Saindo da bolha para o concreto

Por Ranulfo Vidigal.

O Brasil foi formado e feito para produzir “pau de tinta” para o luxo europeu por volta do século 16. Depois, açúcar para adoçar as mesmas bocas e ouro para enriquecê-los. Após a independência, nos estruturamos para produzir algodão e café em nossas extensas fazendas. E hoje produzimos alimentos, minério de ferro e petróleo bruto para a China.

Nos contentamos com muito pouco na divisão internacional do trabalho, onde a moeda conversível, o controle das comunicações, o conhecimento, a produtividade e a inovação valem muito mais. Produzir chips escassos atualmente tem muito mais valor, mas a nova fábrica tem como destino Dresden, na Alemanha, por exemplo.

Aliás, num país de passado colonial e elite escravagista, a negritude e o Nordeste ganham as medalhas de ouro e prata, em plena Tóquio vivendo dias de emergência pelo surto da pandemia. Bravo!

Enquanto isso, na terra da jabuticaba, o risco hidrológico causado pelo fenômeno “La Ninha”, traz desconforto para um país de dimensões continentais e uma matriz energética com 60% de oferta oriunda da variável hidrelétrica.

Os preços da energia residencial e industrial ficam a cada dia mais salgados, ou seja, pratica-se sorrateiramente um verdadeiro racionamento via choque de tarifas.

Isso forçará o Banco Central a levar a Taxa Selic aos 7% ao ano, rapidamente, para evitar uma aceleração/aquecimento da economia e da inflação que corrói o poder de compra dos salários e deprime a massa de rendimentos do trabalho, dos aposentados e pensionistas, às vésperas da eleição que se mostra, cada dia, mais acirrada.

Esse episódio comprova, por exemplo, a necessidade do chamado “progressismo” tupiniquim incorporar a questão ambiental nos seus programas de governo – um setor gerador de vagas formais de trabalho.

Aliás, o país já contabiliza mais de 30 milhões de sua força de trabalho subocupada, totalmente desocupada, ou desalentada, e nenhum dos candidatos “progressistas” cita priorizar a redução da jornada de trabalho (ainda que temporária), como forma de reabsorver esse extraordinário contingente ocioso e desesperançado.

A melhora dos números da pandemia no Brasil e a recuperação gradual da atividade econômica motivaram a redução do nível de incerteza, segundo a FGV. Mas, diante da lenta aceleração da imunização de nossa população e da ausência de programas compensatórios, contra indigência e pobreza extrema, a crise tende a se manter!

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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