Queda de mercados alerta para riscos da atual estratégia da Petrobras

Segundo instituto, empresa tem ancorado sua estratégia de atuação na exportação de petróleo cru, e principalmente para os países da Ásia.

A queda dos preços do petróleo na segunda-feira deixou o mercado em alerta. O preço do barril do petróleo tipo Brent fechou o dia cotado a US$ 34,36 (redução de 24,1%), enquanto o WTI encerrou em US$ 31,13% (uma diminuição de 24,59%). E mesmo com a recuperação ensaiada hoje, a tendência em médio e longo prazos é de menor demanda e preços mais baixos, o que pode afetar as contas da Petrobras, aponta o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

De acordo com o instituto, a abrupta queda das cotações do preço do barril, embora tenha como aparente elemento desencadeador a crise entre Arábia Saudita e Rússia, é consequência de um movimento estrutural: a redução da demanda asiática, principalmente da China.

Em 2018, segundo dados do BP Statistical Review, a Ásia respondia por pouco mais da metade das importações mundiais de petróleo cru, e somente três países asiáticos – China, Japão e Índia – eram responsáveis por 37%. Em 2019, de acordo com números da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), China, Índia e Japão importaram algo próximo a 18 milhões de barris por dia de óleo, com a China sendo responsável por cerca 10 milhões de barris diários.

Nos meses de janeiro e fevereiro, antes, portanto, da crise russo-árabe, o preço do WTI já tinha caído 22,77%, e o do Brent, 26,44%. O que mostra que a queda foi motivada pelo surto do coronavírus na China e em países vizinhos, que arrefeceu a atividade econômica e atingiu também a indústria petrolífera.

Somente em fevereiro, as importações chinesas diminuíram 200 mil barris por dia e a expectativa é que essa redução se acelere ainda mais. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica e Tecnológica da China National Petroleum Corp (CNPC), a queda deve chegar a 20% do total de petróleo importado pela China – uma retração de até 2 milhões de barris por dia. No Japão, o cenário não é muito diferente, e a demanda por petróleo cru importado deve diminuir 8% (redução de cerca de 250 mil barris por dia).

"Tomando como base o cenário da China e do Japão, podemos pensar numa queda de demanda superior a 3 milhões de barris por dia, o que seria a maior retração desde a segunda crise do petróleo. Naquela época, entre 1979 e 1981, o consumo de petróleo cru caiu cerca de 4,5 milhões de barris por dia. O fato é que a permanência da crise de demanda asiática afetará os grandes exportadores de petróleo, como o Brasil, ainda mais se o preço continuar em queda livre", afirma Rodrigo Leão, coordenador do Ineep.

Segundo ele, nos últimos anos, a Petrobras tem ancorado sua estratégia de atuação na exportação de petróleo cru, e principalmente para os países da Ásia, com grande destaque para a China. As receitas da companhia com exportação de petróleo cru aumentaram de 18,2% para 23,6% entre 2018 e 2019. A maior parcela dessas exportações foi para a Ásia (mais de 80%), principalmente para o mercado chinês (71%).

A menor demanda asiática, somada ao fato de que os EUA começam a exportar óleo cru e a Europa também vem sofrendo com o coronavírus, faz com que não existam muitos destinos para as exportações de petróleo cru da Petrobras. Além da menor da demanda, o atual cenário promete preços mais baixos em relação ao observado até 2019, o que pressionará as margens na produção.

"Esses elementos levantam questionamentos sobre a estratégia da Petrobras em depender cada vez mais das exportações do petróleo do pré-sal e do mercado asiático. Até onde a Petrobras suportará a queda de preços do barril de petróleo, e após a venda das refinarias, como irá atenuar a redução das receitas no segmento exploração e produção é que o nos perguntamos", conclui Leão.

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