Riscos da falta de previsibilidade e planejamento da economia

A falta de previsibilidade e planejamento, com a ausência de uma visão de curto, médio e longo prazo, e as incertezas que rondam o atual cenário da política e da economia brasileira são as grandes causas da turbulência e da piora do ambiente macroeconômico do país, em um quadro de crescimento da inflação, alta taxa de câmbio e elevação da taxa de juros, gerando insegurança para as empresas e os investidores.

Essa visão é compartilhada pelos economistas Pedro Malan e Zeina Latif, que abriram o primeiro dia do evento Veirano NEXT, quando falaram sobre o momento atual e as perspectivas econômicas para o Brasil, com foco em perspectivas econômicas e oportunidades futuras.

Sobre o momento da economia brasileira, o ex-ministro da Fazenda avalia que quando há um período de turbulência como o atual, é natural que haja reflexo sob duas formas: curva de juros e a expectativa em relação à taxa de câmbio. “Mas cabe ao governo tentar reduzir essa taxa de incerteza e de riscos e, sem a adoção de medidas conflitantes, mostrar que tem um determinado rumo e uma visão de curto, médio e longo prazo”.

Para Malan, quando a oferta doméstica não corresponde na velocidade esperada, questões como o aumento da pressão inflacionária e o déficit do balanço de pagamento precisam ser resolvidos de forma mais contundente.

Já Zeina Latif critica o que considera uma postura eleitoral do atual governo em elevar os gastos públicos, por meio do Auxílio Emergencial, de olho na eleição presidencial de 2022. “Mas com a inflação em alta, não é acertado ter uma visão de curto prazo como houve em 2014 (ano em que a presidente Dilma Rousseff foi reeleita). A história mostra que os governantes que brincam com inflação ou não terminam o mandato ou não se reelegem. A população brasileira não tolera inflação alta, como acontece na Argentina, por exemplo”.

A consultora econômica avalia que é preciso criar um ambiente de negócios mais saudável e com regras do jogo mais estáveis. “Não podemos seguir com essa loucura de se mudar com freqüência e sem critério, cada hora com uma nova interpretação e uma grande insegurança. Estamos errando na condução da macroeconomia, e com isso não se pode brincar porque atrapalha as discussões de longo prazo para o país”, diz.

Educação, tecnologia e inovação

Tanto Malan quanto Zeina concordam sobre a importância do investimento em educação, tecnologia e inovação para o desenvolvimento do aís. “Nós fechamos os olhos para a realidade da educação brasileira. Nosso pensamento é de colocar o filho na escola privada e a pública é problema do governo, mas 35% dos jovens não conseguem terminar o ensino médio e metade de quem termina não tem conhecimento em matemática e é praticamente analfabeto funcional”, ressalta Zeina. Para a economista, a pandemia da Covid-19 acelerou a tendência do uso da tecnologia, mas existe uma grande parcela da população que não vai se encaixar nesse novo cenário. “Temos um exército de pessoas que vão continuar à margem do mercado de trabalho, e esse é um problema muito mais de gestão”.

A economista avalia que quanto mais energia e tempo se gasta falando nas questões que envolvem o cenário macroeconômico, menos se discute temas fundamentais como a educação, o que contribui para aprofundar um contexto de concentração de renda e atraso do crescimento econômico.

Malan cita como exemplo bem-sucedido o caminho de sucesso trilhado pelos Tigres Asiáticos (Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan), que investiram em três principais pontos: educação de qualidade, com a adoção de políticas públicas e valor para as famílias, inovação e tecnologia e integração com a economia mundial.

Zeina Latif destaca que as empresas com maior capacidade de se ajustar aos novos tempos e que conseguem investir em inovação tecnológica vão muito bem e conseguem buscar uma fatia de mercado das outras que tiveram que fechar as portas. “Áreas como as de TI e do agronegócio vão bem, mas tem outros setores ficando para trás”, diz. Além da capacidade de inovação, a economista aconselha que qualquer que seja o setor da economia que esteja uma empresa, é preciso ter muito zelo na gestão de caixa para não passar sufoco em períodos de contingências como, por exemplo, eventuais novas greves de caminhoneiros.

O Brasil – que na opinião de Zeina Latif chegou a acompanhar o resto do mundo nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e Lula – perdeu o rumo e está perdendo o seu potencial de crescimento, com uma baixa taxa de investimento em inovação.

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