Racionalizações

A reunião do Copom, que termina hoje, se defronta com dilema acaciano: manter os juros em estratosféricos 19% ao ano ou reduzi-los em imperceptível 0,25 ponto percentual. Essa milimétrica diferença importa apenas aos freqüentadores dos cassinos dos mercados de futuros, onde informações privilegiadas, mesmo que sobre a terceira casa, sempre rendem milhões – e nem sempre apenas em reais.
Para os que habitam o mundo real, o dilema real é bem outro: enquanto as aplicações no papelório do tucanato renderem juros bem acima de qualquer atividade produtiva, o Brasil continuará o paraíso de especuladores e rentistas. Nesse cenário, qualquer projeto consistente de desenvolvimento terá o mesmo destino que o salário mínimo de US$ 100 acenado pelo PFL.
Os sábios condutores da fracassada política econômica têm ojeriza ao debate. Fundamentalistas, sentem calafrios à menor menção ao contraditório. Por eles, eleições se limitariam a uma semana de campanha. Não é surpreendente, portanto, que persigam a desqualificação dos que ousam se opor ao pensamento único. Entre os muitos epítetos com que tentam interditar o debate, está o de corporativismo.
No entanto, nenhum corporativismo sequer se aproxima do praticado pela banca. Proer, meta de inflação, defesa do câmbio, atração do capital externo, alta do petróleo, “custo Brasil”…  As alegações podem mudam, só não muda a defesa dos juros nas nuvens nem seu objetivo final: a drenagem escandalosa do setor produtivo para a especulação, que levou o País a torrar, em 99, R$ 140 bilhões com pagamento de juros.

Atraso
O tempo médio de concessão de benefícios do INSS no Rio de Janeiro passou de 19 dias em outubro para 24 dias. A média nacional é de duas semanas. O número de processos que com o prazo de concessão acima do que a lei determina gira em torno de 18 mil. O diretor de Benefícios do INSS, Sebastião Faustino de Paula, veio ao Rio sexta-feira para definir uma estratégia para diminuir o problema e sugeriu que os gerentes – que agora têm autonomia para decidir a concessão – façam um mutirão. O que pode ser apenas um caso de burocracia emperrada pode, na verdade, esconder uma forma do Governo federal maquiar as contas públicas, postergando o pagamento de contas e benefícios. No final do ano passado, por exemplo, o mesmo INSS determinou que o auxílio maternidade voltasse a ser pago pelo órgão e não mais pelas empresas empregadoras, que depois descontavam o valor da guia da Previdência. A medida vai na contramão do desejo de desburocratizar e facilitar o pagamento de benefícios.

Última esperança
Com o fim do recesso da Câmara Municipal, na próxima semana, o presidente em exercício da  Comissão de Orçamento e Finanças da casa, vereador Edson Santos (PT), anuncia que a bancada do PT retomará a mobilização para derrubar o veto do prefeito Luiz Paulo à emenda que impede aumentos abusivos do IPTU. Fruto de  acordo, no fim do ano passado, de vereadores de todos os partidos, inclusive governistas, a emenda foi vetada por Conde. Segundo Santos, a líder do Governo, Rosa Fernandes (PFL), prometeu manter o compromisso de derrubar o veto, o que beneficiaria 17% dos contribuintes que tiveram aumentos em  seus carnês. A possibilidade de reduzir o valor de imposto votado em ano anterior, porém, divide opiniões dos juristas.

Metodologia
A volta da polêmica sobre a não colocação das etiquetas nos preços dos supermercados aguçou uma curiosidade extra no consumidor: afinal a inflação é calculada sobre o preço da gôndola ou na boca do caixa?

Forma e conteúdo
Quem ainda têm paciência de ler o que o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco escreve na esperança de encontrar alguma linha de autocrítica já começa a perder as esperanças. E já começa também a duvidar da opinião de alguns importantes economistas de que Franco reveste a pobreza das suas teses com uma bela retórica. Em artigo em revista semanal sobre investimento estrangeiro no Brasil, o principal defensor da política de câmbio, além de alinhavar ultrapassadas idéias sobre o assunto, ainda disparou a frase “tem que a ver” que mereceria reprovação de qualquer professora de português do ensino fundamental corrigindo a redação de um aluno.

Cena de cinema
Essa coluna não quer se meter em assunto de cinema, mas só quer entender: produtores que assumem riscos para fazer filmes, como Norma Bengell, são os bandidos, e os mocinhos são todos os demais que participaram do dispendioso convescote promovido pelo Ministério da Cultura?
Rambo
Matéria em uma revista semanal sobre a polêmica que envolve o financiamento ao cinema brasileiro começava com a frase: “O cinema brasileiro não produz apenas filmes ruins…” Com tal preconceito, não fica difícil deduzir de onde vem o cinema que agrada à publicação.

Papel
O deputado Delfim Netto (PPB-SP) lembra que os princípios básicos do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) rezam que é obrigação defender a estabilidade da moeda e a busca do pleno emprego. Nem isso os aprendizes de monetaristas tupiniquins conseguem captar.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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