Longe de serem meras “proxies” de juros, as seguradoras listadas na B3 demonstram uma maturidade estratégica que equilibra subscrição técnica rigorosa com uma gestão de ativos sofisticada. Para o público do mercado financeiro, o setor oferece hoje uma combinação rara: ROEs que superam amplamente os benchmarks internacionais e uma previsibilidade de fluxo de caixa ancorada em contratos de longo prazo.
A trajetória das seguradoras brasileiras nos últimos cinco anos foi marcada por uma adaptação forçada, porém bem-sucedida. Durante o biênio 2020–2021, com a Selic na mínima histórica de 2%, o setor enfrentou o colapso de seu resultado financeiro. A resposta foi uma virada estratégica focada em eficiência operacional e digitalização. Empresas como a Porto (PSSA3) aceleraram a criação de ecossistemas de serviços para retenção de clientes e diversificação de receitas, enquanto holdings de bancassurance refinaram seus modelos de venda cruzada.
Essa evolução preparou o terreno para o cenário atual. Com a Selic retornando a patamares de dois dígitos (14,75% em 2026), as companhias passam a operar no “melhor dos dois mundos”: estruturas mais enxutas e rentáveis combinadas a um float financeiro robusto. O IRB Brasil RE (IRBR3) simboliza essa transformação, ao sair de uma crise de governança para registrar lucro de R$ 505 milhões em 2025, com foco estrito em rentabilidade técnica, e não em volume.
Ao analisar as empresas de capital aberto, o diferencial competitivo reside na estrutura contratual e na capilaridade das carteiras. A BB Seguridade (BBSE3) e a Caixa Seguridade (CXSE3) operam modelos de baixo risco e alta conversão, porém com horizontes contratuais distintos que merecem atenção do investidor.
Enquanto a Caixa Seguridade apresenta maior previsibilidade, com contratos que se estendem até 2050, a BB Seguridade opera sob a perspectiva de 2033, data de vencimento de seu principal acordo com o Banco do Brasil. Embora a renovação seja considerada o cenário base, as condições comerciais futuras permanecem como ponto de atenção. Já a Porto destaca-se pela fidelização de sua base de clientes, utilizando estratégias de “cross-selling” entre seguros, saúde e serviços financeiros para reduzir o churn em um mercado altamente competitivo.
A superioridade dos retornos brasileiros torna-se evidente na comparação com players globais. Enquanto grupos como a Allianz e a AXA operam com ROEs entre 15% e 18%, as seguradoras brasileiras frequentemente superam a marca de 25% — ou muito mais, no caso das holdings. Esse prêmio de rentabilidade compensa, em grande medida, a maior volatilidade macroeconômica do país.
O cenário para 2026 é amplamente favorável, mas exige atenção à sinistralidade. O Boletim Focus projeta um IPCA de 4,86% para o final do ano, pressionando custos com peças automotivas e serviços médicos. O “vento a favor” está na manutenção de juros elevados para conter a inflação, sustentando o resultado financeiro como importante motor de lucro. O principal risco macroeconômico reside em uma eventual aceleração da inflação de serviços que supere a capacidade de reajuste dos prêmios das apólices.
O setor de seguros na B3 em 2026 consolida-se como uma tese de maturidade. O valor não está apenas no elevado dividend yield – que pode superar 12% em BBSE3 e CXSE3 -, mas na capacidade comprovada de geração de valor operacional, independentemente do ciclo de juros. Para o investidor, a escolha entre a previsibilidade da Caixa Seguridade, a dominância da BB Seguridade ou a agilidade estratégica da Porto deve considerar o risco contratual e o apetite por crescimento operacional.
Sandra Peres Komeso é diretora de Relações com Empresas na Apimec Brasil

















