contratos e do passivo jurídico, que muitas vezes é invisível para o leigo. A gestão legal transforma o risco jurídico em risco econômico, o que é indispensável para o empresário gerenciar seu passivo Além disso, o gestor de contratos tem a responsabilidade de manter o fluxo de informação entre os interlocutores escolhidos. Afinal, terceirizar não significa, de forma alguma, abandonar. O empresário deve manter-se informado e participante do processo, mas, contando, para isso, com alguém que vá lhe fornecer as informações desejadas, com clareza, segurança e no momento necessário.
A quarteirização não é novidade, mas ainda é um modelo de gestão pouco compreendido. Algumas empresas já o adotaram, mas outras, por o terem implantado de forma inadequada, tiveram problemas e o abandonaram. Em um cenário no qual produtividade e competitividade são palavras de ordem, está na hora de os empresários preocupados com a sobrevivência de seu negócio incluírem também no seu vocabulário a palavra quarteirização. Com certeza, se for bem administrada, a quarteirização vai lhes poupar dinheiro e incomodação.

Newton Saratt
Advogado, consultor de empresas, especialista em Gestão Empresarial, diretor da Saratt & Associados, de Porto Alegre.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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