Reciclagem automotiva

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Os anúncios de investimentos feitos no Brasil nos últimos meses – desde março, oito montadoras falam em colocar R$ 15 bilhões até 2022 – são uma prova da confiança no Brasil, a partir de uma política econômica ortodoxa e responsável. Só que não. Na realidade, este tipo de anúncio é recorrente na indústria automobilística e é utilizado pelo governante do dia para mostrar que “agora vai!”. Foi assim nos últimos anos, inclusive em 2016, em pleno processo de impeachment contra a presidente Dilma.

Em 2013, a Honda anunciou R$ 1 bilhão para a fábrica no interior de São Paulo; a Mercedes – a mesma que divulgou que investirá R$ 2,4 bilhões de 2018 a 2022 – garantiu também R$ 1 bilhão, em 2014 e 2015, para fábricas de caminhões e ônibus em São Bernardo e Juiz de Fora, valor que se somava aos R$ 500 milhões para fábrica de automóveis de luxo em SP. Ao todo, as principais fabricantes de caminhões e ônibus (Mercedes, MAN, Iveco, Scania, Ford e Volvo) falaram em planos de investir aproximadamente R$ 5 bilhões até 2016. No final do ano, um jornal contabilizava que a região Sudeste, responsável por 70% da produção nacional de veículos, num período de seis anos (2010 a 2016), teria mais de R$ 30 bilhões em investimentos das montadoras de veículos, a maior parte em novas fábricas ou na ampliação de instalações atuais.

Os anúncios continuaram nos anos seguintes. A GM divulgou R$ 6,5 bilhões até 2018, valor repetido na contabilidade de 2017; em uma década, a montadora norte-americana fez um investimento médio de R$ 1 bilhão por ano no Brasil. A Fiat falou em R$ 15 bilhões no período 2013–2016. De 2012 a 2018, a indústria automobilística contabilizava investimentos programados que, somados, atingiriam R$ 75,8 bilhões. No final de 2015, a Mercedes já falava em R$ 1,7 bilhão para caminhões e ônibus e R$ 500 milhões para automóveis; somados, são R$ 2,2 bilhões, número próximo do anunciado segunda-feira. Já em 2016, a Renault anunciou R$ 740 milhões, quantia repetida este ano, assim como o R$ 1 bilhão da Toyota e outro tanto da MAN.

 

Eldorado

Qual o motivo para as montadoras seguirem investindo (ou pelo menos anunciando) no Brasil, após a forte queda nas vendas e na produção em 2015 e 2016? O discurso oficial é de confiança no país, apesar dos percalços políticos e econômicos atuais.

Raphael Galante, da consultoria automotiva Oikonomia, esboçou, ainda em 2013, um quadro que justifica tanta confiança. Ele analisou a lucratividade média da Ford em 30 trimestres. Chegou aos seguintes números: na América do Norte, o maior mercado, US$ 450 por automóvel vendido; na Europa, prejuízo de US$ 3,22; na Ásia, perda de US$ 5 por carro.

Na América do Sul (70% das vendas no Brasil), a lucratividade foi de US$ 1.664,73 – índice 471% maior que a média da marca e 271% acima da média na América do Norte.

Como exemplo, se a Hyundai alcançou a mesma lucratividade na fábrica inaugurada em outubro de 2012 em Piracicaba (SP), recuperou os US$ 600 milhões investidos em janeiro de 2015, apenas 27 meses depois.

 

Perdas externas

Os cálculos do consultor ajudam a explicar por que os automóveis são tão caros no Brasil – não, não são apenas os elevados impostos. Algumas práticas adotadas pelas montadoras ajudam a inflar os preços e a levar lucros para as matrizes de forma disfarçada. Importações de peças e componentes a preços muito acima dos praticados em seus países; transferência de máquinas e moldes obsoletos por valores inflacionados; pagamento de royalties e direitos de patentes.

Uma fórmula que se repete desde que a indústria automobilística estrangeira foi estimulada a se instalar aqui, ainda com JK.

 

Montanha-russa

Em abril, o FMI projetou crescimento do PIB brasileiro de 0,2% neste ano; a previsão foi revisada para 0,7% nesta terça-feira, ou 3,5 vezes mais.

 

Rápidas

No dia 18, a advogada Daniela Colla, do escritório Di Blasi, Parente & Associados, fará palestra sobre Music Business no evento Fórum Profissão Entretenimento, no Teatro Escola Sesc, em Jacarepaguá (RJ). Inscrições: http://iatec.com.br/forum/programacao-inscricoes/ *** Palhaços, malabaristas e apresentações circenses estarão no Dia das Crianças no Américas Shopping (RJ), a partir das 14h *** A exposição de fotografias Rio, Minha Paixão será aberta ao público dia 24 e ficará até 16 de novembro em Laranjeiras (RJ), de segunda a sexta, das 10h às 16h. As visitas devem ser agendadas pelo e-mail [email protected]

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