Que papelão!

A bonança dos acionistas não acabou com a eclosão da Covid-19.

Empresa Cidadã / 10:36 - 24 de set de 2020

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Tem sido prática em alguns instrumentos de mídia, nesses tempos de pandemia, ressaltar a solidariedade de empresas na superação das dificuldades impostas pela crise sanitária (Covid-19) e pela crise de desigualdade social e econômica, crises xifópagas.

O relatório lançado pela Oxfam, “Poder, Lucros e a Pandemia”, lança luzes sobre este assunto, aqui transcritas, entre aspas, pela importância que têm.

 

Geração de lucros das corporações

Empresas exacerbaram os impactos econômicos da Covid-19 principalmente pelas razões: distribuição excessiva de lucros e dividendos a acionistas antes da crise deixou empresas, trabalhadores e governos vulneráveis ao choque da pandemia. As maiores empresas do mundo poderiam ter uma grande reserva financeira em mãos quando a crise da Covid-19 eclodiu para proteger os trabalhadores, ajustar seus modelos de negócios e evitar a necessidade de dispendiosos pacotes públicos de auxílio emergencial. A década passada foi a mais lucrativa da história para as maiores empresas do mundo. Os lucros auferidos pelas empresas listadas na Global Fortune 500 aumentaram em 156%, de US$ 820 bilhões em 2009 para US$ 2,1 trilhões em 2019. O crescimento dos seus lucros foi muito maior que o do PIB mundial, permitindo que elas capturassem uma fatia cada vez maior do bolo econômico global.”

 

Distribuição de lucros e dividendos

No entanto, os lucros que auferiram antes da crise foram quase que exclusivamente distribuídos para um pequeno grupo de acionistas predominantemente ricos, em vez de serem reinvestidos em melhores empregos ou em tecnologias favoráveis ao clima entre 2010 e 2019, quando as empresas listadas no Índice S&P 500 distribuíram US$ 9,1 trilhões em lucros e dividendos aos seus ricos acionistas – correspondentes a mais de 90% dos lucros que auferiram ao longo do mesmo período.”

Esses acionistas são, na sua maioria, homens brancos e ricos. Uma nova análise realizada pela Oxfam revelou que as maiores empresas do mundo intensificaram sua distribuição de lucros aos seus acionistas nos quatro anos que antecederam a Covid-19. Do exercício fiscal de 2016 ao de 2019, as 59 empresas mais lucrativas do mundo distribuíram quase US$ 2 trilhões aos seus acionistas. Esses pagamentos a acionistas equivaleram, em média, a 83% do resultado líquido dessas empresas. Além de terem distribuído todos os seus lucros a acionistas, em alguns casos, diversas empresas se endividaram ou recorreram às suas reservas para pagar seus ricos investidores.”

As empresas Chevron, Procter & Gamble, BP e Walmart foram algumas das que distribuíram as maiores somas a acionistas em 2019 como um porcentual dos seus lucros. Em valores em dólares dos Estados Unidos, a Apple supera todas – só em 2019, a gigante tecnológica distribuiu US$ 81 bilhões aos seus acionistas.”

Muitas empresas que estão enfrentando problemas financeiros neste momento gastaram a maior parte dos seus lucros com distribuições a acionistas no ano passado. Só as dez maiores marcas de vestuário distribuíram US$ 21 bilhões (uma média de 74% dos seus lucros no exercício fiscal de 2019) aos seus acionistas em dividendos e recompras de ações. Agora, milhões de trabalhadores do setor de vestuário, de Bangladesh ao México, perderam seus empregos porque empresas do setor cancelaram pedidos e se recusaram a pagar seus fornecedores.”

A bonança dos acionistas não acabou com a eclosão da Covid-19. Segundo seus relatórios financeiros, a Microsoft e a Google distribuíram, respectivamente, mais de U$ 21 bilhões e US$ 15 bilhões aos seus acionistas. A despeito da queda na demanda por seus produtos durante a pandemia, a montadora Toyota distribuiu mais de 200% dos seus lucros para investidores desde janeiro. A Basf, a gigante alemã do setor químico, distribuiu mais de 400% dos seus lucros nos últimos 6 meses. A gigante farmacêutica americana AbbVie já distribuiu 184% do seu lucro líquido a acionistas nos primeiros dois trimestres de 2020. E três das empresas americanas mais proeminentes que desenvolvem vacinas para a Covid-19 com bilhões em dinheiro público – Johnson & Johnson, Merck e Pfizer – já distribuíram US$ 16 bilhões aos seus acionistas desde janeiro.”

Mas não foram apenas empresas lucrativas que continuaram a distribuir seus lucros a seus acionistas. As seis maiores empresas petrolíferas do mundo – Exxon Mobil, Total, Shell, Petrobras, Chevron e BP – tiveram, juntas, um prejuízo líquido de US$ 61,7 bilhões de janeiro a julho de 2020, mas ainda assim conseguiram distribuir US$ 31 bilhões aos seus acionistas no mesmo período. A Seplat Petroleum, a maior empresa de petróleo da Nigéria, distribuiu 132% dos seus lucros a acionistas nos primeiros seis meses de 2020, embora o país corra o risco de sofrer um colapso econômico.”

A distribuição excessiva de lucros e dividendos a acionistas é uma má notícia para a eliminação da desigualdade, já que ela beneficia principalmente pessoas que já são ricas, não é usada para pagar melhores salários a trabalhadores comuns e canaliza incentivos de curto prazo para CEOs. Ela também exacerba a desigualdade de gênero, uma vez que a maioria das ações de empresas está nas mãos de homens e ela infla os pacotes de remuneração dos CEOs, a maioria dos quais são homens (apenas 14 CEOs [2,8%] das empresas listadas na Global Fortune 500 e nenhum dos CEOs das empresas listadas nos principais índices do mercado de ações no Brasil, África do Sul, França ou Alemanha são mulheres).”

 

Outro 7 x 1

Então, fica combinado assim. A culpa das queimadas e do desflorestamento é dos índios e caboclos. Foi o que ele disse em seu discurso na abertura da 75ª Assembleia da ONU, com o coro do vice e daquele outro, o da porteira aberta, em seus discursos esquizo-persecutórios (se cercar é hospício; se cobrir é...). Minha avó diria: que papelão!

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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