Retomando a crítica da dependência

Por Ranulfo Vidigal.

Opinião / 16:01 - 10 de ago de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Lembro bem de minha proveitosa convivência com uma pessoa extremamente afável, fala mansa e visão esperançosa representada pelo meu colega de Conselho Editorial deste Monitor Mercantil, o intelectual mineiro Theotônio dos Santos, que nos deixou há pouco mais de dois anos. O grande pensador conviveu com o poeta Pablo Neruda e foi contemporâneo de Orlando Caputo e Vânia Bambirra. Também escreveu obras memoráveis explicativas sobre o caráter dependente e rentístico do capitalismo tupiniquim, como Imperialismo, Dependência e Relações Econômicas Internacionais.

O pensador identificava com precisão que o processo de concentração de capital sufoca as pequenas e médias empresas, em proveito das empresas-gigante. Ressalte-se, no entanto, que mesmo um poderosíssimo monopólio privado enfrenta dificuldades praticamente intransponíveis para realizar investimentos vultosos e arriscados como aqueles que a vida moderna e a competição internacional exigem.

Daí que, como observamos, no tempo presente, o Estado é forçado a subvencionar a pesquisa científica imprescindível à renovação tecnológica, é levado a financiar a aquisição dos meios materiais de produção por parte dos grandes capitalistas. Ou salvá-los da bancarrota quando enfrentam uma crise aguda como a atual.

Vivemos na atualidade uma profunda crise econômica que, de maneira mediada, afeta a totalidade da vida social. Todas as esferas sociais, das mais amplas ao complexo de cada individualidade em particular neste mundo, encontram-se num estado de instabilidade, insegurança e de certa perturbação.

Há em larga medida uma sensação de que as pessoas não estão bem, que caminham dentro de um imenso vazio e solidão, entre uma multidão desorientada e desconectada. Sentimos que vivemos em uma totalidade social que poderia superar toda espécie de desigualdade, dado o alto desenvolvimento das forças produtivas; no entanto, assistimos em todos os quadrantes do mundo a um aumento avassalador da miséria, da exploração e de várias formas de opressão.

Os jovens, especificamente, olham com receio seu futuro, pois a instabilidade e a insegurança tornam-se a tônica de seu cotidiano. O desemprego, o emprego temporário ou precário, a destruição da natureza em vários níveis, a violência generalizada, o consumismo desregrado e sem sentido, enfim, a ausência de um significado elevadamente humano e genuíno por que lutar lança a juventude numa apatia e num isolamento perturbadores.

Nos seus trabalhos coletivos, Theotônio dos Santos sempre privilegiou a incorporação de jovens acadêmicos, de modo que sob sua liderança muitos se transformaram em estudos críticos do capitalismo. Fator que será crucial na superação de nosso impasse atual e a dependência cultural e tecnológica que nos sufoca.

Ranulfo Vidigal

Economista.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor