Repasse

A terceirização já está chegando a áreas específicas de atuação governamental. Em Pernambuco foi enviado à Assembléia Legislativa um projeto que tem por objetivo fazer com que o pagamento do imposto do Simples (recolhido por pequenas e médias empresas) seja feito por intermédio das contas de energia da Companhia de Eletricidade de Pernambuco (Celpe). As entidades representativas dos fiscais locais advertem que, caso algum usuário da Celpe deixe de pagar a sua conta, por não concordar com esta forma de cobrança, poderá ter o fornecimento de energia cortado. Há mais: além de não haver garantia total de que os repasses para os cofres públicos serão feitos nos prazos devidos, a ex-estatal terá o direito de receber taxa de cobrança, como fazem os bancos.

Bomba relógio
Para se ter uma noção da situação a que foram levadas as contas de estados e municípios pela política de juros astronômicos praticada pelo Banco Central, basta lembrar que, se a Prefeitura de São Paulo exercesse a opção de desembolsar de uma única vez R$ 3 bilhões para abater a dívida do município com a União, gastaria, num único mês, quase toda a soma do orçamento anual previsto para Saúde e Educação ano que vem. O projeto de Lei Orçamentária  para 2003 do maior município do país prevê alocação de R$ 1,8 bilhão para Educação e R$ 1,3 bilhão para Saúde, apenas R$ 300 milhões a menos do que a prefeita Marta Suplicy esterilizaria com o pagamento à União este mês.
A quitação antecipada de apenas um mês da dívida com a União representa ainda pouco menos de um terço de todo o Orçamento da Prefeitura, de R$ 10 bilhões, para 2003. Não é preciso ser um especialista em administração pública para concluir que a continuidade dessa situação é insustentável para São Paulo, bem como para os demais municípios e estados submetidos ao acordo imposto pela União.

Herança de Malan
Com a inflação deste ano se aproximando velozmente dos dois dígitos, a equipe econômica comandada por Pedro Malan mostra, pelo segundo ano consecutivo, que a tal meta de inflação é mais um dogma ideológico que um fundamento econômico irremovível. A espiral inflacionária deixada por Malan, além disso, engendra uma segunda herança em forma de bomba relógio para Lula. Com a inflação ascendente será inevitável o novo governo conceder algum tipo de concessão salarial, tanto para os trabalhadores do setor público, quanto do privado, se não quiser aprofundar a recessão e gerar frustrações de conseqüências imprevisíveis.

Herança de Malan II
Para os que alegam que reposição salarial é a personificação do germe do descontrole da inflação, aconselha-se dar uma olhada nos últimos aumentos das tarifas de energia elétrica, com percentuais próximos de 20%. Para manter coerência com a exorcização do homus indexatus capitaneada pelo ministro Pedro Malan, os defensores da contração salarial vão ter de defender a revogação completa da vida nacional de qualquer forma de indexação, o que, segundo cálculos do professor Dércio Munhoz, da UnB, hoje beneficia cerca de 60% dos preços da economia. Noves fora, por pressuposto, os salários.

Linha gelada
Coca-Cola bem gelada poderá ser encontrada a partir de hoje na Central do Brasil, principal terminal de trens do Rio de Janeiro. A marca do refrigerante estará estampada no trem com ar condicionado (apelidado de “geladão”) que a SuperVia coloca oficialmente em circulação às 11h13, com destino a Deodoro. Na viagem de inauguração, para passageiros e convidados – a socialite emergente Vera Loyola e o deputado estadual e senador eleito Sérgio Cabral Filho já confirmaram presença -, o refrigerante será servido gratuitamente. Para ajudar na animação, os compositores Marquinhos de Oswaldo Cruz, Monarco da Portela, Xangô e outros sambistas vão tocar músicas como Vai Vadiar; é uma prévia do tradicional Trem do Samba, que sairá no próximo dia 2, Dia Nacional do Samba.

Replay, não!
Apesar da disparada da inflação nas últimas semanas, esta coluna assegura que Lula não vai chamar Maílson da Nóbrega para o Ministério da Fazenda. Recordista nacional em inflação (84% em março de 1990), Maílson hoje é um dos principais oráculos do mercado financeiro.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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