Refém

O prêmio de 10,96% pago, ontem, pela Argentina para leiloar US$ 350 milhões em letras do Tesouro mostra que, ao contrário das fantasias fundamentalistas, a nomeação de Domingo Cavallo não resolveu o grave problema do estrangulamento externo do país. Além de bancar juros 4,1 pontos percentuais acima dos 6,86% que pagara pouco menos de um mês atrás, em 20 de fevereiro, o país conseguiu colocar papéis de apenas 91 dias. Ou seja, a decantada credibilidade de Cavallo não supera os três meses na avaliação dos financiadores do país.
O leilão deve dar algum fôlego ao combalido Governo De La Rúa, ajudando no pagamento do papagaio externo de US$ 400 milhões que vence na próxima sexta-feira. O preço pago e a insistência na manutenção do câmbio engessado, no entanto, revelam que a moratória é cada vez mais uma realidade para a Argentina e que pode ser deflagrada a qualquer momento. Basta que investidores mais tementes ao risco do país resolvam antecipar a realização de seus lucros.

Reincidente
Se um Cavallo já levou a Argentina à breca, imagine aonde pode chegar um SuperCavallo.

Álibi alienígena
Na sua teoria das pulsões, Freud ensinou-nos como, na luta dos contrários, uma negação pode ser a outra face de uma afirmação. Num governo que tem na projeção sobre seus adversários de seus desejos e fraquezas seu principal ponto de decodificação, não é difícil identificar na histeria com que se lança contra a CPI da Corrupção uma poderosa e irresistível justificativa para a criação da comissão.
O argumento do Planalto de que o requerimento da criação da CPI tem casos demais de corrupção a apurar equivale à típica razão autojustificável para o início imediato das investigações no Congresso. Já a alegação de que a instalação da comissão seria lida pelo mercado internacional como sinal de que o país “vive um mar de lama” tem duas implicações que se complementam. Primeiramente, trata-se de contundente denúncia sobre o grau de submissão a decisões externas que o modelo econômico dependente impôs ao país. E, para além disso, trata-se de álibi não reconhecido pela Constituição brasileira para deter investigações sobre transações obscuras e suspeitas perpetradas em território nacional.

Engessamento
Ao defender a independência do Banco Central, em entrevista ao programa Roda Viva, o presidente da Câmara dos Deputados, o tucano Aécio Neves, argumentou que Armínio Fraga seria “uma das raras unanimidades do país”. Como Fraga é um dos principais ícones da política econômica que sujeita o país a crises endêmicas, Aécio deveria ser mais explícito no seu autoritarismo de tentar impedir que o eleitorado opte por uma política alternativa à da aventura tucana.

Apoio virtual
Se a bancada do Partido Liberal decidir por não apoiar o pedido de CPI da Corrupção estará caracterizando propaganda eleitoral enganosa. Nos anúncios que está veiculando nas rádios, o PL garante que vai apoiar a CPI.

Maus modos
Do presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Carlos Delben, sobre a decisão do ministro Domingos Cavallo de reduzir a zero, também para países fora do Mercosul, a alíquota de importação de máquinas e equipamentos: “O Cavallo deu um coice no Brasil.” A Abimaq estima que o prejuízo das empresas brasileiras com a medida, encampada pela equipe econômica tucana, pode chegar a US$ 400 milhões.

Reação
O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Universidade do Brasil (UFRJ) está novamente em pé de guerra com o reitor, José Vilhena. A briga, que estava em banho-maria nos últimos meses, se intensificou com a decisão do reitor de não mais convocar o Conselho Universitário. Vilhena teria inclusive declarado, segundo os membros do órgão, que assim agia por que “o conselho estava ilegal”. Hoje os decanos dos diversos centros que compõem a universidade se reúnem no campus da Praia Vermelha para discutir os problemas e traçar caminhos para salvar a instituição. Os decanos temem também que as decanias sejam extintas. A reunião será às 17h, no Salão Pedro Calmon.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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