Quebrada ou não, economia exibe fissuras estruturais

Como já esperado, no seu primeiro dia de trabalho do ano o presidente da República, Jair Bolsonaro, estreou os holofotes com uma fala tosca: “O Brasil está quebrado, chefe”. Aí lá vem o ministro da Economia, Paulo Guedes, colocar panos quentes na questão, e os debates na mídia sobre o quão certa ou quão errada está a frase.

Neste sentido, uma coisa é certa: podemos não estar quebrados, mas a economia brasileira é um esqueleto repleto de fissuras e algumas se ampliaram. E, diante de um governo incapaz de liderar e longe de ter credibilidade, fica difícil acreditar que o quadro se modificará até 2022. Na verdade, a postura parece ser um prelúdio do discurso das eleições que veremos daqui para frente. A culpa ainda recairá sobre o PT? Talvez essa não seja mais a desculpa adequada, pois a “mídia socialista” assumirá o papel de bode expiatório.

No primeiro ano de Bolsonaro, eleito como o salvador da pátria, comemorou-se o tímido crescimento do PIB de 1,1% em 2019, algo que o Governo Temer já vinha entregando com melhor qualidade. Como sempre acontece quando se frustram as expectativas, o discurso se voltou ao futuro na linha de que hoje não está bom, mas as perspectivas… Enquanto 2020 prometia para Bolsonaro entregar resultados, o mundo se apavorava com a pandemia que acabou por atingir, em cheio, a economia brasileira. Balela, a culpa foi da mídia golpista.

A expectativa dos economistas ouvidos pelo boletim Focus do dia 8/1 é de um tombo de 4,41% no PIB brasileiro em 2020 e de um crescimento de 3,5% neste ano. A segunda perna do V deve ser mais curtinha que a primeira, na melhor das hipóteses. Até porque, a cada início de ano, tudo é mais otimista. O cenário poderia ser menos ruim se não fosse a inépcia do governo em lidar com a pandemia. Afinal, até a nossa corrida para vacinação está atrasada, o que já começa a prejudicar o desempenho da economia em 2020.

Além derrubar a economia que já vinha com a saúde fraca, a pandemia aprofundou as mazelas sociais que impedem o Brasil de dar voos maiores que os de galinha. A desigualdade é uma das grandes fissuras do esqueleto que se tornaram mais visíveis no último ano. O Brasil é o oitavo país mais desigual do planeta, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado em dezembro.

O programa de auxílio emergencial até ajudou a amenizar o problema, mas se mostrou insuficiente, e agora com o seu fim haverá uma forte queda na renda, e pessoas retornarão a ser invisíveis, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Dados de um estudo publicado pela consultoria Tendências demonstram que o rendimento dos moradores da região Norte subiu 13,1%, e da Nordeste, 8,3% em 2020. Para 2021, a expectativa é de queda de 8,5% para a renda do Norte e 8% do Nordeste.

O fim do auxílio está relacionado à tentativa de acabar com outro problema estrutural: o déficit do governo. Há tempos as contas não fecham, mais especificamente, desde 2013. De lá para cá, os resultados negativos se aprofundaram e, segundo os últimos dados do Banco Central, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 18,1 bilhões em novembro de 2020. Se for considerado somente o governo central, o resultado ficou negativo em R$ 20,4 bilhões, o maior déficit para o mês desde 2016. No acumulado do ano até novembro, o déficit primário soma R$ 651,113 bilhões, o equivalente a 9,58% do PIB, e a projeção do Tesouro para 2020 é de um rombo de R$ 844,2 bilhões ou 11,7% do PIB.

Vale a pena lembrar que, antes da posse, Guedes afirmava que era possível zerar o déficit do governo já no primeiro ano de mandato. Entre o possível, o impossível e o factível, as contas do governo vão piorando ano após ano e já se fala em superávit apenas para 2026 ou 2027.

Restam somente dois anos para que Bolsonaro mostre para que veio. Até o momento, sobraram discursos inflamados, incentivo ao ódio e uma gestão ineficaz, seja na pasta da economia, na saúde ou na educação. O Brasil tem graves problemas econômicos, mas está longe de quebrar como aconteceu ao final dos anos 80 e início dos 90. O risco é de que um governo quebrado também leve a economia à bancarrota.

Por Ana Borges – diretora da Compliance Comunicação.

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Ana Borges
Colunista.

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