Revoga, Haddad!

Apegado ao novo modelo petista de defensor da lei e da ordem e do temor reverencial ao “mercado”, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), encontra-se numa saia justa. Sem entender que a revogação do aumento das passagens não passa por explicações tecnocráticas, ele adia a única decisão a ser tomada. Deveria entender que, para qualquer político, pior do que mudar de opinião sob pressão, é ser obrigado a fazê-lo sob humilhação.

Os incendiários
Não é apenas Narciso que acha feio o que não é espelho. Por isso, é natural que todos os que têm sua própria agenda para o país tenham sido pegos de surpresa pela força e pela dinâmica adquirida por um movimento que começou contra o aumento do preço das passagens em São Paulo, foi vitaminado pela repressão da PM brucutu do governador Geraldo Alckmin e se espraiou nacionalmente na esteira da generosa solidariedade dos jovens às vítimas de Alckmin e pela irrupção de uma vontade latente de protestar de quem não se reconhece na narrativa panglossiana da mídia conservadora.
No entanto, o estranhamento bateu mais forte nos demofóbicos crônicos. Nesses, como tucanos e imprensa conservadora, o instinto de atacar e desqualificar qualquer um que ouse subverter a agenda que naturaliza uma política econômica rentista e anticrescimento faz parte do DNA, como do escorpião que atacou o companheiro de floresta que lhe serviu de carona ao atravessar um rio. A esmagadora e criativa reação da garotada via internet, porém, atropelou esse discurso anacrônico, confinando-o a aspectos marginais na nova abordagem do noticiário dos mesmos veículos, que, até a véspera, demonizavam os manifestantes.
Anacronismo, porém, não significa aposentadoria. E já os mesmos que não escondiam sua hidrofobia ao verem jovens tomarem as ruas em defesa de seus interesses buscam se apropriar e ressignificar a luta dos manifestantes. Fiéis ao discurso monocórdio e caudatários dos rentistas, tentam associar e limitar os protestos à suposta perda do controle da inflação, implícito nessa análise interessada a defesa do aprofundamento da escalada dos juros, estimulada pela tibieza da presidente Dilma.
Ou seja, em resposta aos que reclamam do preço do transporte que corrói seu orçamento, pregam mais desemprego – equivalente a renda zero – e aumento do exército industrial de reserva. Ironicamente, ao procederem assim, os que só concebem protestos como sinônimos de baderna querem apagar o incêndio com gasolina.

Quem sabe faz a hora
Esta coluna sugere um resumo das principais reivindicações do movimento democrático que tomou as ruas do país, numa contribuição para que as conquistas não sejam diluídas pelas vagas promessas das autoridades e/ou dos “novos amigos” do movimento:
1) Revogação dos aumentos das passagens de ônibus; realização de auditoria nas contas das empresas, com supervisão dos movimentos sociais e das Conselhos de Contabilidade e Economia; prioridade para o transporte coletivo.
2) Auditoria, nos mesmos moldes, nas contas dos eventos esportivos (Copas e Olimpíadas), especialmente na construção das “arenas”; compromisso da Justiça de acelerar o julgamento de quem for pego em superfaturamento pela auditoria (tanto do governo quanto da iniciativa privada); prioridade para obras de transporte e saneamento, dentro do “legado” dos jogos.
3) Derrubar os atos e leis ilegais que concedem à Fifa domínio sobre amplas áreas do Brasil.
4) Retirada da PEC 37, que limita a atuação do Ministério Público.
5) Aprovação da PEC com mais verbas para Saúde.
6) Redução radical das mordomias do setor público – Executivo, Legislativo e Judiciário – com fim dos carros oficiais; fixar férias em apenas 30 dias; 13 salários ou proventos por ano; redução dos vencimentos e ganhos acima do teto salarial.

Contra a austeridade
Ainda que involuntariamente, o presidente da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), Paulo Mello, deu mais razão aos manifestantes que protestam contra o – digamos – desleixado uso do dinheiro público. O deputado do PMDB estimou em R$ 2 milhões os gastos da Alerj com a recuperação dos estragos causados ao histórico prédio na segunda-feira. Fosse em uma empresa privada, dificilmente o gasto alcançaria um quarto desse valor. Mas a utilização criteriosa do dinheiro público não é uma das prioridades de alguns dos nossos políticos.
 

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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