Real

Enquanto no Brasil o dólar caminha para R$ 3, nos EUA a bolsa virtual Nasdaq despenca rumo aos 1 mil pontos (eram mais de 5 mil há dois anos). Muitos analistas norte-americanos têm más notícias para seus clientes; eles acham que a relação preço/lucro da maioria das empresas ainda reflete os tempos da “exuberância irracional”. Trocando em miúdos: o chão ainda está longe. Um setor, porém, tem registrado desempenho surpreendente entre as quedas generalizadas: o de prata e ouro, cujo valor de mercado saltou 194% entre maio de 2001 e maio deste ano.

Implosão do império
A quebra em seqüência de grandes conglomerados nos Estados Unidos revela que, longe de já estar se recuperando da recessão em que se encontra desde março do ano passado, os Estados Unidos marcham para uma crise provavelmente ainda mais séria do que a Grande Depressão de 1929. Em entrevista à Folha de S.Paulo esta semana, o historiador norte-americano Robert Brenner, da Universidade da Califórnia, afirma que a principal causa da queda do dólar em relação ao euro é o brutal refluxo dos investimentos externos nos Estados Unidos.
Segundo Brenner, ano passado os investimentos estrangeiros diretos nos EUA desabaram cerca de 50% em comparação com 2000. No mesmo período, as compras de ações norte-americanas pelo resto do mundo recuaram 30%. No primeiro trimestre de 2002, essa queda já chega a 45% em comparação com o mesmo período de 2001. “Isso não apenas ajudou a derrubar o mercado, mas também reduziu fortemente o valor do dólar”, destaca Brenner.

Perigos da dependência
A queda do dólar pega a administração Bush em momento particularmente frágil, com o presidente e o vice-presidente do país acuados por denúncias de fraudes semelhantes às que levaram à quebra da Enron e da WorldCom. O dilema para Bush é que, se a queda da moeda continua, aumenta a desconfiança sobre a recuperação da economia do país. Se eleva os juros, para puxar a cotação do dólar e tentar atrair novamente os capitais fugidios, corre o risco de transformar a recessão em depressão. Em resumo, o império se encontra numa encruzilhada e prestes a enfrentar dias ainda mais difíceis do que os trilhados no último ano e meio. Nesse hora, o verdadeiro risco Brasil é atrelar o destino do país ao da metrópole, abdicando de qualquer projeto autônomo.

Parando
O BicBanco inaugurou a série de revisões das previsões feitas para o desempenho da economia no ano. As alterações mais importantes são em relação ao PIB – crescimento de 1,5%, contra projeção de 2%, por conta do péssimo desempenho no segundo trimestre e das perspectivas ruins para o terceiro – e à dívida pública – o banco esperava saldo ao final do ano de 54,5% do PIB, mas reajustou para 58%, em razão da alta do dólar e da demora em se mexer na taxa básica de juros. A projeção é feita com base em respostas fornecidas por diversas empresas. As revisões corroboram a tese de que a maioria dos agentes econômicos ainda se pauta pelo dia-a-dia da conjuntura, sendo surpreendido por fatos que não são tão imprevisíveis assim.
O BicBanco, que costuma fazer uma análise mais apurada que congêneres, projetava um dólar médio, este ano, a R$ 2,40; agora, mudou a previsão para R$ 2,65, com fechamento, em 31 de dezembro, a R$ 2,85. Mas mantém o otimismo em relação ao ritmo dos juros: projeta queda para 17% no último dia de 2002.
Triste saber que todos os cortes que o governo vem impondo para elevar o superávit primário – dos inicialmente previstos 3,5% do PIB para 3,75% – serão esterilizados na dívida pública. O sacrifício, que reduz ainda mais o ritmo da economia, só servirá para fazer a festa dos rentistas.

Haja bônus
As “readequações de campanha com os recursos disponíveis” fizeram quatro baixas na equipe do candidato do PSB à sucessão presidencial, Anthony Garotinho. O primeiro a sair foi o jornalista Paulo Fona, responsável pela assessoria de imprensa. Em seguida, saíram os publicitários Elysio Pires, Marcelo Brandão e Nei Azambuja, responsáveis por programas e inserções na televisão. Carlos Rayel, coordenador de comunicação de Garotinho, disse que “eles pretendiam receber um valor que não poderíamos pagar. Todo lugar tem isso. Uns aceitam, outros não”. Garotinho adotou uma postura ofensiva ao comentar o minguado caixa de campanha: “Eu tenho dito que a nossa campanha não conta com o dinheiro dos banqueiros.”

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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