Romênia e Moldávia: duas faces de uma mesma moeda?

Em alguns aspectos as duas produções se assemelham e, em outros, apresentam diferenças que poderiam até se complementar.

Após Hungria e Bulgária, um país que se destaca na produção de vinhos da Europa Oriental e que se encontra entre as duas nações é a Romênia. Com uma extensão territorial superior aos vizinhos, há videiras cultivadas em quase todos os cantos, desde grandes propriedades até pequenas parcelas em quintais.

Em território contiguo, há outro país com histórico vitivinícola, a leste da Romênia – a Moldávia, uma nação conturbada por vários conflitos, que compartimentaram seu território, ora anexado pela Rússia, ora pela Romênia, o que dificulta a sua autonomia e a afirmação de uma identidade própria em vários campos. Como, em certos aspectos, as características e vivências romenas e moldavas se confundem, trato das duas produções aqui.

A Romênia é um país que apresenta uma grande diversidade de paisagens, com significativas variações climáticas e topográficas, que favorecem distintos estilos de vinhos. Boa parte do país é, contudo, dominado pela altitude dos Cárpatos orientais e Alpes da Transilvânia, o que, associado a uma latitude mais alta (44º a 48º N), configura um perfil climático mais continental e favorável, a princípio, a cepas brancas e tintas de clima mais frio. Sua produção é forte quantitativamente (5º maior produtor da Europa e 13º mundial), embora parte dela ainda seja feita com variedades de uvas híbridas, de qualidade questionável. Há um grande consumo interno, e a Romênia vem experimentando, mais recentemente, a condição de exportador mundial.

Vinhos da Moldávia (foto de Míriam Aguiar)
Vinhos da Moldávia (foto de Míriam Aguiar)

Já a Moldávia, apesar de apresentar uma condição econômica mais sofrível e um território menor, tem uma área de vinhedos de vitis vinífera que chega a ser maior do que a da Hungria e da Bulgária e que não fica muito atrás da Romênia. Embora não tenha litoral, seu território está próximo do Mar Negro, que modera a continentalidade, lhe dando um ótimo perfil agrícola. Moldávia é um dos países mais pobres da Europa, que tem no vinho uma fonte de receita importante, mais voltados, entretanto, para o mercado externo, já que consumir vinhos finos é quase uma luxúria para a sua população, que depende desse mercado para sobreviver. Tendo sido parte da URSS, demorou a contar com investimentos ocidentais para promover reformas estruturais, como ocorreu com os demais países.

A Romênia já apresenta um sistema de denominação de origens razoavelmente avançado em relação aos vizinhos orientais, com cerca de 33 DOPs (regiões delimitadas com maior controle de qualidade) e 12 IGPs (mais flexível, indica perfis regionais de produção) aprovadas até 2019. Na Moldávia há apenas 2DOPs e 4 IGPs. Este tímido avanço tem muito mais a ver com aspectos políticos e econômicos do que com o potencial qualitativo da viticultura moldava.

Pelos dados acima, podemos identificar que, em alguns aspectos, as duas produções se assemelham e, em outros, apresentam diferenças que poderiam até se complementar. Algumas cepas nativas são importantes nos dois países, no entanto há mais ênfase para as suas produções na Romênia, que conta com um bom mercado interno, enquanto a Moldávia usa mais cepas internacionais (70% da produção), visando a exportação.

Uma das castas em comum é a nativa romena Feteasca Neagra, que faz vinhos de aromas intensos, taninos firmes e boa aptidão à madeira e ao envelhecimento. A Babeasca Neagra (chamada de Rara Neagra na Moldávia) faz um tinto mais leve, com taninos aveludados e boa acidez. Feteasca Alba é uma cepa branca nativa da Moldávia, provável mutação da Feteasca Neagra, que faz vinhos frescos, delicados, com aromas que ganham complexidade ao longo do tempo.

O grande ícone romeno é o vinho Cotnari, cuja produção se encontra no nordeste. Consagrado desde o século 15, trata-se de um vinho doce (de sobremesa), feito do corte de cepas brancas locais, com destaque para a Grasa de Cotnari. A estrela da Moldávia se chama Negro de Purcari, um blend tinto intenso, que normalmente inclui cepas nativas (Rara Neagra), caucasianas (Saperavi) e francesas internacionais (Cabernet Sauvignon, Merlot).

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Míriam Aguiar
Jornalista, educadora e especialista em vinhos

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