Salvando a humanidade da falência: acordos climáticos e energia

Por Felipe Quintas, Gustavo Galvão e Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 17:04 - 26 de fev de 2020

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Mostramos em artigos anteriores, que a grande saída para os acordos climáticos deve passar primeiramente pelo banimento do carvão em razão do:

a) Baixo custo de conversão tecnológica das termelétricas a carvão para gás e petróleo;

b) Eliminação da oposição dos acordos climáticos da poderosíssima indústria de petróleo e dos grandes países exportadores; e

c) Manutenção dos incentivos ao uso de energias alternativas e tecnologias poupadoras de energia através do aumento ou manutenção do custo da energia elétrica e do petróleo, mesmo com a contínua redução do custo de produção de energia renovável e do crescente uso de mobilidade elétrica.

Dessa forma, estaríamos mais próximos de um verdadeiro acordo climático, porque o principal grupo opositor, a indústria do petróleo, os países exportadores de petróleo e os países sede de grandes petrolíferas, não mais se oporia.

 

Banimento do carvão terá efeito econômico

de uma guerra, sem que ninguém precise morrer

 

Os Estados Unidos da América (EUA) não são exportadores de petróleo, mas, por serem grandes produtores de petróleo, sede das maiores empresas privadas de petróleo do mundo e terem toda sua economia, indústria, sociedade e estrutura urbana voltada para a mobilidade individual à base do petróleo, hoje são a maior resistência aos acordos climáticos, o que é muito visível nos posicionamentos do presidente Donald Trump.

Com a política de substituição global do carvão por hidrocarbonetos líquidos, os EUA deverão mudar a posição e ficar favoráveis aos acordos climáticos. Mas há uma questão complicada nos EUA, que é grande utilização de carvão para produção de eletricidade. Os estados produtores de carvão e as empresas termelétricas resistirão. Mas a necessidade crucial de aumento e manutenção do preço do petróleo e do gás acabará vencendo.

Há muito mais estados dependentes do petróleo e gás do que do carvão, assim como o valor financeiro movimentado por esses setores. A indústria norte-americana do petróleo possui altos custos de produção e fará de tudo para manter seus preços de venda. A política de Obama de fechamento das usinas voltará com ou sem Trump, se a indústria do petróleo passar de aliada para adversária da indústria do carvão.

Mas isso ainda não é o consenso necessário para um verdadeiro e justo acordo global contra as mudanças climáticas ou simplesmente para redução das emissões, como preferem os denominados céticos.

A Europa e o Japão são os principais patrocinadores desse acordo. Entre eles há grandes consumidores de carvão para uso termelétrico, como a Alemanha. Mas eles não se oporão ao banimento do carvão, porque essa já é um meta de longo prazo desses países, basta que seja adiantada. Como esses países possuem boa parte das principais empresas de engenharia que vão se beneficiar com essa política, eles deverão concordar. E a sociedade europeia já está majoritariamente convencida. Evidentemente, alguns países como a Noruega, Dinamarca, França e Suíça, que usam muito pouco carvão para produção de eletricidade, seriam apoiadores entusiásticos.

O Brasil, que era o principal defensor dos acordos climáticos entre os Brics e os países em desenvolvimento, hoje, com o Governo Bolsonaro, que segue orientação de Donald Trump, tem uma posição diferente. O principal motivo dessa mudança de comportamento do Brasil é que nosso país agora já é um grande exportador de petróleo e está depositando todas as esperanças de seu desenvolvimento próximo no crescimento da produção e exportação de petróleo.

Sem o Brasil levando sua posição aos Brics e ao mundo em desenvolvimento, não há acordo climático. Mas com o banimento do carvão mineral, o Brasil voltará a sua posição tradicional, independentemente do que pense o governo atual, mesmo porque a posição dos EUA também mudará. O Brasil não é um grande produtor de termeletricidade a carvão.

Os países exportadores de petróleo e gás certamente vão apoiar uma política que busque resolver as mudanças climáticas sem reduzir o consumo de hidrocarbonetos fluídos. As maiores dúvidas seriam a Rússia e a Austrália, porque têm grandes reservas e são exportadores e consumidores de carvão para uso termelétrico. Mas não devem ser opor, porque o valor da exportação de gás natural é maior do que de carvão e, como os EUA, eles não teriam dificuldade de substituir o consumo de carvão pelo gás. Suas indústrias de petróleo, que são poderosas, não terão dificuldade de isolar os interesses da indústria do carvão.

Evidentemente que as empresas, trabalhadores e regiões que hoje dependem do carvão precisam ser recompensadas de alguma forma. No caso dos países que são grandes produtores de petróleo e gás, essa compensação pode ser resolvida com políticas internas de compensação por meio de acordos democráticos.

Nas questões internacionais, países que dependem mais das exportações de carvão do que de petróleo e gás e os grandes dependentes de térmicas a carvão vão se opor a essa proposta.

Há alguns pequenos e médios exportadores de carvão, como a Indonésia, que precisam ser recompensados. Nesse caso, seria importante usar o fundo global para compensação das mudanças climáticas e oferecer uma fonte fixa de divisas para compensarem a queda de suas exportações.

As maiores resistências que antevemos viriam da China, Índia e África do Sul, maioria dos Brics. Compensar suas exportações de carvão seria necessário, mas insuficiente para que esses países mudem sua matriz energética.

