"Sabes tu, porventura, o que vale um dia? Conheces o preço de uma hora?"

Empresa Cidadã / 11:29 - 21 de ago de 2001

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(Francisco de Quevedo, 1580-1685) A cidadania empresarial é controvertida. Quando uma empresa pode ser considerada cidadã? O mercado permite a uma empresa passar impoluta pelas suas práticas? Deve-se discutir também a natureza dos bens que a empresa produz? O conceito de cidadania baseia-se na presunção do exercício de direitos e deveres e o de ética presume o exercício da cidadania no sentido do bem comum. Isso basta ou é exigida a perfeição até uma empresa ser considerada cidadã? Os interesses de uma organização ao escalar os degraus da responsabilidade social variam segundo a organização e o nível neurológico resultante das forças que nela atuam. Assim as empresas podem ser enquadradas em diferentes momentos do dia, segundo as suas intenções quanto à cidadania corporativa. Existe a empresa do amanhecer, há pouco despertada para a cidadania. Limita-se a cumprir as rotinas que as conquistas da legislação social e ambiental impõem, muitas vezes com sonolência mal disfarçada. Pode até cochilar um pouco na observância das normas mas a luz começa a iluminar seu caminho. Quando o dia está claro, aparece a empresa do meio-dia. Correções no seu curso ficam mais evidentes e a empresa vislumbra erros cometidos ou possibilidades de fazer melhor. A partir desse momento, desenvolve ações corretivas, que tanto podem ser no sentido de realizar projetos ambientais que restaurem danos anteriormente causados, quanto podem ser no plano das relações de trabalho, com fornecedores ou através de projetos sociais. Sem precisar de tanta luz, vem depois a empresa vespertina, que sabe que a maior parte do dia passou e para enfrentar novos desafios é necessária mais competitividade. Ela é mais seletiva na busca de pessoal e sabe que para conquistar os profissionais que deseja tem que oferecer outros atrativos além de salários. Para atrair investidores, precisa oferecer algo mais do que rentabilidade. Para fidelizar clientes, qualidade ou preços não são o bastante para distinguí-la. Para desenvolver o seu padrão gerencial, é necessário recorrer a métodos como o voluntariado corporativo. Já a empresa do último quarto do dia, a empresa da noite, preza o sono tranqüilo. A cidadania empresarial é uma questão consciente de identidade, incorporada à sua missão. Não mais de assusta com os erros cometidos, revelados pelos primeiros raios da luz do sol. Não tem mais grandes correções a fazer, quando o sol está a pino. Está vigilante e satisfeita com os recursos que atrai decorrentes do reconhecimento que faz por merecer. E pode repousar tranqüila, ainda que atenta, sabendo que vai amanhecer no dia seguinte, melhor do que as suas concorrentes. Como a empresa produz é o que define a sua qualidade como empresa-cidadã. Os recursos que utiliza, o padrão gerencial, as relações de trabalho e outros aspectos ligados à forma de combinar os fatores de produção estão na essência da cidadania empresarial. Mal despertou ainda a discussão sobre as implicações para a cidadania empresarial do que a empresa produz ou para quem ela produz. Qualidade de empresa-cidadã No último dia 18, o McDonald"s realizou a 13a edição do McDia Feliz. A meta do McDia Feliz é vender 1,5 milhão de sanduíches, contra a média diária de 300 mil, com a arrecadação de R$ 6 milhões, superior em cerca de 7% à obtida no ano passado. Este faturamento é destinado ao tratamento de crianças com câncer, atendendo neste ano 64 instituições. A campanha é em si uma marca, cada vez mais valorizada, através da associação a uma causa vinculada ao bem comum. Veiculada com uma semana de antecedência, as inserções nos horários de rádio e TV são gratuitas. O cantor Leonardo dispensou o cachê e cerca de 1 mil outdoors em grandes praças urbanas foram cedidos gratuitamente. Outras empresas associam-se como madrinhas, pagando R$ 1,00 a mais por sanduíche vendido, em troca de publicidade nas lojas neste dia. E que ninguém pense que o objetivo é ganhar mais com a venda de refrigerantes ou da McOferta. Além das crianças, quem ganha é a McMarca, valorizada. Paulo Márcio de Mello Professor e diretor de planejamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Correio eletrônico: paulomm@alternex.com.br

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