Riscos da realização dos Jogos Olímpicos com circulação do coronavírus

Por Salmo Raskin e Camila Sacchelli.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio começaram com mais de 11 mil atletas depois de um atraso de um ano, a maior interrupção desde que a Olimpíada de Londres de 1944 foi cancelada durante a Segunda Guerra Mundial. Agora, os jogos estão acontecendo em meio a uma controvérsia global sobre a decisão de seguir em frente, devido aos perigos que a pandemia de covid-19 traz para os japoneses, atletas, delegações e jornalistas, inclusive para as populações de todos os países no retorno das equipes a seus lares.

O Japão desenvolveu rígidos protocolos para tentar minimizar os riscos de infecção pelo vírus, que se iniciam antes da ida ao Japão, quando todos devem fazer testes para covid-19 e ter resultados negativos. Na entrada no Japão, todos ficam cinco dias em isolamento, mesmo com testes de PCR negativos. Uma medida correta, pois uma pessoa pode ter um teste falso negativo no período de incubação do vírus.

As Olimpíadas não estão com público presente na grande maioria dos eventos. Apenas alguns jogos determinados, disputados fora de Tóquio, podem ter a presença de torcedores. Os vencedores colocarão suas próprias medalhas no pescoço. É a primeira vez na história que isso acontece.

Há muitos outros protocolos para os atletas, que estão sendo testados diariamente por meio de uma amostra de saliva coletada pela manhã em seus quartos. Quem testar positivo ficará em quarentena por 14 dias e, portanto, não competirá. Isso já aconteceu com vários atletas, entre eles um do remo holandês que já competia e não poderá mais seguir em frente na competição. Além dos testes diários, há inúmeros protocolos de distanciamento, aferição de temperatura, uso de máscaras e barreiras físicas para desestimular o contato físico. Tudo é registrado em um aplicativo, em especial o estado de saúde de cada pessoa.

Por outro lado, o campeonato em si abre chance para uma contaminação, visto que diversas modalidades têm o contato pessoal, ocorrem em ambientes fechados e não há distanciamento entre os participantes. Em situações como essas, não é possível cumprir as normas de prevenção, tais como evitar aglomerações e locais fechados.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a medida de sucesso nos jogos não é ter zero casos, mas sim identificar, isolar, rastrear e tratar os contaminados. De fato, mal os jogos começaram e já foram confirmados mais de 160 casos; certamente muitos mais acontecerão. E existem inúmeras limitações, por mais que as autoridades japonesas estejam tentando fazer seu melhor. A que está mais impactando é o risco de funcionários terceirizados se infectarem e infectarem outros, pois voltam para suas casas todos os dias e não são testados com a mesma frequência que os atletas. Profissionais da imprensa já não são testados com a mesma periodicidade.

Considerando que as Olimpíadas são um evento que reúne pessoas de diversos países, uma preocupação que já existia e que agora foi acentuada com a chegada da covid-19 foi o risco de contaminação por doenças que não existem em determinados países e que são endêmicas ou até epidêmicas em outros. Um exemplo disso, foi a propagação do sarampo na Copa do Mundo da Rússia, em 2018. À medida em que não reforçamos a importância de manter a população imune, dando destaque à cobertura vacinal, corremos o risco de ter o retorno de doenças mesmo em países que já a erradicaram.

Além disso, vale pontuar que, quando pensamos em eventos internacionais, temos que considerar os riscos de importação de doenças. O controle de fronteiras é de suma importância. É o que deveria ter acontecido em 2018 e é o que estamos vendo hoje, na tentativa de controlar a propagação do novo coronavírus.

Quanto tempo depois que a amostra de saliva é obtida, a pessoa recebe o resultado do teste e se isola? Com quantas pessoas ela entrou em contato neste período? E no dia anterior de positivar o exame, quantos contatos esta pessoa teve? Como todos os envolvidos poderão fazer o deslocamento de uma sede para outra sem ter contato com a população? E na hora de retornar aos seus países, no final da Olimpíada, todos permanecerão em seus respectivos países isolados por mais cinco dias após o último teste negativo, como fizeram na entrada no Japão? Ou alguns carregarão o vírus por aeroportos e aviões mundo a fora? Os integrantes da Delegação Brasileira estarão imunes a trazer para cá as variantes Alfa (inglesa), Beta (África do Sul) ou Delta (indiana)? Essas são apenas algumas das dúvidas.

A decisão de não tornar a vacinação obrigatória para quem vai aos jogos poderia ser repensada. Assim como na Copa América, as comissões dormem juntas, se alimentam juntas, compartilham o vestiário, é fundamental que, tendo uma vacina, a gente assegurasse que todos que estão ali tivessem tomado a vacina, mas agora é torcer para que as demais medidas que estejam tomando sejam suficientes.

A Olimpíada é um evento maravilhoso, cujo principal papel é aproximar representantes de todos os países do mundo, porém, Tóquio bate recordes diários de casos de Covid. Infelizmente, ainda não chegou a hora de o mundo se aproximar.

 

Salmo Raskin é professor do curso de Medicina da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR).

Camila Sacchelli é professora-adjunta da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), nos cursos de Ciências Biológicas, Fisioterapia e Nutrição.

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