Saudade da Dona Rachel

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:20 - 19 de nov de 2020

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São muitas as lembranças que guardo em minha memória e em meu coração da saudosa Rachel de Queiróz, com quem tive a honra de conviver a partir do final da década de 80. Ela teria feito, no último dia 17 de novembro, 110 anos. Ela era filha de Daniel de Queiroz Lima e de Clotilde Franklin de Queiroz e descendente, pelo lado materno da família, do extraordinário escritor José de Alencar.

Morta em 4 de novembro de 2003, Dona Rachel, como eu a chamava, foi uma intelectual das mais notáveis, uma jornalista perspicaz, tendo atuado nas redações de O Jornal, Diário de Notícias, Folha Carioca, Última Hora, Jornal do Comércio, Revista O Cruzeiro e Estadão. Foi uma mulher que sempre esteve à frente do seu tempo, tendo sido a primeira a ser eleita imortal da Academia Brasileira de Letras, em 1977, e a primeira a conquistar o concorrido Prêmio Camões, em 1993.

A notável escritora cearense entrou para a história da literatura do Brasil e escreveu obras das mais importantes e que marcariam gerações de leitores e autores, dentre as quais, destacaria O Quinze (1930), escrito quando tinha apenas 20 anos de idade, e que julgo ser a sua obra-prima. Ela se consagrou, no Brasil, com esse romance e nos brindou a todos com seu olhar de mulher. Com esse livro, Dona Rachel inaugurou o romance regionalista nordestino, abrindo o caminho para Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. O livro é situado na seca de 1915, cujos efeitos levaram sua família a buscar refúgio no Rio, em 1917.

Rachel consagrou-se entre as romancistas pioneiras que, no Brasil, focalizaram criticamente o cerceamento à liberdade de pensar, agir e amar, duramente imposto à mulher pela sociedade tradicional.

Sua carreira literária segue com a publicação de romances, coletâneas de crônicas, folhetins, peças e livros infantis, como João Miguel (1932), Caminho de Pedras (1937), As Três Marias (1939), A Donzela e a Moura Torta (1948), O Galo de Ouro (1950), Lampião (1953), A Beata Maria do Egito (1958), Cem Crônicas Escolhidas (1958), O Brasileiro Perplexo (1964), O Menino Mágico (1969), Dôra, Doralina (1975), Memorial de Maria Moura (1992) e As Terras Ásperas (1993), dentre outros títulos. Várias dessas obras, eu as tenho autografadas pela autora, com belas dedicatórias, guardando-as como verdadeiros troféus.

O que mais me encantava nessa magnífica escritora, além da sua formidável criatividade, eram a sua simplicidade e a sua generosidade. Ela era uma mulher acolhedora, que mantinha permanentemente bom humor e gostava de contar causos. E, desde o primeiro contato que mantive com Dona Rachel, em seu apartamento do Leblon, quando fui entrevistá-la, fiquei verdadeiramente encantado com sua personalidade vibrante, com sua atenção e seu modo de falar, tranquilo, sereno, meigo. Sempre impecavelmente vestida e com o seu colar de pérolas, uma das suas marcas, ela recebia a todos de forma carinhosa e com extrema fidalguia.

Lembro-me que, nesse encontro em um dia nublado e num final de tarde, terminada a entrevista, que se prolongou mais do que deveria, pois queria escutar mais o que aquela mulher tão vigorosa tinha a dizer, Dona Rachel me convidou para lanchar. O convite foi logo aceito. Claro! A fotógrafa que estava comigo regressou para a redação do jornal e eu permaneci com Dona Rachel, em seu apartamento da Rua Rita Ludolf, conversando sobre literatura, sobre a personalidade do então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde (1959 até 1993) sobre o convite que recebeu do presidente Castelo Branco para ser ministra de Estado, sobre sua vinda para o Rio, sobre o seu Ceará e a sua fazenda, Não me Deixes, em Quixadá. Uma conversa recheada de boas lembranças. E assim nasceu uma amizade que duraria até o seu falecimento, quando estive em seu velório, na ABL, naturalmente, e lhe prestei as minhas homenagens.

Rachel de Queiróz ocupou a cadeira 5 da ABL até morrer. O passo dado com a eleição de Dona Rachel possibilitou que outras mulheres entrassem no espaço. Em 1980, ingressou, na ABL, a romancista Dinah Silveira de Queiroz. Rachel foi uma pioneira na Academia e, de certa forma, recebeu, naquele momento, em nome de todas as mulheres escritoras, o reconhecimento de umas das instâncias de validação do mundo literário. Hoje, a academia reúne várias mulheres: Cleonice Berardinelli, Rosiska Darcy de Oliveira, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Ana Maria Machado, as duas últimas que já ocuparam, inclusive, a presidência da Casa de Machado de Assis.

Até a eleição de Dona Rachel, havia uma crença de que academia tinha sido feita só para acadêmicos, só para candidatos do sexo masculino. Era uma época de um machismo desenfreado. E ela, com delicadeza e perseverança, rompeu essa fronteira.

Dona Rachel também integrou a Academia Cearense de Letras, eleita em 1994, e ocupou a vaga de Moreira Campos, na cadeira 32. A escritora levou a visão da menina da fazenda Não me Deixes para as academias.

Como vivemos em um país sem memória, relembrar a trajetória e a importância de Dona Rachel, na semana em que estaria completando 110 anos de vida, é enfatizar a sua importância como tradutora, romancista, escritora, jornalista, cronista prolífica e importante dramaturga nacional.

Para celebrar essa data, a Academia Brasileira de Letras apresenta, por meio de seu canal de podcast, a série Efemérides Acadêmicas, uma homenagem especial aos 110 anos do nascimento de Rachel de Queiroz. O episódio, que foi ao ar no dia 17 de novembro, conta com a participação da Acadêmica Nélida Piñon. A apresentação é feita pelo Acadêmico Marco Lucchesi. A emissão está disponível no site da Academia, assim como nas plataformas Apple Podcast, Spotify, Deezer e Castbox.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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