Reconstruir um mundo novo

Por Edoardo Pacelli.

(deletar) Últimos Artigos (sem foto), Opinião / 16:00 - 25 de set de 2020

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Em artigo recente, o sociólogo italiano Francesco Alberoni insinuou a necessidade de reconstruir um mundo novo, alegando o desaparecimento da ideia, segundo a qual os homens têm uma tarefa a cumprir e recebem uma recompensa se o fizerem. Com efeito, afirma Alberoni, as religiões previram que, após o fim do mundo, chegaríamos ao nosso verdadeiro fim: a nova Jerusalém. Mais tarde, porém, mesmo que a esperança religiosa escatológica tivesse caído, durante, pelo menos, um século, os homens continuaram a sonhar com um futuro de perfeição, valendo a pena desgastar-se, lutando... A história foi uma longa marcha rumo à felicidade. Os positivistas eram todos, involuntariamente, messiânicos. E assim foram todos os seguidores das grandes ideologias totalitárias do século XX: comunismo, fascismo e nazismo.

Uma formulação da teoria da relatividade e das viagens espaciais, entretanto, fez com que essa imagem ilusória de nosso futuro desaparecesse. As conquistas espaciais nos mostraram que somente os planetas desertos são acessíveis ao homem. Até o início da era espacial, o homem imaginava que um dia decolaria da Terra, a bordo de uma nave espacial, para poder colonizar outros planetas, repetindo os mesmos passos de antigos navegadores visando descobrir novas terras, em nosso planeta.

Da viagem de Verne à Lua ao império galáctico de Asimov, toda a literatura de ficção científica foi baseada em um espaço livre, medido em parsecs (unidade de distância usada em trabalhos científicos de astronomia, para representar distâncias estelares), que podia ser percorrido em qualquer direção. Mas, depois de Einstein, percebemos que o tempo necessário para encontrar estrelas com satélites habitáveis seria da ordem de milhares de anos. E, após a globalização, tornamo-nos cientes de que estamos presos neste pequeno planeta e que não haverá arcanjos salvadores ou novos Colombos para nos brindar com novos mundos albergando felicidade.

Surge, assim, um sentimento de desconfiança, de impotência e de tristeza, visto que percebemos que não podemos alargar os nossos horizontes. Nós nos limitamos, no máximo, a alcançar novos objetivos técnico-científicos, conquistando e aprimorando nossas relações políticas, econômicas e sociais, através, por exemplo, de novas bandas largas, para melhorar as redes web. Pretendemos recorrer a novos níveis de atenção à saúde, aprovar legislações ecológicas, que nos permitam salvar a natureza, de forma mais eficaz, leis que sejam capazes de reduzir as desigualdades e o ódio.

Tudo isso nos leva a ver como é difícil, senão impossível, imaginar, muito menos realizar, a utopia de um novo mundo livre e, sobretudo, feliz, fruto de um processo de redenção de situações de sofrimento. Agora, temos que fazer um esforço, porque tentar reconstruir um novo mundo é uma tarefa majestosa e extremamente difícil.

Francesco Alberoni nasceu em 1929, em Piacenza, Itália. Licenciado em Medicina pela Universidade de Pavia, estudou psicanálise e estatística, tendo desenvolvido investigação no campo das probabilidades. Tornou-se professor de sociologia em 1964, primeiramente em Milão, a que se seguiu Trento, Catania, Lausanne e novamente Milão. Desenvolveu uma teoria dos movimentos coletivos, patente nos seus livros Estado Nascente (1968) e Movimento e Instituição (1977). Alberoni explica o processo histórico como o resultado de dois tipos de forças: por um lado, as utilitárias e econômicas, que transformam e inovam mas não criam solidariedade social; e, por outro lado, as representadas pelos movimentos, que só podem surgir da solidariedade social.

Alberoni adquiriu renome mundial após a publicação de Enamoramento e Amor (1979), o seu livro mais traduzido e mais vendido. Foi como estudioso do sentimento amoroso que Alberoni encontrou popularidade. Ao dedicar-se a um tema comum até então desprezado pela sociologia, Alberoni levou esta ciência até junto dos leigos, fato pelo qual é louvado por uns e criticado por outros.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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