Retratos do Chile: liberalismo para poucos

O Chile que encontrei era mais pobre do que Cuba e a Venezuela hoje, e os ‘Chicago boys’ consertaram o país. Hoje, o Chile é como a Suíça”, exagera o ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista ao jornal britânico Financial Times. A publicação anotou que ele desconsiderava os custos sociais como o desemprego de 21% que o país registrava em 1983 (a ditadura Pinochet tomou o poder dez anos antes). “Isso é asneira”, ele diz. “O desemprego já estava lá. Mas estava escondido dentro de uma economia destruída”. “É uma opinião contenciosa”, registra o FT.

Bem, se até a publicação ponta de lança do neoliberalismo questiona Guedes, a coluna se permite examinar – confessa que não é a primeira vez – o “sucesso” chileno. Lá, a taxa alfabetização (pessoas de 15 anos ou mais de idade) é de 96,6%. Superior à do Brasil (92,6%), mas inferior à do Uruguai (98,4%).

Os gastos públicos com educação no Chile equivalem a 4,1% do PIB, e com saúde, a 7,7% do PIB. O Brasil aplica mais: 5,8 % em educação e 9,7 % em saúde. O investimento em P&D no Chile é de apenas 0,36% do PIB, muito inferior ao brasileiro (1,15% do PIB, percentual já considerado insuficiente). Isso se reflete na economia, que continua, 45 anos após o trabalho dos “Chicago boys”, dependente do cobre.

Em 2017, o minério representou 48% da balança de exportação chilena. Os demais produtos exportados também são primários ou de baixa complexidade. Dessa forma, o Chile, 42ª maior economia de exportação no mundo, é apenas a 61ª mais complexa, de acordo com o Índice de Complexidade Econômico (ICE) do Observatory of Economic Complexity, ligado ao MIT.

Mais interessante é que o liberalismo chileno não abriu mão da Codelco, estatal de mineração de cobre. Nem da intervenção do Estado. No artigo “O desempenho exportador do Chile: um debate em andamento” (Revista USP, 2007), os professores Luciano Mussa e Carlos Eduardo Carvalho registravam o apoio persistente e diversificado do setor público às exportações, que “desmente a visão simplificadora do Chile como exemplo de sucesso econômico devido à ausência de intervenção do setor público na economia”.

A questão é: em benefício de quem? “Entre os agentes mais beneficiados pelas ações do Estado, destacam-se os grandes grupos econômicos, o capital estrangeiro e as grandes e médias empresas”, destacam Mussa e Carvalho.

 

Alerta

Chama a atenção que Paulo Guedes considere usual que, dez anos após os “Chicago boys” terem assumido o comando da economia chilena, em 1983 o desemprego se encontrava em 21%.

 

Leão surpresa

Bill e Melinda Gates distribuíram sua mensagem anual, “Things We Didn’t See Coming”, em que listam nove acontecimentos que os surpreenderam, para o bem ou para o mal, nas últimas duas décadas. Surpresa seria o casal receber a visita do IRS, a Receita Federal norte-americana. O resultado para a redução da pobreza no mundo seria muito maior do que as ações empreendidas pela fundação que comandam.

 

Força do coco

A Copra, indústria de alimentos em Maceió, completa 21 anos como líder no mercado brasileiro de óleo de coco. A empresa incentiva as pesquisas nacionais sobre o produto, estrela da dieta dos últimos anos.

 

Vai ter salário?

Para avaliar melhor a “carteira de trabalho verde e amarela”, vale olhar o vizinho: no Chile, o salário mínimo não é universal. Para menores de 18 anos e maiores de 65 anos, o valor cai 50%. Estima-se que mais da metade dos trabalhadores chilenos não recebam o mínimo legal.

 

Rápidas

O Lide reunirá nesta quinta-feira especialistas em tecnologia, empresários e autoridades públicas no Next Smart Cities, evento que debaterá soluções para as cidades do futuro e que será realizado das 8h às 12h, no BTG Pactual, (Av. Brigadeiro Faria Lima, 3.477, 15º andar, na capital paulista) *** A FGV Ebape realiza nesta quinta-feira, no Rio, o evento “As Competências para o Século XXI”, com a professora chilena Susana Claro, os pesquisadores Daniel Santos, Ricardo Primi e Tássia Cruz, e Claudia Costin, diretora do Ceipe *** No próximo final de semana, o Caxias Shopping recebe a campanha de adoção e vacinação de animais do Projeto Busucão (sábado) e a feira de produtos sem agrotóxicos (domingo) *** A Confederação Nacional de Municípios (CNM) encontra deputados e senadores na manhã desta quarta-feira *** A ACRJ divulga o Seminário Possibilidades do Agronegócio no Estado do RJ, dia 20, às 14h, no Auditório da SNA (Av. General Justo, 171, 2º andar, Centro)

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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