Se o euro morrer, não haverá reforma do sistema

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A estratégia de demolição do euro e da União Européia (UE) prossegue sem trégua. Após o rebaixamento da Itália, França e outros sete países da UE, a agência de classificação de risco estatunidense Standard & Poor”s também rebaixou o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), o fundo salvador de estados. Mas, pelo menos, começaram a ouvir-se vozes de denúncia, inclusive, de quem não costuma ser rotulado de adepto de teorias conspiratórias.
O comissário europeu de Assuntos Econômicos, Olli Rehn, descreveu a S&P como um “elemento com os seus interesses econômicos”, que opera de acordo com o capitalismo financeiro dos EUA e de Wall Street. [O premiê italiano] Mario Monti se sentiu obrigado a falar de um “ataque ao euro” e [o presidente do Banco Central Europeu] Mario Draghi, pela primeira vez, disse que não se deve dar muito peso às avaliações das “três irmãs”.
Como se sabe, as três agências, em particular, a predominante S&P, tanto antes como após a crise de 2008, foram responsáveis por terem facilitado a inundação mercados de títulos “tóxicos” e derivativos, concedendo a todos estes instrumentos altamente especulativos a classificação “triplo A”, claro, mediante pagamento. O comissário Rehn também já disse que “alguém ganhou dinheiro com a desestabilização” produzida pelos rebaixamentos dos títulos. De fato, parece que está em marcha uma especulação de baixa contra o euro.
Mas, a verdadeira questão é: por que um ataque tão concentrado e forte contra o euro? Não basta a referência habitual à lei do mercado, onde o “negócios são sempre negócios” e se ganha dinheiro com qualquer coisa que se mova sem qualquer respeito pelos outros. Assim, o euro e as dívidas soberanas europeias continuarão a ser atacados até que atinjam uma “posição de equilíbrio” aceita pelos mercados.
Não basta nem mesmo se falar de concorrência entre primos, na qual os EUA e o dólar teriam se sentido ameaçados pela emergência da UE e de uma moeda forte como o euro, que poderia desafiá-los e substituí-los no comércio internacional e nos mercados financeiros.
Na verdade, o euro, por conta de suas fraquezas intrínsecas, sejam estruturais ou políticas, nunca apresentou realmente tal problema ao bloco EUA-dólar. Infelizmente, a UE ainda é um canteiro de obras que precisa de um longo tempo e de estabilidade interna e internacional, para superar todos os obstáculos e fatores econômicos, políticos e culturais que se opõem a uma verdadeira governança unificada.
Portanto, a lentidão e as debilidades do processo europeu somente podem justificar os ataques dos “chacais financeiros” que especulam nas margens do sistema, não a atual estratégia de aniquilação do euro.
Assim sendo, não há uma explicação simplista que seja aceitável. Para se entender melhor os processos em curso, é preciso olhar para os grandes processos da globalização, o papel dos novos e poderosos atores econômicos e políticos, os efeitos da queda do Muro de Berlim e a consequente crise do sistema unipolar do dólar.
Está emergindo uma nova e irresistível demanda por reformas monetárias, econômicas e comerciais capazes de fornecer respostas adequadas a um mundo politicamente multipolar. Além da UE, o bloco Brics e outras coalizões regionais de países emergentes também estão escrevendo as novas páginas da História. E não se trata apenas de uma nova libertação política ou uma nova independência econômica, mas estes novos protagonistas acreditam que chegou o momento de se pensar de um sistema internacional econômica e monetariamente renovado, onde todos tenham peso e uma real capacidade de decisão.
Um sintoma desses novos tempos é o recém anunciado acordo dos governos chinês e japonês, para contabilizar suas trocas comerciais em iuans e ienes, e não mais em dólares.
Ademais, aumentam os clamores pelo estabelecimento de uma cesta de moedas que, além do dólar, do euro e do iene, também inclua as moedas da China, Índia, Rússia, Brasil e outros países, bem como o ouro. Este é um processo não linear e não isento de riscos geopolíticos. O sistema do dólar, que tem dominado as finanças mundiais, sabe que perderá privilégios e rendimentos. E sabe também que as grandes bolhas financeiros, como a dos derivativos de balcão, não pode ter um lugar em tal sistema.
Na construção de tal cesta de moedas, o euro tende a ter um considerável peso econômico e político. A UE é a primeira economia industrial do planeta, sendo também um pólo tecnológico. A sua estabilidade pode desempenhar um papel de catalisador para outras economias emergentes. Se não se puder contar com a Europa e o euro, o caminho para o novo sistema monetário será bloqueado. A China e os demais membros do Brics estão crescendo rapidamente, mas ainda não têm a capacidade de determinar semelhantes mudanças sistêmicas.
Além disso, a UE e o euro podem ser atores centrais na construção da integração eurasiática com modernas “rotas da seda”. Tratam-se de novos cenários de desenvolvimento, não apenas econômico, mas, sobretudo, para a paz mundial. Os adeptos de uma geopolítica de velho corte britânico sempre se opuseram a eles, porque vêem a Eurásia em contraposição aos interesses dos EUA e, agora, acreditam que uma eventual derrocada do euro venha a interromper tal processo.
Por tudo isso, a Europa deve tornar-se consciente dessa evolução e confrontar os seus problemas com a ótica dos grandes desafios globais. Assim fazendo, poderá encontrar aliados estratégicos nos BRICS e não ficar vendo-os apenas como potenciais compradores de títulos de dívida. Porém, é preciso que se convença de que o “tabuleiro de jogo” é, objetivamente, maior que o dos interesses anglo-americanos.

Mario Lettieri e Paolo Raimondi
Artigo publicado originalmente na Resenha Estratégica, do Movimento de Solidariedade Ibero-americana
www.msia.org.br)

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