Risco que assombra os líderes mundiais: o fantasma das rebeliões

Por Fábio Reis Vianna.

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Em recente artigo publicado na revista americana Foreign Affairs, o professor de Relações Internacionais da Universidade do Texas Christorpher Layne defende a tese de que uma guerra hegemônica entre Estados Unidos e China, a se manter a escalada de tensões no ritmo atual, não é nada improvável.

Em seu artigo “The Return of Great-Power War”, o autor alega que a intensificação da competição geopolítica entre as duas potências, a despeito da visão predominante nos meios acadêmicos, teria sim um potencial explosivo se analisarmos o cenário à luz da história.

Neste sentido, a visão majoritária alega que a interdependência econômica entre os dois países seria um fator de redução de risco de um eventual conflito. Ocorre que – e como bem lembra o professor Layne – se voltarmos à história, constataríamos similitudes entre a situação atual e a que precedeu a Primeira Grande Guerra Mundial.

Segundo o professor, o atual momento das azedadas relações entre Estados Unidos e China muito lembraria, em termos geopolíticos, o que foi a conturbada relação entre Reino Unido e Alemanha nos anos anteriores àquela guerra.

Cabe sublinhar, inclusive, que em termos econômicos, assim como Estados Unidos e China, Reino Unido e Alemanha mantinham laços estreitíssimos, e havia, portanto, também uma interdependência entre as duas potências à época.

Algo, porém, que o autor talvez se equivoque, diz respeito à ideia de que a chamada ordem internacional liberal liderada pelos Estados Unidos seria um fator de contenção das pretensões chinesas e das chamadas “potências revisionistas” em desestabilizar a preservação da paz, mantida através das instituições multilaterais criadas no pós-segunda guerra.

Isso faria sentido no mundo idealizado das análises atlanticistas, onde a ascensão de novos atores nunca tivesse ocorrido, e a hegemonia unipolar americana fosse incontestável. Ocorre que a chamada ordem internacional liberal vem sendo sistematicamente desmontada pelos seus próprios criadores: os Estados Unidos da América.

Bem antes da eleição de Donald Trump – após os ataques de 11 setembro de 2001 – os Estados Unidos, ao instituírem a guerra ao terror, praticamente rasgaram a fantasia do cosmopolitismo liberal e assumiram-se como potência imperial, arrogando-se o direito de intervir em qualquer cenário e contra qualquer um que representasse uma suposta e genérica ameaça terrorista.

Pouco se fala sobre isso nos meios atlanticistas, mas a instabilidade global que esta atitude irresponsável gerou muito provavelmente foi uma das razões para que os tais atores revisionistas levassem a sério projetar-se autonomamente no sistema interestatal.

Em especial a Rússia, que – se vendo acossada com o alargamento da Otan em direção às suas bordas – a partir de 2008, na guerra da Geórgia, dá uma demonstração de poderio bélico há tempos não visto.

De fato, a concreta ascensão de potências emergentes é a razão pela qual – e diferentemente do que sustenta o professor Layne – os Estados Unidos estariam minando as instituições multilaterais que antes sustentavam.

Tal postura os tem levado a agir de maneira truculenta e imperial até contra seus tradicionais e históricos aliados europeus, o que denota o caráter disfuncional da administração Trump para o próprio sistema interno dos Estados Unidos, ou seja, a figura de Trump teria impulsionado uma radicalização dessa nova estratégia americana.

Porém, e paradoxalmente, ao mesmo tempo em que em termos retóricos Donald Trump tornava mais clara essa nova estratégia, na prática sua figura errática tornou-se um sério fator de desestabilização interno do sistema americano, e portanto, sua permanência passou a ser vista como uma ameaça para o establishment dos Estados Unidos.

Sendo assim, a eleição de Joe Biden serviria como um fator de recomposição do establishment diante de um hegemon enfraquecido e que perde cada vez mais influência global.

O momento é grave, e a ausência de resposta concreta quanto a uma vacina combinada ao surpreendente recrudescimento do vírus na Europa acendem o alerta sobre a profundidade da crise e o risco que assombra silenciosamente as mentes dos líderes mundiais: o fantasma das rebeliões.

Segundo o jornal italiano La Repubblica, “quem tem falado com o premier Giuseppe Conte o descreve impressionado com as imagens dos protestos de rua”. À medida que o vírus volta a avançar sobre a Itália, a popularidade do governo cai abruptamente.

Por questões históricas e geográficas, a Europa ainda é considerada a caixa de ressonância do mundo, e a insatisfação social no continente com as novas medidas de contenção ao vírus é visível entre trabalhadores e pequenos comerciantes, desesperados com o fantasma do desemprego e da bancarrota.

Tal situação ainda poderia acarretar um outro risco já presenciado ao longo da chamada primeira onda: o aumento da escalada militar.

Nos últimos tempos, um dos maiores pensadores brasileiros, o professor da UFRJ José Luís Fiori, vem defendendo a tese de que a potência hegemônica atual, ou seja, os Estados Unidos, ao se verem ameaçados pelas potências emergentes, teriam optado por destruir o sistema de Bretton Woods e partido para um vale tudo militarista contra seus rivais.

O que num primeiro momento poderia ser interpretado como uma demonstração de fraqueza, ou uma prova de que o hegemon estaria em declínio, na verdade, segundo Fiori, reforça a hipótese de que toda potência hegemônica tende a se expandir ininterruptamente para se manter na liderança do sistema, porém, quando ameaçada, se necessário, é capaz de destruir o sistema que ela mesma criou para se manter na frente.

Diante deste cenário, e como vem ocorrendo na Europa, muito provavelmente a pressão interna que a pandemia tem gerado na sociedade americana poderá desencadear por parte do novo governo democrata uma reação para fora; que, em vez de significar uma mera retórica agressiva – como vinha ocorrendo com Trump – poderá resultar em algum novo teatro de guerra, tanto no Oriente Médio, como também aqui ao lado, na Venezuela.

Uma coisa é certa: o complexo-industrial-militar está sedento por uma nova guerra para chamar de sua, e com os democratas de volta ao poder, tudo fica mais fácil.

Quanto mais demorada for uma solução para conter o vírus, mais a insatisfação social se alastrará em razão do colapso econômico gerado pela demora.

Como em outros momentos em que ocorreram impasses sistêmicos, não custa lembrarmos da escalada do conflito interestatal do início do século XX – que teve como protagonistas antagônicos Reino Unido e Alemanha – que logo se aprofundou em caos sistêmico generalizado, descambando em seguida em rebeliões populares.

Disputa hegemônica; mudanças tecnológicas bruscas; precarização do trabalho; insatisfação geral e difusa; a pandemia é o fósforo.

Fabio Reis Vianna

Escritor e analista geopolítico.

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