Conversamos sobre o resultado do 4T25 do RD Saúde, Raia Drogasil, com Lucas Barbosa, analista da Ativa Investimentos.
Qual a sua avaliação sobre o resultado da RD Saúde no 4T25 e em 2025?
A Raia trouxe um resultado bastante sólido no 4T25. A receita ficou em linha com a nossa estimativa, crescendo, principalmente em medicamentos GLP1, as famosas canetas emagrecedoras. A margem Ebitda ficou acima do que esperávamos, muito por conta dos ajustes que ela tem feito na sua despesa operacional. Além de alguns impactos causados por uma despesa financeira mais elevada por questões macroeconômicas, a Raia teve um não recorrente que pressionou pouco o lucro líquido, mas nada que ofuscasse o resultado positivo.
Cabe destacar que um pouco antes da divulgação do resultado, foi anunciada a venda da divisão de medicamentos de alta complexidade, a Forbio, que havia sido adquirida em 2015. Essa venda não era esperada, mas foi bem recebida pelo mercado, já que o direcionamento da empresa hoje é mais focado no varejo farmacêutico do que nesse tipo de medicamento, que querendo ou não, tem mais sinergia com a distribuição farmacêutica do que com o varejo.
No mais, a Raia cumpriu o seu guidance de lojas, tendo aberto 330 unidades em 2025. Além disso, o segundo semestre encerrou o ano com chave de ouro, já que o primeiro havia sido bem fraco para o setor. Isso porque a Raia havia encerrado 2024 com um déficit de funcionários por farmácia, e a forte entrada do GLP1 fez com que o índice de roubos fosse elevado.
Qual a sua avaliação sobre a geração de caixa e o endividamento da RD Saúde?
A geração de caixa da Raia é bem consistente, sendo ela apoiada tanto no seu Ebitda, quanto na disciplina de capital de giro da companhia. Ter essa disciplina é algo complicado em um setor onde as canetas emagrecedoras possuem um problema de oferta, mas uma demanda muito alta, o que faz com que seja extremamente complexo fazer a gestão do capital de giro gerando Ebitda.
Com relação ao endividamento, a Raia possui uma alavancagem controlada, tanto que esse tema nem é acompanhado pelo mercado.
Quando sai um resultado da RD Saúde, quais são os primeiros números que você analisa?
O primeiro número que eu analiso é o mix de vendas para entender o que está vendendo bem, como genéricos, medicamentos de marcas ou HPC (Higiene, Perfumaria e Cosméticos). Outro número é o desempenho da margem bruta. Por exemplo, como as canetas emagrecedoras tendem a pressionar a margem, é interessante analisar a sua dinâmica, justamente para constatar se está havendo pressão e se a Raia está conseguindo repassar os custos, pelo menos em parte.
Eu também analiso a expansão, ou seja, se a Raia está cumprindo com o seu guidance ou se há um risco de ela não entregá-lo. Por fim, é sempre importante olhar a gestão de caixa.
Atualmente, eu também tenho olhado para a operação digital da Raia, cuja penetração é muito boa, tanto que a gestão da companhia se orgulha em dizer que a sua operação digital é a quarta maior rede de farmácias do Brasil.
Como você tem visto a concorrência no setor da RD Saúde?
Hoje, a principal concorrente da Raia é a DPSP, Drogaria Pacheco São Paulo. Existem muitos concorrentes menores, mas essa é a principal. A Raia tem o market share líder tanto em São Paulo quanto em outras regiões, sendo que é em São Paulo onde ela e a DPSP possuem suas maiores presenças.
Como as farmácias estão muito próximas umas das outras, sendo que em algumas regiões a mesma rede possui duas farmácias em um raio de distância muito curto, a competição se dá nos preços.
No caso da Raia, ela possui uma vantagem sobre seus concorrentes: a parte de serviços. A Raia tem um hub muito amplo de serviços, composto, por exemplo, por vacinas, medicamentos injetáveis e testes de bioimpedância. Como a Raia possui parcerias com os planos de saúde, esses serviços acabam sendo pagos pelos planos, e caso o cliente não tenha um plano, ela cobra um valor reduzido em comparação com os preços cobrados pelos centros médicos.
Dentre as companhias listadas, a sua principal concorrente é a Pague Menos, sendo que a Panvel não fica atrás, mas o mercado vê uma concorrência mais acirrada entre a Raia e a DPSP, que não é listada.
Qual a sua avaliação sobre o desempenho das ações da RD Saúde?
