Rio é vermelho

Criada domingo, no Facebook, por um estudante da PUC-RJ, a comunidade “Eu visto vermelho por orgulho aos bombeiros”, que pede aos seus integrantes para vestirem qualquer peça vermelha para apoiar o movimento da corporação, obteve, em apenas três horas, 5 mil adesões. Sexta-feira, até o meio da tarde, o número de apoiadores saltara para 50 mil.

A bolha de Cabral
Um dos clássicos da crítica ao excesso de midiatização da vida contemporâneo, O mundo de Truman acompanha a trajetória de Truman Burbank, um pacato vendedor de seguros, cuja vida desde o nascimento é transmitida ao vivo pela TV para os habitantes da pequena cidade de Seahaven. Todos, exceto o próprio personagem vivido por Jim Carey,  sabem que a vida de Burbank é um reality show comandado a partir de um gigantesco estúdio. Para que o show não seja abortado, Burbank precisa ser mantido numa bolha de proteção permanente, que filtra qualquer ameaça que o leve a desconfiar do simulacro de vida que protagoniza.
O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), por certo, não trocaria a fictícia Seahaven pelo circuito Elizabeth Garden. Além disso, acreditava contar com blindagem mais poderosa do que aquela destinada a manter a alienação de Burbank sobre o mundo ao seu redor. Cerzida por uma aliança com poderosa rede de comunicação que filtra e isola da sua figura quaisquer dos graves problemas da sua administração, a bolha que mantinha o governador a salvo de tudo e todos, porém, não resistiu ao movimento dos bombeiros. A implosão da bolha que protegia Cabral veio da combinação da força das ruas com as manifestações das redes sociais. E foi impulsionada pela arrogância, pela truculência e pelo alheamento que Cabral exibiu em relação às questões mais seminais do que estado que o elegeu para governar.
Espera-se que o rompimento da blindagem sirva para interromper o reality show em que esse tipo de jornalismo transformou o governo Cabral, no qual, aparentemente, até ele acredita. A vitória dos bombeiros e a derrota do governador também confirmam que, por mais força que tenham os meios de comunicação, essa não se sustenta quando se coloca em antagonismo à força dos fatos, como, aliás, já mostrara, entre outros eventos, a campanha das Diretas Já.

Engrenagem
Pouco antes de confirmada a saída do deputado Luiz Sérgio do Ministério das Relações Institucionais, o deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ) comentou: “Tenho por ele muito respeito. Mas a saída ou não é um julgamento do governo. Para o Congresso, o governo é muito ruim. O governo impõe ao Congresso, não conversa. Utiliza de medidas provisórias como instrumento de ação política em vez de procurar o diálogo. O governo é muito imperial em relação ao Congresso. E o Luiz Sérgio ou qualquer outro faz parte dessa engrenagem de prevalecer os interesses do Executivo.”

Falta esclarecer
Otávio Leite aproveitou para ressaltar a necessidade de o Congresso investigar o enriquecimento “meteórico” do ex-ministro da Casa Civil Antônio Palocci: “A crise não acabou com a saída de Palocci. Nós estamos diante de uma figura pública e notória que teve uma evolução patrimonial faraônica. Isso tem que ser esclarecido”, defendeu.

Nada a esclarecer
Já o senador Francisco Dornelles (PP), que faz parte da base governista, foi curto e grosso sobre o ex-ministro: “O caso Palocci já é um assunto encerrado.”

Blindagem não resistiu
O governador Sergio Cabral deve ter agradecido de joelhos a decisão da Justiça de soltar os bombeiros presos após a impensada ação do governador. Com o movimento de apoio à corporação crescendo – milhares de táxis e carros particulares colocaram fitas vermelhas nas antenas, artistas e jogadores de futebol manifestando apoio, e PMs engrossando o movimento – o fim da prisão foi um excelente negócio para Cabral.

DF repudia
Por iniciativa de deputados distritais de vários partidos, a Câmara Legislativa de Brasília aprovou na semana que finda moção de repúdio ao governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, por causa da ordem de invasão ao Quartel General do Corpo de Bombeiros pelo Bope. Também foi aprovada moção de apoio aos bombeiros fluminenses.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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