Compensar a conversão multibilionária da sua infraestrutura energética para outras fontes pode ser um custo que eles não estejam tão dispostos a pagar como os países ricos da Europa ou os ricos e produtores de petróleo como os EUA, Canadá e Austrália. Esse custo é tão alto que nenhum país terá interesse em oferecer uma compensação.

É claro que as vozes protecionistas na América do Norte, Europa e Japão vão sugerir que sejam erguidas tarifas ambientais contra as exportações de manufaturados da China e da Índia para forçá-los a aceitar o banimento do carvão. Essa talvez seja até uma solução eficaz, especialmente no caso da China, que sofre muito com a poluição em suas grandes cidades, tem recursos financeiros, energéticos (caso aumente suas importações de petróleo e gás) e tecnológicos para essa conversão e quer evitar tarifas protecionistas a qualquer custo.

A China, por ser uma grande exportadora de engenharia, acabaria se beneficiando com uma política global de conversão energética decorrente do banimento do carvão termelétrico.

No caso da Índia, a situação é muito diferente. Ela não tem os recursos da China para essa conversão. O mundo teria que criar uma política de financiamento externo barato de longo prazo para a conversão das termelétricas indianas, o aumento do investimento em energia renovável e até o aumento das importações de petróleo dela por alguns anos. Caso contrário, a Índia poderia sofrer uma calamidade social, caso seja imposta a ela uma política de protecionismo ambiental para obrigá-la a banir o carvão.

Nesse sentido, fica claro que, apesar de ser muito mais barata e consensual do que todas as outras soluções já apresentadas para se encontrar o acordo climático, o banimento do carvão também vai precisar constituir um fundo de compensações, que receberia dinheiro dos países mais ricos mas que poderia também receber dos grandes exportadores de petróleo e gás, especialmente daqueles que não vão precisar fazer grandes conversações de suas usinas termelétricas.

 

A saída da crise global

 

O banimento do carvão termelétrico terá o efeito econômico de uma guerra, mas sem que ninguém precise morrer. A guerra normalmente resolve os problemas de desemprego, crise bancária, excesso de oferta, capacidade ociosa, recessão e estagnação porque faz o governo aumentar substancialmente os gastos e o déficit público e assim aumenta o emprego, aumenta a oferta de dinheiro, melhorando o balanço do setor bancário, e aumenta o investimento privado para atender a essa demanda crescente.

No caso do investimento, o aumento é muito mais significativo do que seria em recuperações econômicas comuns, porque a guerra queima muito capital ocioso através da destruição ou obsolescência acelerada. Isso faz com que o investimento cresça não apenas para atender ao aumento da demanda, mas para substituir capital que foi destruído ou ficou obsoleto.

O banimento do carvão tem efeitos parecidos, porque a relação capital-produto da produção de eletricidade é muito grande. Portanto, o valor de investimento para trocar grandes conjuntos de usinas produtoras de energia é enorme. O banimento do carvão, além de conversão de milhares de usinas termelétricas para outro combustível, teria ainda como consequência a manutenção de um alto preço para eletricidade e do petróleo, incentivando também a elevação do investimento em energias renováveis para produção de eletricidade e para uso nos veículos.

Assim, serão aumentados os investimentos em energia solar e eólica, bem como os investimentos na agricultura, em razão da manutenção de elevados preços para os produtos agrícolas. O fim da produção de biocombustíveis levaria hoje a um colapso da agricultura mundial; assim, a manutenção dos preços do petróleo são importantes para a manutenção e crescimento da prosperidade rural, pelo menos pela próxima década.

O maior valor em investimento seria, no entanto, a conversão, ainda que gradual, para a mobilidade elétrica, porque o valor dos automóveis individuais é imenso em relação ao PIB mundial, assim como toda sua infraestrutura de abastecimento, mobilidade e estrutura urbana. Poderemos explicar isso futuramente, mas a mobilidade elétrica vai mudar toda a estrutura das cidades no planeta e produzir assim um ciclo de crescimento e prosperidade semelhante ao que aconteceu (ainda que desigual) no Planeta após a Segunda Guerra Mundial com a difusão do American Way of Life baseado no carro a gasolina, no caminhão e no trator.

Nesse sentido, podemos dizer que o banimento do carvão e a consequente aceleração das políticas de conversão à economia de baixo carbono salvará o mundo da crise econômica e engatará o Planeta em um novo ciclo de prosperidade.

 

Evitando a grande guerra

 

Com o afastamento do risco de nova depressão e as guerras comerciais e redução da cooperação internacional que seriam resultado, podemos dizer que esse seria um grande passo para afastar nosso mundo da nova Grande Guerra.

Essa política poderá evitar igualmente uma grande guerra internacional, porque, ao tirar a economia global da recessão e restabelecer o crescimento do comércio global, a rivalidade entre os países diminuirá, e a adesão dos povos a políticos agressivamente nacionalistas também diminuirá com a redução do desemprego.

Além disso, o acordo climático bem sucedido e operacional, na medida em que fortalece a ONU e a cooperação política, tecnológica e econômica internacional, diminui a propensão à agressividade geopolítica e às guerras.

Assim, o banimento do carvão poderá evitar a nova Grande Depressão e a nova Grande Guerra. Como troco, ainda receberemos, para a maioria que assim acredita, o fim do risco de colapso climático global. Então, por que não?

Felipe Quintas

Doutorando na Universidade Federal Fluminense.

Gustavo Galvão

Doutor em Economia.

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado.

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