Saúde, sustentabilidade e nutrição

Impedir que 99% da população sejam sacrificados pelo desfrute de 1%.

No momento em que a pandemia da Covid-19, crises econômicas, guerras, mudanças climáticas e outras tragédias assolam o mundo, é oportuna a revisão de trechos da coluna Empresa-Cidadã sobre o assunto, editada em 17 de julho de 2013 (sob o título “Saúde, sustentabilidade e nutrição”):

  • O Dia da Saúde e da Nutrição é uma data criada no Brasil para ser lembrada no dia 31 de março e estimular o debate sobre a importância das práticas nutricionais corretas, bem como para a conferência das políticas públicas e empresariais.
  • Muito além de saciar a fome, as práticas nutricionais adequadas consideram também aspectos como padrões de consumo, orientação do investimento, processos de tomada de decisões nos planos empresarial, público e internacional, o acesso digno à renda e à riqueza, à informação, ao saber e aos recursos ambientais, entre outros.
  • Em relação ao primeiro objetivo dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de erradicar a extrema pobreza e a fome, foi fixada a meta de reduzir pela metade, até 2015, a proporção da população que sofre de fome, com base nos números verificados em 1990. Mesmo com a consideração crítica de que o indicador adotado, de crianças abaixo do peso, não espelha toda a complexidade do objetivo, já que estar no peso, por si só, não significa estar bem nutrido, o Brasil já registrou sucesso, ao atingir, ainda em 2006, a proporção de 1,8% da população flagelada pela fome, enquanto a meta é de 2,1%.
  • Outro desafio a ser enfrentado refere-se aos significados distintos da nutrição, como conjunto de práticas de saúde, versus alimentação, como conjunto de práticas culturais. Frequentemente, a população em geral, e os mais pobres, em especial são acusados de serem os principais responsáveis por suas insuficientes condições nutricionais, por não se utilizarem plenamente das propriedades dos alimentos ou pelo desperdício destas mesmas propriedades.
  • É comum, em campanhas nutricionais e nas peças publicitárias correspondentes sugestões para a ingesta de compostos exóticos, como casca de ovo triturada, ou espinha de peixe moída, por que oferecem cálcio, cascas de frutas ou talos de verduras, por que oferecem nutrientes, leites de soja ou de outras oleaginosas, farinhas insossas, e muito mais do que a imaginação permite.
  • Sem questionar o que os laboratórios de pesquisa dizem sobre ricas propriedades destas matérias excêntricas, o que o crítico propõe é o que não utiliza para o próprio consumo ou dos seus mais queridos. Esquece-se de que a alimentação é norma cultural, representado mais do que nutrir, mas o pertencimento a um grupo social. Dietas ascéticas, em que a austeridade predomina sobre os prazeres, são próprias para se recomendar, mas não para praticar.
  • As possibilidades das práticas adequadas de nutrição contribuírem para a sustentabilidade são imensas. Uma agenda nutricional, para mais bem orientar a sociedade, é urgente, contemplando aspectos como dietas descarbonizadas. Em outras palavras, para orientar sobre a substituição da sobreingestão de carnes, que implica um processo produtivo excludente e intensivo na emissão de gases causadores das mudanças climáticas.
  • Outros aspectos referem-se, por exemplo, à substituição dos processos que implicam a produção e preparação de alimentos intensivas em água. É só lembrar-se de que uma refeição frugal, como um filé de frango e uma saladinha, consome cerca de 1.000 litros de água, para chegar ao prato.
  • Ou processos economicamente excludentes e concentradores da renda e da riqueza, incluídos entre os causadores da atual epidemia de obesidade, principalmente nos países em que a criação do gado é estabulada e acarreta o desequilíbrio entre os fatores ômega 3 e ômega 6, ou é feita com criação e abate cruéis, casos da carne de vitela, baby-beef ou patê de foie gras.
  • Ou ainda a aplicação da regra dos “erres” (reutilizar, reduzir, reciclar etc.) à produção e preparação de alimentos e ao uso de embalagens, ou o estímulo à produção de orgânicos, de produtos da agricultura familiar e da redução do uso exagerado de agrotóxicos, entre outros.
  • No Brasil, o profissional especialmente dedicado a estas questões é o nutricionista. Em 1939, o primeiro curso de Nutrição foi criado pela Universidade de São Paulo (USP). Em 31 de agosto de 1949, a institucionalização da Associação Brasileira de Nutricionistas (ABN), mais tarde Federação Brasileira de Nutrição (Febran), foi outro marco que culminou com a regulamentação da profissão e definição das atividades privativas, através da Lei 8.234, de 1991, e com a Resolução CFN 380/2005, estabelece as áreas de atuação do nutricionista.
  • O estudo e a difusão das práticas nutricionais corretas representam aspectos importantes na sustentabilidade e facilitam a chegada a padrões civilizados de consumo, compatíveis com a justiça social, impedindo que 99% da população sejam sacrificados pelo desfrute de apenas 1%.
Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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