Conversamos sobre a Raízen com Caio Amoed, analista de valores mobiliários e fundador do portal Blue Chip Invest.
Qual a sua avaliação sobre o desempenho da Raízen?
Nas últimas safras, a Raízen teve um desempenho afetado por decisões internas equivocadas e pelo cenário conjuntural do setor. Com relação às decisões internas, a Raízen teve um plano de investimento muito agressivo. Utilizando como referência os pares comparáveis do setor, enquanto a Vibra teve, em média, um capex/receita líquida de 0,5%, e a Ultrapar, 1,5%, a Raízen teve 5%. Esse plano de investimento ajudou, e muito, a endividar a empresa.
Some-se a isso o cenário da taxa Selic, que estava em 11,75% em 2023 e que hoje está em 15%. Isso fez com que a dívida bruta da Raízen saísse de R$ 50,9 bilhões no final da safra 2023/2024 para os atuais R$ 76,8 bilhões, um aumento de, aproximadamente, 51%. Com relação à alavancagem, a dívida líquida/Ebitda está em 5,1x, enquanto na Vibra e na Ultrapar, que foram mais conservadoras nos investimentos, ela está em 2,7x e 1,7x, respectivamente.
Além disso, nós tivemos o cenário conjuntural do setor. O preço do etanol na fábrica teve uma boa queda de 2023 para 2024, sendo que o preço comercializado pela Raízen caiu, aproximadamente, 25%. Outro ponto é que na distribuição de combustíveis, principal segmento da Raízen, as vendas e as margens foram bastante afetadas pela forte concorrência de distribuidoras menores e regionais, o que fez com que a companhia perdesse participação de mercado. Isso também foi agravado pela concorrência desleal de algumas distribuidoras que usam misturas ilegais no biodiesel. Por fim, nós tivemos a seca da última safra, que comprometeu a produtividade e o desenvolvimento da cana de açúcar, o que foi agravado pelas queimadas que afetaram os canaviais da companhia, principalmente na região Centro-Sul, e que comprometeram a moagem.
Essa conjunção de fatores fez com que a Raízen tivesse uma forte queda nos seus principais indicadores operacionais, aumentasse a sua dívida de uma forma bem acelerada e passasse a ter prejuízos, além de impactar a sua geração de caixa.
Qual a sua avaliação sobre o valor da ação da Raízen?
Nesse momento, a minha recomendação é que se mantenha as ações da Raízen. Se o investidor visa mais retorno sabendo que vai correr mais riscos, ele pode investir apostando no potencial de sucesso do plano de reestruturação iniciado pela companhia, mas se o investidor é mais conservador e avesso ao risco, só vale a pena entrar na ação quando a empresa mostrar os primeiros sinais de recuperação nas suas margens operacionais, mesmo sabendo que ele pode perder um pouco do potencial de alta da ação.
Eu não considero uma compra ou venda nesse momento, pois da mesma forma que o plano de reestruturação pode dar certo, ele pode dar errado e a ação cair até mais. Dessa forma, eu acho mais prudente que quem está na ação, permaneça nela, mas quem não está, fique de fora até a empresa mostrar, como disse, os primeiros sinais de recuperação através das suas margens operacionais.
Você vê a Raízen no mercado daqui a alguns anos?
Essa é uma boa pergunta, mas a sua resposta vai depender muito do sucesso do plano de reestruturação da Raízen. Desde que a companhia iniciou esse plano, ela já mostrou alguns sinais de recuperação, mas de forma ainda muito tímida. A Raízen precisa acelerar as medidas que está tomando, como a venda de ativos não estratégicos, a postergação de investimentos de longo prazo, o foco em ativos que geram caixa rápido, a renegociação do fornecimento para a Shell, um dos seus principais clientes, a diminuição, ainda mais, da sua inadimplência, e a aceleração do recebimento dos seus recebíveis, o que reduziria esse estoque. Algumas dessas medidas já estão sendo tomadas, mas a Raízen precisa acelerá-las para que o plano de reestruturação tenha mais chance de dar certo.
O que seriam esses sinais de recuperação que a Raízen já mostrou?
No último trimestre, a Raízen teve uma queda de 26% nas despesas gerais e administrativas em relação ao trimestre anterior, sendo que no acumulado desta safra em relação ao mesmo período anterior, a queda foi de 23%. Além disso, a Raízen já vendeu alguns ativos não estratégicos no total de R$ 5 bilhões, sendo que R$ 1 bilhão já entrou no seu caixa. Cabe destacar que esses recursos serão destinados a desalavancagem da empresa. Outro ponto foi a queda de 26% do capex no acumulado desta safra em relação ao mesmo período da safra anterior. Contudo, mesmo com esses resultados, isso está longe de ser suficiente para que a Raízen realmente reduza a sua dívida.
Como você vê as perspectivas da Raízen?
Alguns analistas discutem que seria mais viável para a Raízen acelerar a sua desalavancagem fazendo uma nova emissão de ações, mas isso não deveria ser feito agora, pois diluiria bastante os acionistas minoritários e mostraria uma desesperança operacional em relação à companhia, ou seja, daria a entender que a Raízen não teria condições de melhorar, pelas próprias pernas e com convicção, o seu desempenho operacional. Para que essa nova emissão de ações possa acontecer, seria preciso esperar os primeiros sinais de recuperação, principalmente na parte operacional, para que aí sim a Raízen pudesse fazer a emissão com um preço melhor e captar mais recursos.

















