O país está em alerta diante das últimas estrepolias do MST, que deu para invadir prédios públicos e inferniza a vida do governo.
Fantasmas de um passado bastante recente tem sido evocados e convocados para restabelecer a ordem. O presidente da República afirma que o limite de tolerância foi rompido. A Polícia Federal ressuscitou a Lei de Segurança Nacional. O Ministro da Reforma Agrária quer a prisão dos baderneiros. Seu colega das Comunicações restabeleceu a censura proibindo a TV Cultura de apresentar entrevista de Pedro Stédile, ele, o Demo em pessoa segundo a revista “Veja”.
Gente que há muito andava calada, ou que nunca teve senso para ficar quieta, resolveu aparecer em cena para falar bobagens do gênero ameaça vermelha. Juristas da tropa de choque da direita, com seus argumentos tão pomposos quanto surrados, condenam os atos do movimento.
A mídia, este segmento econômico devoto do poder, cuidou de forjar a causa da idéia em si correta de que o país está por um fio à beira do abismo, atribuindo-a aos reclamos e ações dos sem-terra. Na tentativa de desqualificar a organização dos sem-terra, pululam acusações de que o movimento, à imagem dos comunistas que comiam criancinhas, se apropria do dinheiro dos lavradores, quer acabar com a propriedade privada e blablablá.
Das leviandades, a maior é aquela que procura questionar a liderança de Pedro Stédile, dado que é um economista e não um pé-descalço, bobagem que não deixa de ser curiosa porque se o assunto fosse Lula, sua baixa escolaridade é que o desqualificaria para exercer liderança.
As elites em geral são cruéis, mas a nossa é cínica.
Houve quem no governo clamasse com a violação de direitos humanos por parte dos sem-terra. A bobagem de invocar os direitos do povo para proteger os governantes não é inédita. Não nos esqueçamos do lamentável episódio em que nosso presidente e seus amigos se reduziram à condição de mortais para reclamar da privacidade roubada de seus telefonemas suspeitos. Tem também a Pasta Rosa.
Nossa elite é também violenta. As soluções de força lhe caem bem. FH cometeu o despautério de afirmar que a morte de um sem-terra no Paraná deve servir de alerta! Hoje, dizem que um policial foi o autor do crime, mas já foi dito que o movimento realizou autofagia na sua sanha baderneira. Logo estará o governo a reclamar da violação dos direitos humanos pela polícia, numa prova que violência e cinismo andam de mãos dadas em Brasília.
Já que os sem-terra estavam nas ruas, aproveitou-se para aplicar a pedagogia da violência contra índios e populares na “festa” dos 500 anos. Alguns dias depois, pancadaria para os grevistas da Avenida Paulista. Novamente a demonstrar a intimidade do cinismo com a violência, o presidente da República afirmou na grande imprensa que não vê na insatisfação desta gente toda problema social, mas sim político.
A caracterização da insatisfação como política, argumento que seria burro se antes não fosse cínico, é mais um modo para desqualificar a oposição popular. Veste bem em todos os casos, especialmente em relação ao MST.
Apesar de todo o amontoado de bobagens, a tática psico-social do medo funcionou. Todos ficamos assustados. Lideranças acadêmicas e políticas revelaram preocupação e formularam censuras. A imagem de prédios públicos invadidos e estradas ocupadas assustou muita gente, como se escolas ou hospitais tivessem sido o alvo do MST.
Não podemos, a sociedade civil, nos amesquinhar e apequenar diante do poder sem limites das elites. Ela nos ensinou o péssimo hábito de refletir a realidade a partir de seus conceitos e noções, e isto nos leva ao acanhamento e à traição do princípio da solidariedade.
A chave para entender o que se passa nos dá o professor Cândido Mendes. Segundo ele, os sem-terra tem impaciência, uma impaciência que é fria, e isto, diante da postergação histórica do problema agrário, constitui um direito (A presidência afortunada, 1999). A impaciência dos sem-terra, porque fria, já não faz concessões ao poder.
Se nos autorizarmos a interpretar a realidade ex parte populi, as lamúrias de Brasília não fazem sentido. De vítimas inocentes, os poderosos passam à condição de agressores covardes.
Assim fica até mais fácil entender porque noutras situações alguns amigos do presidente tem sido recebidos à varadas e ovadas, o que os coloca ao lado de grandes personagens desta quadra globalitária como Michel Camdessus e Bill Gates, muito embora estes dois não sejam dados à tentação de bancar o macho furando acampamento de grevistas.
Esta revisão de posições, a partir de noção de que a impaciência é um direito, nos ajuda ainda a entender tantos outros fenômenos doloridos como as rebeliões na Febem, as fugas de distritos policiais, a criminalidade avassaladora e a reclusão obsequiosa dos citadinos em seus lares.
Naquilo que motiva estas linhas, esta mudança de atitude permite reagir e garantir o que, como observa o professor Celso furtado, é “a única força social nova com grande capacidade de mobilização” (O capitalismo global, 1998). O papel do MST na história da reação democrática contra a idolatria do capital e do tecnicismo reinante merece reconhecimento e preservação.
O Superior Tribunal de Justiça já teve a oportunidade de trilhar este caminho ao recusar a prisão de alguns sem-terra, o que significa recusar a solução da criminalização para problemas relativos a direitos civis sistematicamente recusados pelas elites. A coragem deste tribunal merece nosso tributo e serve de luz a guiar a reação contra o obscuro caminho que as elites pretendem com a imposição da ordem autoritária.
Assim, e de resto, o que há de sobrar no planalto é saudades do Jeca Tatu!
Luís Fernando Vidal
Juiz de Direito em São Paulo e membro da AJD. Artigo publicado no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, edição nº 202