Historicamente, a Raia é negociada com múltiplos elevados, pois o mercado entende que ela precisa entregar um forte crescimento. Trata-se de uma empresa sólida que, no nosso entendimento, está operando em um nível de preço muito confortável. Em termos de geração de caixa, a empresa é bastante saudável, mesmo que a sua cotação não seja agressiva.
Em momentos macroeconômicos mais estáveis, a Raia tende a performar bem. No ano passado, ela teve uma queda acentuada, mas isso se deu por questões de concorrência e de reajuste de preços de medicamentos, o que fez com que o setor fosse pressionado por essas incertezas. Para 2026, nós esperamos uma retomada do setor, já que ele tende a ter estabilidade regulatória e perspectivas positivas com a entrada de novos medicamentos, quedas de patentes e maior demanda por medicamentos emagrecedores, que hoje é o tema em alta do mercado.
Por que o mercado não reconhece o valor da ação?
Existe uma divergência no mercado entre os que preferem uma empresa de crescimento, como a Pague Menos e a Panvel, e os que preferem uma empresa de maior qualidade e que seja líder de mercado, como a Raia. Como a Raia possui peers que entregam mais crescimento no momento, a sua ação acaba não sendo um consenso, já que ela é uma empresa mais consolidada.
Mas olhando para o médio e longo prazo, a ação da RD Saúde vale a pena?
Sim, vale a pena, mas se olharmos para o curto prazo, em termos de crescimento nominal, existem empresas que podem entregar números maiores, mas em termos de qualidade, a Raia já se provou. Inclusive, o M&A que ela fez com a Drogasil há alguns anos foi um dos processos mais bem sucedidos da história da nossa Bolsa.
Qual a sua avaliação sobre o dividend yield e o payout da RD Saúde?
A Raia teve um payout de, aproximadamente, 60% em 2025, mas esse número costuma ficar entre 50% e 55%, o que é bem agressivo, até porque como ela é uma empresa mais sólida, ela tende a remunerar os acionistas. Com relação ao dividend yield, a nossa projeção para 2026 é de 2,7%. Esse indicador é baixo, mas como o seu nível de payout é relevante, esse número se torna confortável quando se olha o conjunto. A Raia paga dividendos anuais, mas ela não é uma pagadora como as empresas de utilities e commodities.
A ação da Raia é para que perfil de investidor?
A ação da Raia pode mesclar dois tipos de investidores. O primeiro tem um perfil conservador. Esse investidor possui uma visão de longo prazo e gosta de empresas líderes já consolidadas que ainda conseguem entregar crescimento. O segundo quer algum nível de crescimento, o que a Raia pode entregar em 2026 dadas as suas perspectivas, mas ao mesmo tempo não quer se expor às empresas menores que ainda estão se provando no mercado, como o caso das concorrentes da Raia.
Como você está vendo as perspectivas da Raia para 2026?
Existem alguns fatores no radar, sendo que o mais comentado, e difícil de entender, pois ele tem pouco histórico, são as canetas emagrecedoras, o GLP1. Nós não sabemos exatamente a penetração dessas canetas nas vendas, mas as vendas da Raia cresceram pouco mais de 10% no 4T25.
Além disso, esse medicamento tem a questão da patente do princípio ativo, a semaglutida, o mesmo do Ozempic, que vai cair agora em março. Isso é relevante para o setor, pois quando uma patente cai, há uma queda de preços que pode gerar um volume maior de vendas, já que o medicamento fica mais acessível. No curto prazo, isso pode trazer uma pressão sobre a margem bruta, mas no longo prazo, com a estabilidade da oferta e da demanda, isso deve ser compensado.
Outra questão é a pressão mais agressiva no varejo farmacêutico. Como a Raia não tem mais a Forbio, nós podemos esperar, de certa forma, números mais limpos, já que a Forbio pressionava a margem. Por fim, nós temos as vendas do segmento de beleza, onde a Raia tende a investir depois de ter deixado esse segmento de lado em parte de 2025. Por exemplo, a Raia já foi mais intensa na última Black Friday.
Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?
Existem alguns pontos importantes para serem monitorados. O primeiro é o capital de giro, principalmente por causa de medicamentos com alta demanda e baixa oferta. O segundo é a expansão, já que a Raia renovou o guidance de 2025 para 2026. Por fim, por mais que a dinâmica de geração de caixa da Raia seja bastante resiliente, é sempre bom monitorar qualquer desvio.

















